Reinaldo José Lopes
*Reinaldo José Lopes

Em ‘Crônicas do Cretáceo’, André Nemésio manipula os clichês da ficção científica e de histórias sobre evolução.

Um mundo polarizado entre facções rivais; transformações de costumes que despertam a esperança de grupos marginalizados e o medo entre conservadores e fundamentalistas; uma catástrofe de proporções inimagináveis que deveria unir o planeta, mas só aprofunda divisões que já são atrozes. Poderia ser 2021, mas é o fim da era dos dinossauros, há 66 milhões de anos.

Nessa versão do passado remoto da Terra, imaginada pelo zoólogo brasileiro André Nemésio em seu romance “Crônicas do Cretáceo”, os caprichos da evolução produziram duas espécies inteligentes ao mesmo tempo, ambas descendentes de dinossauros carnívoros bípedes e de porte modesto.

Os korubo, nativos das Américas, e os arama, que evoluíram no Velho Mundo, desenvolveram civilizações tecnológicas e vivem uma tensa história de interações militares e diplomáticas justamente no momento em que detectam a aproximação de um asteroide que poderia destruir quase todas as formas de vida no planeta (tal como, é claro, aconteceu no passado geológico do mundo real).

Répteis que viviam em árvores ajudam a desvendar origem dos pterossauros

Reconstrução em vida e corpo inteiro do lagerpetídeo Ixalerpeton polesinensis, do Triássico (ca. 233 milhões de anos atrás) do sul do Brasil Rodolfo Nogueira

Exemplar parcialmente preparado (vertebras do pescoço, tronco e cauda, cintura pélvica e membro posterior) do lagerpetídeo Ixalerpeton polesinensis do Triássico do Brasil, ao lado de objeto para questões de escala Divulgação

Exemplar parcialmente preparado (vertebras do tronco e cauda, cintura pélvica e membro posterior) do lagerpetídeo Lagerpeton chanarensis do Triássico da Argentina. Divulgação

Será que espécies rivais, ainda que aparentadas, conseguiriam deixar suas diferenças de lado para tentar sobreviver à catástrofe?

Essa é a premissa da história na metade da narrativa que se passa no longínquo período Cretáceo. Os outros 50% do livro falam do que seria o nosso futuro -o final do século 21, quando colônias terráqueas na Lua e em Marte (fundadas por seres humanos, bem entendido) descobrem sinais da saga evolutiva vivida pelos korubo e pelos arama.

Para quem não é leitor de ficção científica ou de livros sobre evolução, a premissa do romance pode parecer doideira. Na verdade, porém, parte do charme da história é justamente o fato de que ela manipula, com considerável desenvoltura, uma série de clichês de ambos os gêneros.

Os dinos inteligentes, por exemplo, volta e meia eriçam suas penas nas páginas de autores que tentam imaginar até que ponto seria possível o surgimento de uma civilização forjada por outras espécies aqui mesmo na Terra.

Já a corrida para decifrar o significado de inscrições deixadas por uma suposta cultura alienígena é o que desencadeia a trama do clássico “Contato”, escrito pelo astrônomo e popularizador da ciência Carl Sagan e depois transformado em filme. A dívida em relação a Sagan, e até uma brincadeira sobre a atriz Jodie Foster, protagonista da versão cinematográfica de “Contato”, estão nas páginas do romance.

Série ‘Cosmos – Mundos Possíveis’

O astrofísico Neil deGrasse Tyson em cena de ‘Cosmos – Mundos Possíveis’ Divulgação

Cena da série ‘Cosmos – Mundos Possíveis’ Divulgação

Nemésio também usa com habilidade seus conhecimentos de zoólogo para dar um colorido especial às culturas divergentes de seus dinos civilizados.

Considerando o que se sabe sobre os sistemas de acasalamento das aves de hoje (que, nunca é demais lembrar, não passam de dinossauros sobreviventes), como seria a vida familiar de uma versão inteligente desses bichos? As pressões pela emancipação dos gêneros em sociedades modernas humanas seriam as mesmas? (Para evitar os spoilers, deixo a questão no ar, mas basta dizer que as soluções narrativas encontradas pelo autor são divertidas.)

Um dos grandes desafios desse tipo de ficção é fazer com que os personagens e acontecimentos da trama parem em pé por si mesmos -em outras palavras, evitar que eles se transformem em simples fábula ou alegoria, figuras mal-disfarçadas das situações do mundo real às quais remetem.

Em diversos momentos, é preciso dizer que o livro de Nemésio cruza essa linha, talvez por certo excesso de referências indiretas, mas ainda assim fáceis de decifrar, aos perigos trazidos pelo fanatismo e negacionismo dos últimos anos.

Curiosamente, o romance se sai melhor ao retratar seus dinos como pessoas de verdade, com suas peculiaridades e defeitos, do que quando precisa abordar os humanos de fins do século 21. O texto, por vezes, se torna didático demais (ainda que muito instrutivo, com quase 20 páginas de notas contendo a literatura científica original que inspirou a obra).

Apesar desses defeitos, é preciso reconhecer a capacidade de unir conhecimento e imaginação para criar uma história que prende a atenção e faz pensar.

*Jornalista e escritor. Artigo na Folha de São Paulo inserida no Caderno Ciência, de 27/01/2021.
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