“(…) Ephigênio Ferreira de Salles, de Sêrro Frio, órfão desde cedo dedicado aluno do Colégio Caraça, chegado a Manaus aos 17 anos para atuar como aprendiz de tipógrafo (…).

Depois de forte temporal político que desabou sobre o Amazonas e que redundou na revolução de 1924 e, em seguida, na intervenção federal, os líderes partidários da época que eram verdadeiros chefes oligárquicos, incluindo o todo poderoso Silvério Nery, resolveram admitir o apaziguamento comum sinalizado por Alfredo Prates de Sá, com as bençãos do presidente da República. Parece que a deposição do governador César do Rego Monteiro e sua tropa, quase toda escorraçada de Manaus, serviu de exemplo e, também por isso, foi firmado um pacto de cavalheiros para a sucessão governamental e para a representação parlamentar, tanto em nível federal quanto estadual.

Nesse sentido, Alfredo Sá, mineiro de nascimento, antigo chefe de Polícia das Minas-Gerais, embora carregado de parentes e aderentes que acabou beneficiando em sua administração, conseguiu firmar entendimento que se estendeu, pacificamente respeitado, até a revolução de 1930, em fato inédito até então no Amazonas.

Foi na esteira desse acordo que o mineiro Ephigênio Ferreira de Salles, de Sêrro Frio, órfão desde cedo, dedicado aluno do Colégio Caraça, chegado a Manaus aos 17 anos para atuar como aprendiz de tipógrafo do Diário Oficial, tomou-se presidente do Estado, título que era conferido ao chefe do Poder Executivo ou govenador.

Não se tratava de neófito em política. Era combatente de muitas lutas, tal como continuaria sendo por longos anos. Estivera em Canudos, combatera no Acre, seja na tropa de Luiz Galvez d Arias da qual só se afastou porque acometido de beribéri; – seja no grupamento de Plácido de Castro de quem foi capitão assistente de comando. Como se não bastasse, em 1910, quando do bombardeio de Manaus, ficou ao lado da legalidade defendendo, arma em punho, o governo de Antônio Bittencourt contra a Marinha do Brasil e os adeptos do vice-governador Sá Peixoto e do senador Pinheiro Machado.

Em 1917, mais uma vez teve que pegar em armas, desta feita para defender a posse do governador Pedro Bacellar, eleito soberanamente e conforme as regras de então, contra uma intentona que se estabeleceu na capital.

Mas foi em Minas, em 1924, que organizou com Cristiano Machado e Aníbal Machado! a Cruzada Republicana Mineira, batalhão patriótico pronto para combater em São Paulo, ocasião em que se apresentou ao general Eduardo Sócrates pronto para a luta, tal como repetiria em 1932 quando instalou serviço clandestino de comunicação radiofônica em sua própria residência, no Rio de Janeiro, para tratar com os revolucionários paulistas.

Sua experiência na política como deputado federal em várias legislaturas, no jornalismo em Manaus e no Rio de Janeiro, deve ter sido preciosa para o exercício de seu mandato de governador em cujo período (1926-29) deu ênfase à educação criando 41 escolas em quatro anos, para abrigar mais de 18 mil alunos para uma população total em torno de 350 mil habitantes dispersos no imenso território.

Outros pontos marcantes foram a ligação rádiotelegráfica por quase todo o Estado, importante meio de comunicação da época; a negociação para, o ingresso de japoneses em terras amazonenses, visando o incremento da agricultura; a reforma e conservação do Teatro Amazonas, que se achava em estado quase abandono desde 1913, com a queda da exportação da borracha; abertura de estradas vicinais agrícolas; austera política econômico-financeira emprenho na política de saúde, sobretudo em relação aos leprosários e saúde mental, cujos problemas que eram alarmantes; e, negociação da dívida da União com o Estado em relação à incorporação do Acre como território federal.

O fato é que ao transferir o governo em janeiro de 1930 ao governador Dorval Pires Porto eleito pela coalizão tratada em 1925, as condições gerais do Estado eram bem diferentes daquelas de descalabro político, administrativo e financeiro que redundaram na revolução tenentista de 1924.

Pode-se dizer que a fase de mineiridade no governo e na política amazonenses com Alfredo Sá e Ephigênio de Salles foi de muito bom resultado, mas as dívidas antigas feitas em libras esterlinas e a falta de alternativa econômica à borracha, impuseram padecimentos longos ao povo do Amazonas que nem as promessas getulistas conseguiram resolver.

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Roberio Braga
*Amazonense de Manaus. Historiador. Bacharel em Direito, especializado em Direito Agrário, pós-graduado em Administração de Política Cultural e Mestre em Direito Ambiental. Professor da Escola Superior da Magistratura do Amazonas e da Universidade do Estado do Amazonas. Ex-presidente da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Ex-Secretário de Estado de Cultura, desde 1997 até 2017 e atual Presidente da Academia Amazonense de Letras.

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