Tia Idalina, famosa amazonense moradora de Copacabana, preside uma Associação de Senhoras da Terceira Idade. A associação funciona no salão paroquial de uma igreja católica. Às sextas-feiras as senhoras se reúnem para um estudo bíblico. A proposta é ecumênica e todas podem participar independentemente de professar o catolicismo. Todas são bem vindas. Algumas são evangélicas, outras católicas e há algumas que professam o kardecismo.

Eu acho isso fantástico. Tia Idalina me diz que nunca houve discussões dogmáticas. O grupo evita textos bíblicos polêmicos e o evento é sempre um sucesso. Há sempre um farto lanche no final. Infelizmente foi tudo interrompido em razão da triste pandemia.

Tia Idalina tentou fazer as reuniões virtuais. Mas, infelizmente, não deu certo. Houve poucas adesões. Idalina acha que as companheiras são muito idosas, coitadas. A maioria, diferente dela, já passou dos oitenta.

Idalina insiste que só tem setenta anos. Mas uma pessoa que ouviu pela rádio BBC de Londres, a Coroação da Rainha Elizabeth II, não pode ter menos de oitenta anos. Ela me contou que lembra bem da transmissão. “Falhava um pouco, mas ouvimos tudo”, comentou saudosa. Isso tudo em  2 de junho de 1953, e titia ainda morava em Manaus.

Mas voltemos aos problemas da associação. Além da reunião bíblica das sextas, elas se reúnem para festivas de aniversário, juninas, encontros de Natal e celebram as aniversariantes.

Considerando que todas estão vacinadas, Idalina achou que poderiam comemorar os 90 anos de dona Judith. Mas houve um problema. A associação tem 85 associadas. Todas frequentes. O salão tem capacidade para 100 pessoas. Com as regras sanitárias pela pandemia, só podem ser convidadas 50.

Tia Idalina estudou a lista várias vezes e burlou as regras. Convidou 70 associadas. Estavam na lista todas as que participam da reunião bíblica das sextas. Foi um dos critérios. Na lista das quinze excluídas estava dona Leopolda. Foi aí que ela errou.

Ao saber-se excluída e que haviam setenta convidadas, Leopolda avisou ao padre. Para evitar problemas com a fiscalização, que tem vindo contar quantas pessoas assistem suas missas, o padre cancelou o evento.

Tia Idalina apelidou Leopolda de mucura. As cariocas quiseram saber o que era mucura. Idalina explicou:

– Em Manaus, a gente chama de mucura uma pessoa feia, desconfiada, falsa e invejosa.  A própria Leopolda. Uma mucura carioca.

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Pedro Lucas Lindoso
*Bacharel em Direito e licenciado em Letras pela Universidade de Brasília. Membro efetivo do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Pertence a Associação dos Escritores do Amazonas e a Academia de Letras Ciências e Artes do Amazonas. Membro fundador da Academia de Ciências e Letras jurídicas do Amazonas.

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