Desafios, expectativas e esperança em 2015

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raymundo damasceno assis

*Raymundo Damasceno Assis

 

Os desafios que esperam os governantes a serem empossados no ano prestes a começar misturam-se às expectativas que naturalmente marcam o início de um novo governo. O cenário político atual exige de todos ética, transparência e abertura ao diálogo. Essas são, sem dúvida, algumas condições indispensáveis para mantermos o otimismo em relação às grandes mudanças de que o país necessita.

Nenhuma mudança, no entanto, ocorrerá sem o esforço conjunto de todas as forças vivas que movem nossa sociedade. A primazia da pessoa humana e o bem comum hão de ser, então, a mola mestra a dar o tom dos debates e dos projetos para o Brasil que queremos. Em torno desse ideal, somos chamados a vencer a tentação da omissão, da busca de interesses exclusivamente pessoais ou partidários, do pessimismo e de tudo o que não contribui para sua concretização.

Entre os temas polêmicos e urgentes que deverão ser enfrentados pelo novo governo, destacam-se as reformas política, tributária e agrária. O combate à violência também não pode ser adiado. O Mapa da Violência 2014, com dados de 2012, não nos permite ficar inertes. Naquele ano, 112.709 pessoas morreram em situações de violência. Foram 56.337 vítimas de homicídio; 46.051, de acidentes de transporte, e 10.321, de suicídios. Mais da metade dos mortos por homicídio (30.072) eram jovens na faixa de 15 a 29 anos, o que equivale a 53,37% do total.

A resposta a esse desafio não passa pela revogação do Estatuto do Desarmamento. Tampouco pode a violência ser explicada exclusivamente pelo descaso com a educação ou por sua habitual associação aos pobres. A esse respeito, aliás, diz o papa Francisco: “Enquanto não se eliminarem a exclusão e a desigualdade dentro da sociedade e entre os vários povos, será impossível desarraigar a violência. Acusam-se da violência os pobres e as populações mais pobres, mas, sem igualdade de oportunidades, as várias formas de agressão e de guerra encontrarão um terreno fértil que, mais cedo ou mais tarde, há de provocar a explosão” (Evangelii Gaudium 59).

O agravamento da violência levou a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) , com o lema “Somos da Paz”, a dedicar o ano de 2015 à paz. Com essa iniciativa, queremos “abrir fendas na onda de violência que se manifesta na morte de tantas pessoas, nos lares em conflito, na corrupção, na agressividade do trânsito, na impossibilidade de diálogo nas diferenças, até mesmo religiosas”.

O fim da corrupção é outra expectativa da população brasileira que não pode ser frustrada. “Entre as deformações do sistema democrático”, ensina-nos a Doutrina Social da Igreja, “a corrupção política é uma das mais graves porque trai, ao mesmo tempo, os princípios da moral e as normas da justiça social; compromete o correto funcionamento do Estado; distorce na raiz a função das instituições representativas”.

A farta divulgação da Operação Lava Jato parece levar a população a uma descrença de que seja possível acabar com a corrupção no país. Em nota divulgada em novembro do ano passado, a CNBB afirmava que “a corrupção na Petrobras reforça a sensação de que é um mal que não tem fim”. Os novos governantes têm a responsabilidade de provar que isso não é verdade. Afinal, “nenhum país prospera com corrupção, que, no caso do Brasil, lamentavelmente, já vem de muitos anos e não se limita à Petrobras”, como bem recordou a CNBB.

Mova-nos a expectativa e anime-nos a esperança de que é possível vencer os desafios que a realidade nos impõe. Unamo-nos no compromisso de somar esforços para construir um país justo e fraterno, livre de todos os males que impedem o abraço da justiça e da paz.

*Arcebispo de Aparecida/SP. Presidente da CNBB.
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