“Em 1921, foi campeão de uma regata disputada no Rio Negro e a primeira conquista de futebol de campo, que seria repetido em 1927, 1931, 1938, 1940, 1943, 1962, 1965, 1975, 1982 e com tetracampeonato de 1987 a 1990” 

O clube guarda na sua história diversos nomes de personalidades políticas e sociais destacadas, conquistou a hegemonia nos concurso de beleza da cidade de Manaus com desfile de belas mulheres em seu refinado salão, tornou-se o clube preferido da elite amazonense, sem perder o seu apelo popular nas disputas esportivas e sempre assistiu passar por suas fileiras atletas campeões do voleibol, do futebol, do futebol de salão e até do tênis de quadra.

Carta de renúncia do diretor Hilton Gonçalves dos Santos, 1929 / Acervo Abrahim Baze

Das personalidades políticas, destacam-se Leopoldo Amorim da Silva Neves, Flávio de Castro, Álvaro Maia, Gilberto Mestrinho e tantos outros. Leopoldo Amorim da Silva Neves, conhecido na intimidade como “Pudico”, defendeu as cores do Rio Negro como atleta muito antes de tornar-se Deputado Federal e Governador do Estado do Amazonas. Ainda destacam-se o ex-senador Arthur Virgílio Filho e o ex-deputado federal Adalberto Vale, ambos atletas do clube. Outro nome que manteve viva a vela votiva do clube, por longo período, foi professor Manoel Bastos Lira.

Carta do diretor à época Abrahim Baze dirigida ao presidente do Flamengo, Luiz Augusto Veloso, 1994. / Acervo Abrahim Baze

Ao longo da sua história de existência, uma característica que tomou conta do clube foi a de ser o preferido da nossa sociedade, as mais tradicionais famílias de Manaus foram presenças constantes e obrigatórias nos bailes e festas promovidas pelo clube, que ainda hoje resistem ao tempo. A parte social foi movimentada, ainda, com grandes bailes de carnaval e aniversário do clube, como por exemplo, o famoso Porto de Honra e o baile das debutantes. A massificação da prática desportiva, especialmente do futebol, o que foi a razão de sua fundação, popularizou a agremiação e contribuiu para que o clube tornar-se eterno. Com mais de um século de existência, coleciona muitos e inesquecíveis títulos.

Carta resposta do presidente do Flamengo, Luiz Augosto Veloso, ao diretor da época Abrahim Baze, informando da passagem pelo Flamengo do presidente Hilton Santos, 1994. / Acervo Abrahim Baze

Em 11 de agosto de 1921, foi campeão de uma regata disputada no Rio Negro, o ano foi muito produtivo, pois marcou também a primeira conquista de futebol de campo, que seria repetido em 1927, 1931, 1938, 1940, 1943, 1962, 1965, 1975, 1982 e com tetracampeonato de 1987 a 1990 e tantas datas que se perdem no esquecimento. Foi na década de 1990 que surgiu umas das maiores revelações do futebol profissional Ninemberg Guerra, conhecido no mundo esportivo como Berg, comandante do tetra, que depois brilhou por muitos anos no Botafogo, do Rio de Janeiro, antes de morrer, ainda jovem, vítima de um fulminante ataque cardíaco.

Carta do fundador do Atlético Rio Negro Clube, Shinda Uchôa, quando a presença do diretor José Ribamar dos Prazeres Coelho, 1987. / Acervo Abrahim Baze

Apesar das dificuldades, o clube se mantêm em pé fazendo questão de manter suas tradições, destaco aqui o fato de seu equipamento jamais ter sido mudado desde a sua fundação, o preto e branco são intocáveis. Não podemos esquecer de Lauro Cavalcante que presidiu o clube entre 1915 a 1917, jovem médico que faleceu e foi homenageado dando nome a rua Lauro Cavalcante, no trecho do igarapé de Manaus e Getúlio Vargas, exatamente onde se encontra a casa que guarda, silenciosamente, em seu porão, a história da fundação do clube. Outro nome importante foi Leopoldo Cunha Melo que presidiu o clube nos anos de 1920 a 1923 e 1924 a 1928.

Manaus, ano de 1940. / Acervo Abrahim Baze

Sua primeira miss foi Edna Frazão Ribeiro e a que mais se destacou foi Terezinha Morango, esta Miss Rio Negro, Miss Amazonas, Miss Brasil e vice-campeã Miss Universo, outro fato interessante é que jamais trocamos de nome, nascemos como Athlético Rio Negro Clube, em 1913 e permanecemos até os dias atuais.

Banco do Brasil, Manaus – ano de 1940. / Acervo Abrahim Baze

O Athlético Rio Negro Clube apesar de todas suas dificuldades, guarda na memória mais de um século de história no esporte, no social e no cultural. Reconstituir sua história é inevitável, dessa forma, é só mergulharmos na história do clube para entender, a semente plantada por dezesseis jovens idealistas que concretizaram o início de uma trajetória de alegrias e glórias, que ainda hoje se refletem nos sócios rionegrinos de ontem e de hoje, como Edgard Lobão o primeiro presidente, que ao retornar a Manaus, em 1961, recebeu uma homenagem do clube.

Rua Joaquim Sarmento, esquina com avenida 7 de setembro, Manaus, 1940.

“… Os rionegrinos me presentearam com esta viagem de volta ao passado, uma reprodução perfeita e viva de uma página Goeth, pois como novo fausto eu me sentia transformado e redivivo, perfeitamente, mas sem influências magistélicas, já se vê e já se sabe. Evidentemente soube à ação da fumaça dos cachimbos dos velhos Pajés, dos Barés e dos Manaós, com a inovação das proteções dos mitos, das iaras, pedindo aos manitôs a sua ajuda e, esse valiosíssimo concurso protetor que acaboclada das matas me concedeu e como qual eu pude resistir com perfeita saúde emocional e com a graça de Deus, as vossas inesquecíveis manifestações de apreço e de amizade ao sócio n. 2. Ouça meu glorioso Jesus meu agradecimento a todos vocês. Atendei Senhor com toda a vossa onipotência meu misericordioso Deus e minha súplica de derramar sobre o meu amado clube a tua luminosidade. Onde teu reflexo destacará o brilho radiante e colorido das vitórias-régias, que Deus salve o Rio Negro e todos seus atletas.”

Rio de Janeiro 13 de novembro de 1961.
Edgard Lobão.

Manaus, 1940. / Acervo Abrahim Baze

Ata de fundação do Atlético Rio Negro Clube

“… Aos treze dias do mês de novembro do ano de 1913 às 16h da tarde, na residência do senhor Manoel Afonso do Nascimento, à rua Henrique Martins, n. 149, sede do clube, estando presentes os associados Edgard Garcia Lobão, Raymundo Vieira, Schinda Uchôa, Manoel Affonso do Nascimento, João Falcão, Ascendino Bastos e Affonso Nogueira, foi aberta a sessão pelo presidente provisório Edgard Garcia Lobão secretariado pelos senhores Schinda Uchôa e Raymundo Vieira.

Avenida Eduardo Ribeiro, esquina com 7 de setembro, Manaus, 1940. / Acervo Abrahim Baze

Usou a palavra o senhor presidente, agradecendo aquele rasgo de benevolência dos sócios presentes, convidando-o para presidir provisoriamente aquela sessão magna e não havendo quem quisesse usar da palavra, fala novamente o senhor presidente, dizendo o que  o fim daquela sessão era eleger a diretoria, discutir o nome e distintivo do clube. Oferece o senhor presidente a palavra a quem dela quisesse fazer uso, fala então o senhor França Marinho que pede para se fazer imediatamente a eleição da diretoria do clube. Feita a apuração da eleição pelo primeiro secretário provisório Schinda Uchôa, foram eleitos para presidente Edgard Garcia Lobão com oito votos, para vice-presidente Raymundo Vieira com quatro votos, para secretário o senhor Schinda Uchôa com seis votos, para tesoureiro o senhor Manoel Affonso do Nascimento com cinco votos e para Capitain o senhor França Marinho com cinco votos.

Família Nascimento, fundadora do Atlético Rio Negro Clube, da esquerda para direita, em pé, Manoel Affonso do Nascimento, jogador e fundador do Rio Negro. / Acervo Abrahim Baze

Depois dessa apuração, o senhor presidente pede que qualquer dos sócios presentes, apresente um nome para o clube. É apresentado o de “Athlético Rio Negro Club” passando com dez votos. Então o senhor presidente convida o primeiro-secretário Schinda Uchôa para assumir a presidência enquanto ele apresentasse como sócio, sua proposta para o distintivo do clube que consistia em calção preto e camisa branca com escudo azul na mesma.

Foto: Fachada do Atlético Rio Negro Clube, Manaus, 1940. / Acervo Abrahim Baze

Tendo o senhor Schinda Uchôa agora como presidente que apresentar sua proposta sobre o mesmo distintivo convida o senhor secretário Raymundo Vieira para presidir os trabalhos, sua proposta foi a de calção e camisa branco, pondo o senhor o senhor Raymundo Vieira a proposta do senhor Edgard Garcia Lobão em discussão, pede a palavra o senhor Schinda Uchôa, dizendo que apesar de já ter havido bairrismo no nome não devia haver o mesmo no distintivo, esclarecendo melhor, que o nome do clube não tinha nada a ver com o distintivo do clube. A proposta do senhor Edgard Lobão caiu, tendo a favor somente um voto.

Diretoria do Atlético Rio Negro Clube recepcionando o fundador e primeiro presidente do clube Edgar Lobão (sentado ao centro, da esquerda para direito, o 4º), 1961. / Acervo Abrahim Baze

Depois de pôr o senhor presidente a proposta de Schinda Uchôa em discussão, usa da palavra o senhor Edgard Lobão que sem atacar a proposta já citada, apresenta outra que consistia em calção e camisa branco com colarinho preto. Depois de posta em discussão sua última proposta põem o senhor presidente ambas em votação, ficando vitoriosa a do senhor Schinda Uchôa com dez votos.

Lúcia Teresa Lemos, mais tarde Assayag, declamando poesia ao lado de Luis Verçosa da juventude rio negrina. Ela aos 12 anos de idade. / Acervo Abrahim Baze

O senhor Manoel Affonso do Nascimento manda servir o vinho do Porto aos associados, usa então a palavra o senhor Schinda Uchôa agradecendo a benevolência dos sócios em elegerem para secretário e agradecia também o auxílio prestado por eles a sua ideia de fundar um clube de foot-ball que, apesar das negaças de muito e a má vontade de outros ele via realizada a sua ideia e pedia para brindar o progresso do Athlético Rio Negro Club. Em seguida falou o senhor Edgard Garcia Lobão que com palavras ardentes e imagens belíssimas agradeceu sua eleição para presidente e isto fazia na pessoa de Schinda Uchôa fundador do clube.

Esposas de diretores recepcionando o primeiro presidente do Atletico Rio Negro Clube, 1961. / Acervo Abrahim Baze

Depois usou da palavra o senhor Raymundo Vieira, que em bela alocução que refere aos senhores Edgard Garcia Lobão e Schinda Uchôa, falando do destino este negro fantasma que perturba o sossego do espírito depois de se apoderar da matéria e que tinha feito desabar suas esperanças de moço. Homenageou o senhor Schinda Uchôa pela brilhantíssima ideia de fundar um clube de foot-ball, nesta época avassaladora e de crise. Fala em seguida o senhor Basílio Falcão que com palavras sentimentais, saudou os sócios do Athlético Rio Negro Club, desejando prosperidade e harmonia.

Finalmente usa da palavra o senhor França Marinho que com palavras ardentes, agradece sua eleição para capitain desejando que sta agremiação de moços forme uma pirâmide no vértice da qual esteja fixado o nosso pendão, balançando pela brisa amazônica.

Flávio de Castro, Edail Antony, Aristophano Antony, Aury Matheus, e Manoel Bastos Lira. / Acervo Abrahim Baze

Não havendo mais nada a tratar encerra o senhor presidente a sessão. Diretoria:  Edgard Garcia Lobão Presidente, Raymundo Vieira Vice-presidente, Schinda Uchôa Secretário, Manoel Affonso do Nascimento Tesoureiro, J. França Marinho Capitain.

Sócios: Affonso Nogueira Rebelo, Gilberto C. D’Albuquerque, Outubriano da Silva Neves, Leopoldo Amorim da Silva Neves, João P. Leite de Paiva, Ércio Rabello, Antônio Rabello, Antônio Craveiro, Mário Fernandes, Basílio Falcão, Ascedino Bastos, Merolino Corrêa, Azevedo Souza, Paulo Nascimento, Luiz Pinto, Alkendi Uchôa, Frank Zagori e Joaquim Pinto.

José Ribamar dos Prazeres Coelho visitando no Rio de Janeiro, o fundador do Rio Negro Shinda Uchôa, em 1987. / Acervo Abrahim Baze

Decálogo do Atleta Barriga Preta

Este decálogo foi apresentado em sessão do clube por Hilton Gonçalves dos Santos, nasceu em Manaus, em 1889, foi diretor de Esportes do ARNC até 1927 e, posteriormente, transferiu-se para o Rio de Janeiro. Foi presidente do Clube de Regatas do Flamengo, em 1946 e no biênio de 1958 a 1959. Idealizador do Edifício Hilton Santos, que durante anos foi a sede do clube. Faleceu aos 93 anos em 1982, na cidade do Rio de Janeiro.

Jornal Barriga Preta publicado pelo Atlético Rio Negro Clube, 1949. / Acervo Abrahim Baze

Portanto, o Athlético Rio Negro Club é o único clube amazonense que teve um diretor presidindo o Clube de Regatas do Flamengo.

  1. Não te darás por vencimento sem teres feito o máximo para vencer honrosamente;2. Não terás desculpas e razões por perder;

    3. Não te encherás de orgulho quando venceres;

    4. Aprende a perder com dignidade;

    5. Não tomarás vantagens ilícitas sobre teu adversário;

    6. Não pedirás handcaps-injustos;

    7. Estarás sempre pronto a dar o teu adversário o beneficio de qualquer dúvida;

    8. Não faças pouco do teu adversário, nem exageres as tuas forças;

    9. Lembra-te que praticar o esporte é que vale. Ganhar ou perder são detalhes menos importantes;

    10. Honra ao esporte porque aquele que o pratica honrosamente, ganha mesmo quando perde.

O futebol, introduzido no sul do país, começava interessar a mocidade amazonense. Manaus já possuía dois campos de futebol, o chamado Bosque Municipal e o Parque Amazonense, que vez por outra, também transformavam-se em hipódromo para as corridas de cavalo. O Athlético Rio Negro Clube, que nasceu do futebol, também praticou outros esportes que animavam a juventude rionegrina que, em 1922, foi campeão de basebol e campeão de remo.

Hilton Santos presidente do Flamengo. / Acervo Abrahim Baze

O futebol, porém, sempre foi a paixão dessa agremiação, são muitos os nomes que permanecem na memória dos rionegrinos, dos grandes feitos e das grandes conquistas, como Isidoro Carvalho e Vidinho. Não podemos deixar de destacar o Pantaleão que era o símbolo de um atleta disciplinado, valoroso e que faleceu ainda em plena mocidade. Quem acompanha o futebol amazonense, lembra de Hugo, Yano, Luizinho, conhecido como mão de grude, Clóvis e Aranha Negra, outros nomes se destacaram como Amâncio, Darci, Parintins, Hidelbrando, Zenith, Meireles, Dog, Cloter, Bizerra, Cláudio, Benjamin, Onety, Lê, Waldir Oliveira e tantos outros.

Ao falar de Rio Negro, obrigatoriamente, temos que lembrar o atual presidente Jefferson Afonso César da Silva Oliveira, mais um destemido rionegrino, a quem o clube tanto deve, figura humana e extraordinariamente agradável. Nessa corajosa arrancada de manter o clube vivo, não podemos esquecer sua esposa Jeanne Chaves de Abreu que ao lado dele ajuda a construir essa reserva histórica do clube centenário, hoje, com a grande responsabilidade de remontar o museu centenário do clube.

O tempo vai passando e a antiga rua Epaminondas, de paralelepípedos com os trilhos do bonde, hoje, coberta pelo asfalto ainda respira a bucólica Manaus dos anos quarenta, período em que o clube ali se instalou. Parte da reserva histórica do passado que foi construída com muita luta e o apoio da família Nascimento, repousa na coragem e determinação do atual presidente e sua diretoria, estabelecendo os desafios e a realidade que pairam em sua volta.

É como se olhando para trás, mensurando tudo que fora criado no passado e trabalhando com a possibilidade de um amanhã aventuroso.

Atual presidente do Atlético Rio Negro Jefferson Afonso César da Silva Oliveira e sua esposa Jeanne Chaves de Abreu. / Foto: Acervo Pessoal

O clube da Praça da Saudade, como é conhecido, não morreu, permanece de pé, escrevendo sua própria história, à espera da presença da torcida e dos rionegrinos.

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Abrahim Baze
*Amazonense de Manaus. Graduado em História pelo Centro Universitário do Norte e pós-graduado em Ensino à Distância pelo Centro Universitário UNISEB-COC, de Ribeirão Preto/SP. Recebeu o título de Notório Saber em História, pelo CIESA, de Manaus/AM. Fundador e organizador dos museus da Sociedade Beneficente Portuguesa do Amazonas, Luso Sporting Clube, Rede Amazônica, Memorial e Biblioteca Senador Bernardo Cabral, Centro Cultural Luso Brasileiro do Amazonas, Centro Universitário Luterano de Manaus, Instituto Cultural Brasil-Estados Unidos e do Atlético Rio Negro Clube. Diretor do Instituto Cultural da Fundação Rede Amazônica e apresentador dos Programas de TV: Literatura em Foco e Documentos da Amazônia. Autor de mais de 65 títulos sobra História da Amazônia. Membro da Academia Amazonense de Letras, Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas, Academia de História do Amazonas, Academia de Medicina do Amazonas, Academia Maçônica de Letras do Amazonas, Associação Nacional de Escritores (Brasília), Associação dos Escritores do Amazonas e Academia de Letras, Ciências e Artes do Amazonas.

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