*José Almerindo A. da Rosa

-a palavra nasce e morre
canta e se exaspera
chora e se enternece-
Elson Farias

Como “a flor constrói a corola”, o poeta constrói o poema pejado de poesia. Cada poema faz-se de versos-pétala. Ele, com sua rede tecida de sons e imagens, foi pescando em sua obra piracema, rio que vibra de peixes, centenas de poemas, agora revigorados pela escolha decisiva do autor, o qual catou, em livros feridos e referidos, o verso pleno de luzes.

Elson Farias é o poeta do verde som que se assumiu no barro. Bom barro que recebeu o sopro divino. Nas águas desta terra, que cria cravos e rosas, aprendeu a poetar, fisgando o ritmo dos remadores e dos sons dos tambores da festa do Divino. Soube beber a musicalidade e o ritmo essenciais para a poesia. O estudar e o pesquisar lhe aprimoraram a “forma exata”. Suas primeiras produções, criadas sob os influxos parnasianos, tiveram o destino certo dos livros adolescentes: o fogo.

Os poemas intensos de poesia são para a leitura meditada e também para serem declamados. Dentre estes, alguns nos tocam pela emoção e pela racionalidade, as quais nos fazem retomar e tentar enxergar alguém que brilha como lamparina na escuridão, a doméstica menina do interior que “come alegre e só”. Todavia, “o luar é limpo como um prato de / peixes escamados … “. As imagens vão se repetindo e a poesia nos encantando.

Para bem aproveitarmos o som e a imagem dos poemas escolhidos por Elson Farias, analisemos o espaço poético de “Figuras do rio”, que faz parte de Estações da várzea e agora também desta antologia, com a devida revisão do autor.

São seis os poemas figurados. E estes prendem-se ao rio e às figuras que o margeiam. Centraliza-se o poema n. º 1 na figura do rio e o apresenta com a riqueza de peixes e canoas que o atravessam. Aqui, além da metáfora “feriam”, há um estranhamento no verso: “suas conchas”. A palavra” conchas” nos evoca o espaço da canoa ao cortar as águas. Concha é objeto cortante, pertinente ao rio e que lembra o mar. Este rio, personificado, penetra a mata “mascando resíduos de pau”, como estava na 1.ª edição. Agora o rio come “as cascas das árvores”. Após a cheia, torna-se raso e saudável por trazer fartura e não apresentar perigo ao homem de suas margens. Os peixes multiplicam-se; o vento, companheiro do rio, balança e espalha o perfume da folhagem e dos frutos.

Se no primeiro poema o poeta fixa-se no espaço do rio e suas margens, no n.º 2, o espaço unifica-se na figura da “pescada”, Eva-sereia aquática. A “pescada” parece parada ou movimenta-se, levemente, e o raio solar incide nas escamas e tudo é silêncio, cortado pela “calada correnteza”. Lembremo-nos da explicação dada por José Veríssimo, no seu célebre livro Estudos amazônicos, ao vocábulo “saru”: “expressão usada pelos pescadores para indicar a calada de um lago, a sua perfeita tranquilidade, quando este estado significa falta de pescado” (p. 48). Esta ausência nos revela, no silêncio da correnteza, a presença da pescada iluminada pelo sol em suas escamas de prata.

Toda a segunda estrofe deste poema é de amplidão, de claridade, de dia ensolarado e calmo. Prevalece nos vocábulos a vogal “a”, transmitindo-nos a plenitude do dia de verão. Somente a palavra “correnteza”, que dá significado à primeira estrofe, mas encontra-se na segunda, apresenta vogais fechadas. Esta estrofe nos remete ainda à figura da pescada, “Eva” ou “sereia”, seres sedutores, que nos fisgam com seus “encantes”. Segundo os pescadores, a pescada é peixe que antes de ser já era. As duas últimas estrofes do soneto metaforizam, em flor, o brilho das escamas e tal brilho provém do dia de calor.

A piaçoca, uma das figuras constantes das praias fluviais, traz o espaço na própria forma do poema. É um poema livre para uma livre figura. O poema descreve a ave e vemos em sua forma algo do Concretismo, destacadamente na estrofe:

Pia como corre
fina.

Este dístico cria o espaço formal pela figura da pernalta ave. O adjetivo “fina” remete-nos às finíssimas pernas e ao pio da ave ribeirinha. A terceira estrofe é fotografia exata das pegadas da piaçoca e as estrofes seguintes indicam a inquietude do pássaro, também conhecido como jaçanã. Nota-se que as demais partes do poema seguem uma ordem formal e, no entanto, este apresenta, na forma, toda a liberdade entrevista na imagem do irrequieto e solerte animal. A piaçoca habita as margens dos rios e, com certos limites, como os rios, corre e “não para”.

O poema n.°4 volta ao clima espacial dos dois primeiros, isto é, a presença do rio, agora com seu “dorso parado”. Iniciamos com um dia de sol e gaivotas. Posteriormente, chuva, flor, limo e peixes. Os peixes, presentes na última estrofe, estão espacializados no verso: “sugando seus sucos”. O verso focaliza todas as voltas e piruetas dos cardumes na voracidade dos alimentos oferecidos pelo rio. O visual acontece pela ênfase assumidas pelas sibilantes e pela “escureza fonética” das vogais fechadas:

SUgAndO SEUS SUcOS

O soneto que enforma o poema n.° 5 nos põe perante o entardecer e em contato com o barro sofredor “no cru lagar”. Estas palavras carregam significação de amassamento, de pisoteamento, aliás, o desfazer para produzir. O barro sofrido nos lembra o ribeirinho, o habitante do sítio que convive com a natureza e a domina a seu modo. A segunda estrofe nos apresenta mais um instantâneo fotográfico do espaço água-floresta, o corta-água a caminho do hangar natural. Os tercetos unificam o pôr do sol à floresta esfumada conforme vamos encontrá-la na última parte.

Ao anoitecer, param os bichos e parece até parar o rio e o vento. É o espaço da tranquilidade amazônica propício ao caboclo contemplativo que se sente diminuto diante da grandeza. Lá estão a elegância de alguns bichos e a majestade das aves. Toques que engrandecem a natureza. Pensemos na imponência da garça, em urna perna só, à beira das águas e sua imagem real, heráldica ou hierática. Finalmente ternos a noite suja que será clareada, não em sua totalidade, por estrelas e lua.

Que espaço temos? O espaço geográfico do rio e suas margens com florestas e aves. Este espaço físico nos remete ao espaço poético recriado pelo autor: “seu dorso saudável”, “na vaga torrente”. Os versos, objetivamente, significam rio, porém, poeticamente sugerem mais. O primeiro destaque, além de lembrar serpente, símile comum aos rios, junto ao adjetivo, nos conduz à fartura das vazantes. Já o segundo verso, mais profundo, pelo adjetivo “vaga”, nos coloca diante da imensidão e, ao mesmo tempo, da ausência do fluir dos rios, nos pondo, portanto, diante da vida de cada um: grandes e vagas torrentes.

Toda a estrofe sobre o corta-água é poética, em especial, o segundo verso, onde a palavra “pena” é plurissignificativa, tendo ainda o reforço de “mágoas”. O tetrassílabo – “seu mole hangar” – apresenta-nos o único substantivo, não só desta parte, mas de todo o poema, que não é próprio deste espaço. “Hangar”, galho onde se empoleira a ave, aparece corno algo estranho a este meio, e, ao mesmo tempo, enriquece a imagem do pássaro, ao pousar, ainda de asas abertas, corno um avião. Não é demais lembrar que a palavra avião é aumentativo de ave.

A figura humana não aparece claramente no poema, mas em alguns versos notamos palavras que nos ligam ao mesmo. “Canoas” (poema n,” 1) e “nos vinha / do calor” (poema n.º 2), onde o “nos” é clara referência ao homem que observa a pescada na água corrente.

Se, conforme Bachelard enuncia na sua obra A poética do espaço, a “imensidão é o movimento do homem imóvel” (p. 139) e também caracteriza o devaneio tranquilo, assim o rio e as figuras são movimento e imobilidade do espaço poético e amazônico.

Que a flor e o poeta se renovem e não percam a poesia. Enquanto isso, vamos do barro à rosa, porque esta não vive sem aquele.

*Professor e escritor. Autor de faca e vaca e Redação-Fundamentos e práxis.
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