Claudio de Moura Castro
*Claudio de Moura Castro

O título de pós-doutor é pura invencionice brasileira.

No campo da educação, os inventos brasileiros são poucos. Mas pipocou um novo. Já havia percebido, e avivou-me a memória um blog de Simon Schwartzman: inventamos o pós-doutor! Em todas as sociedades, em algumas mais do que em outras, há palavras mágicas que se acoplam ao nome de certas pessoas. No Império, alguns eram premiados com o título de barão, conde ou visconde. Mais adiante, o título de coronel era oficialmente atribuído a potentados locais – ou usurpado com impunidade. No Vaticano, sempre houve o comércio de ungir comendadores, a bom dinheiro.

Quando um título universitário era uma prenda rara, ser “doutor” separava os escolhidos da plebe. Os anéis, um para cada profissão, identificavam os seus envaidecidos portadores. Durante o curso, antes da assinatura de cartas, convinha apor a expressão “saudações universitárias”. Até hoje, há prisão especial para os sacrificados que conseguiram vencer a barreira do diploma.

Mas inflou-se o número de diplomados. E, pela lei da oferta e da procura, “doutor” deixou de ser grande coisa. Providencialmente, aparecem os cursos de mestrado, criando um degrau acima para diferenciar do povaréu os seus detentores. Mas a palavra tem fragilidades. Qualquer mestre-escola é chamado de mestre. E havia mestres-ferradores, instalando ferraduras em muares.

Vivas, aparece um novo título, o Ph.D.! É o verdadeiro doutor, com tese defendida diante da namorada, da mulher ou até dos netos. Recupera-se assim a superioridade, nos píncaros nobiliárquicos da vida acadêmica. É até possível comprar baratinho um desses diplomas, em países vizinhos. Mas não é fácil escapar incólume, pois o território é bem defendido pelas autoridades do MEC. Até aqui, nada de novo, pois quase todos querem ser um pouquinho mais do que o próximo. Tampouco há algo de errado nisso, que, aliás, só faz enriquecer intelectualmente o proprietário. E, como atesta quem vos escreve, obter um doutorado em uma universidade de primeira linha é um processo longo, penoso e merecedor de algum reconhecimento.

Mas acontece que os Ph.Ds. se autorreproduzem. Mais se formam, mais professores disponíveis para os programas de doutoramento que pipocam por ai A cada ano, produzimos 17000 doutores. Essa inflação é ótima para o país,mas uma catástrofe para os previamente glorificados por tal diploma.

Era preciso providenciar um novo patamar de status. Entra em cena a criatividade brasileira: cria-se o pós- doutor. Mas acontece que o tal pós-doutor é um título vazio ou inexistente, pois não há cursos de pós-doutoramento. Na prática, autointítulam-se pós-doutores aqueles que passaram alguns meses em uma universidade no exterior.

Dado o isolamento acadêmico do Brasil, nada mais bem-vindo do que arejar nossos professores com um período no exterior. Mas, como há milhares de universidades, das esplêndidas às vergonhosas, só Deus sabe por onde andaram e o que realizaram os pós-doutores. Um ano trabalhando em um estudo conjunto com um pesquisador de boa cepa é um uso irreprochável dos recursos do patrocinador. Mas acontece que não há nenhum filtro para conseguir uma salinha em alguma universidade e lá passar um tempo.

Alguns são convidados para ministrar seminários ou cursos. Há os que fazem pesquisa e interagem com colegas. Alguns assistem a aulas como ouvintes, não é má ideia. Outros passeiam pelo câmpus ou fazem turismo.

Ninguém fica sabendo o que aconteceu. Inexiste o prêmio de ser aceito por boas universidades, pois, como elas não oferecem notas, diplomas nem mesmo certificados, aceitam alegremente quem aparece. Afinal, não há desempenho, bom ou ruim, para comprometer a instituição. Quase qualquer um pode ser visiting scholar, mesmo em universidades de primeira linha. É uma alternativa para autoridades destronadas. Pode ser uma esplêndida ideia passar um ano em uma boa universidade estrangeira. Documentando que o tempo foi bem aplicado, contribui para o currículo. Mas o título de pós-doutor é pura invencionice brasileira. Simplesmente, não existe.

*Economista e professor. Matéria na Revista Veja nº 2513, de 18/01/2017.
Compartilhar
Autor Externo
As publicações são fontes externas de outros veículos de comunicação.

38 COMENTÁRIOS

  1. O uso do título de pós-doutor pode até ser questionado. Porém o autor do texto errou feio ao explicar o que é um pós-doutorado. Planamente existente e funcional, com editais oficiais do governo brasileiro e ainda mais comum no restante do mundo, o pós doutorado não é um “curso” como o de graduação ou pós-graduação. O pós-doutorando (internacionalmente como postdoc) é o profissional que possui um contrato vinculado a um projeto de pesquisa e é muitas vezes desenvolvidos por doutores que ainda não possuem um emprego fixo de pesquisador. Tal projeto de pesquisa, para ser financiado, passa por inúmeros critérios de disputadíssimos editais, muito diferente do que o autor do texto informa como “visiting scholar”. Ainda, se o contrato está vinculado a um programa de pós-graduação, o postdoc ainda deve atuar na docência e orientação de alunos. E, ao contrário do informado no texto, há de fato uma cobrança bastante forte dos resultados dos projetos, na forma de relatórios, publicações e apresentação de palestras em eventos. Sem o relatório final do postdoc, o supervisor não pode aprovar outros editais. No Brasil ainda há a problemática de esses profissionais atuarem sem receber os direitos trabalhistas (ferias, 13, licença de saúde…) , com obrigatoriedade de um regime de 40 horas com dedicação exclusiva, recebendo a baixo do piso da profissão (considerando-se a titulação de doutor). Então, ao invés de ficarmos criticando as “autoridades destronadas”, talvez seja hora de começarmos a dar um pouco mais de valor para os profissionais da tão desrespeitada e agonizante ciência produzida no país

    • Ufa! Excelente comentário, Felicia! O texto dele é repleto de incoerências, ignorância e deboche.
      É maravilhoso ter pessoas como você para trazer luz aos ignorantes.

    • Ao que parece, o autor equivocou-se ao definir o que é um pós doutorado e sequer se deu ao trabalho de conversar com alguém do meio. Muita desinformação para um texto só.
      O pós doutorado é uma formação complementar ao doutorado, NÃO É TÍTULO.

      É um período em que, assim como o foi no ciência sem fronteiras, o pesquisador desenvolve pesquisa e tem contato com outras metodologias e formas de trabalhar, podendo trazer o aprendizado para a universidade em que trabalha ou irá trabalhar. Não necessariamente ele está desempregado, pode estar ou não. E obviamente poucos saberão sobre o objeto de estudo dele; afinal, só irá ler o artigo quem é da área.
      Senhor Claudio Castro, desculpe a sinceridade, mas o seu título de economista e professor não lhe foi suficiente à escrita desse artigo!

    • acho que estais se fingindo de idiota para fazer ao fazer com o que acontece pelo mundo em casos muitos raros como se fosse a realidade brasileira. Pois, por essas essas bandas, se não for bajulador aos extremos e compactuar com tudo quando não presta, nem teria título de doutor. Se além disso não caprichou o suficiente para se fazer algum concurso com carta marcada em alguma pública para ganhar fábulas ante o título rábula de doutor que possui, nada terá mais nada. Depois disto, se adular bem a turma da universidade que entrou, novamente compactuando com tudo quanto não presta, irá fazer quantos pós-doutorado quiser, com salários integral, liberado de tudo, se quiser pode ir passear, com bolsa extra e quase o tanto do salário. Se produzir ou não tanto faz, o que nunca pode deixar de fazer é deixar de compactuar com todo tipo de safadeza.. só um exemplo dos mais besta+++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++
      ENTIDADE FAZ CURSO COM CONDENADO POR PLÁGIO
      http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=78939
      http://www.rc.unesp.br/ib/dta/Portarias2008/Pt025-2008.doc

  2. Ao senhor que escreveu o texto acima: já pode limpar! Use odorizador de ambiente para ninguém perceber sua cagada. E prepare um bom desentupidor, porque foi das grandes!

  3. O título pode não existir mas tirar o mérito de quem faz um pós doutoramento no exterior ou no próprio país,é ir na contramão do desenvomvimento de uma sociedade.Nos países mais desenvolvidos, ter pós doutorado faz parte do aprimoramento de professores e pesquisadores que repassam suas experiências a inúmeros estudantes e colegas de trabalho.Lamentável o comentário desse Sr…Tenho certeza que a mentalidade dele não é a da maioria.

  4. Texto totalmente errado e carregado de preconceito. Acabei de concluir meu pós-doutorado e além de desenvolver minha pesquisa, auxiliei aulas na graduação e na pós e participei de bancas de mestrado. Desenvolvi diversas atividades e escrevi dois artigos baseados em minha pesquisa. O autor procure se informar mais para ñ escrever besteiras.

  5. Ignorância e apego a um ou outro caso de insucesso, é isso que passa o autor. Ele devia era fazer um pós doutoramento em levantar quantos trabalhos relevantes são publicados por pesquisadores brasileiros e que não são valorizados pelo nosso governo e nossa sociedade ( inclua-se o autor desse texto ridículo)

    • a minha tese de pós-pós-doutor é a demonstração de que a única e exclusiva filosofia do povos brasilis é que ninguém pode falar da merda se não tiver comido dessa e em grandes quantidades

  6. Acho que o autor tenta fazer uma crítica pertinente mas com os argumentos e embasamentos errados. Primeiro porque pós-doutorado não é título (ele é que está chamando assim). E quem o utiliza com a presunção de título literalmente não sabe de nada (inocente rs). Segundo, é que o pós-doutorado não é uma invenção brasileira. Lá fora é muito comum, principalmente para os recém doutores que estão em fase de transição para o emprego em uma instituição enquanto ainda não emplacaram os artigos da Tese (e que sabemos que em bons journals é um processo bastante demorado), além de ser muito útil para continuar trabalhando o tema da tese com outros pesquisadores do campo. Aqui no Brasil isso tende se assemelhar bastante e talvez até seja pior, porque o país criou muita oferta, e principalmente com a crise haverá menos demanda destes doutores (então naturalmente o pós-doc é procurado como esse período de transição também). Terceiro, o autor da a entender que o doutorado seria o atingimento da maturidade intelectual do pesquisador, o que sabemos que isto é uma grande falácia. O doutorado é apenas um ponto de partida, a maturidade vem ao longo da carreira, conforme o aprofundamento do pesquisador em seu campo. E os pós-docs são essenciais para que este pesquisador estabeleça suas relações afim de aprofundar seus conhecimentos em relação ao objeto que decidiu pesquisar. Tirando estes três pontos, acho sobra muito pouco de sua argumentação, que é a parte que concordo, que essa ida lá fora deveria ser mais bem pensada em termos institucionais. Porém se nem auxílio institucional direito para isso está tendo, imagine então um planejamento e controle estratégico disto tudo…menos ainda. Os pesquisadores acabam se virando como podem, e muitos conseguem estes pós-docs com bolsas de países estrangeiros. Então o mérito é do próprio pesquisador. Merecimento corroborado por instituição estrangeira esteja onde estiver. Não há o que criticar se o próprio país não ajuda. Enfim…Quem sabe o autor do texto poderia realizar um pós-doc para se atualizar? rs

    • Observações muito pertinentes. Porém, para sermos justos, o autor não fala que “pós-doutorado não é uma invenção brasileira”, mas sim que “o título de pós-doutor é pura invencionice brasileira”, como intitula seu artigo. E possivelmente tem razão, pois um breve contato com a academia expõe cartões de visita, apresentações de currículos, etc com o tal do “pós-doutor”, a guisa de título. Uma vez inclusive me solicitaram este título (inexistente!) para que comprovasse o estágio pós-doutoral que realizei.

  7. A muito nossa universidade é ruim, colonizada e não fala da realidade brasileira. Concordo que essas titulações sigam o exemplo histórico dos condes sem condados e dos coronéis sem tropas. Mas o pior de tudo isso é a aproximação de instituições religiosas e militares que essas hierarquias fazem. O que conheço de idiotas e bajuladores com doutorado não é mole.

  8. Faz muito que a universidade brasileira é colonizada e não trata de nossos problemas e de nossa realidade. Concordo com a analogia aos condes sem condados e coronéis sem tropas. Além disso, essas hierarquias aproximam a universidade de instituições religiosas ou militares. E o que conheci de idiotas e bajuladores com doutorado não foi mole.

  9. Fiz dois estágios pós-doutoral e ministrei aulas, orientei alunos, realizei eventos, tive projetos financiados. A minha realidade foi bem diferente do cenário apresentado pelo autor.
    Agora, sou professor visitante em um PPG. Os requisitos de seleção são elevados : x anos de obtenção de titulo de doutor, atuação em programas de pós-graduação, publicação relevante, atuação no exterior, …A carga horário de trabalho não é pequena….novamente minha realidade é diferente do sugerido pelo autor.
    Eu não uso titulo de pós-doutor porque não existe, mas tenho notado que a imprensa tem pouco conhecimento sobre o assunto, pois atribuem o titulo de pós-doutor aos colegas que fizeram estágio doutoral.

  10. é pura imbecilidade, por não saber como funcionam os processos em universidades públicas, Capes e CNPq. Pois cada título de pós-doutor tanto rende por se ganha bolsa fabulosa para fazer, como sua conclusão aumenta em mais de 30% o ganhos anuais

  11. Alguém conseguiu achar o curriculo lattes do autor deste texto? Pois, busquei aqui e não consegui achar. Será que é pseudonimo?

    • Cláudio de Moura Castro (1938) nasceu no Rio de Janeiro, no dia 29 de novembro de 1938. É graduado em Economia pela Universidade Federal de Minas Gerais. Tem mestrado em Economia pela Universidade de Yale e iniciou o doutorado na Universidade da Califórnia em Berkeley, concluído na Universidade de Vanderbilt.

      Claudio de Moura Castro lecionou em prestigiadas universidades do Brasil e do mundo, entre elas, a Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, a Fundação Getúlio Vargas, a Universidade de Brasília, a Universidade de Chicago, a Universidade de Genebra e a Universidade da Borgonha.

      Entre 1979 e 1982 foi diretor geral da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). Entre 1982 e 1985 foi secretário-executivo do Centro Nacional de Recursos Humanos. Entre 1970 e 1985 foi técnico do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada.

      No exterior, Cláudio de Moura Castro foi Chefe da Divisão de Políticas de Formação da OIT, em Genebra. Foi Economista Sênior de Recursos Humanos do Banco Mundial, em Washington. Foi chefe da Divisão de Programas Sociais do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Ao aposentar-se do BID, assumiu a Presidência do Conselho Consultivo da Faculdade Pitágoras. É assessor especial da Presidência do Grupo Positivo.

  12. Acho que a autora teve seu PD negado por alguma agencia de fomento. Ela fala em arrogância e usa de uma dialética rebuscada e cheia de palavras de pouco uso. Parabéns pela incoerência e desfavor aos serios que buscam por conhecimento em um país de tão baixa escolaridade. Ainda busco uma utilidade pública para seu texto.

  13. O pós- doutor ( que, já mostrado, não existe), serve para aumentar o salário do professor ! Mas, que continuará ministrando suas aulas – teóricas e práticas – da mesma forma de sempre …!

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário
Por favor informe seu nome aqui