As lições estão aí à disposição nos acontecimentos do dia a dia. Só nos resta entender o movimento incessante das mudanças e seus significados. As convulsões da pandemia não apenas nos assustaram, como também nos sacaram das zonas de conforto de seguir o passo a passo do planejamento, incluindo as estratégias de comunicação pessoal e empresarial. Não diríamos, do ponto de vista corporativo, que nossa zona de conforto, inserida neste “faz que vai” chamado Brasil, seja necessariamente agradável. Com a pandemia, entretanto, restou a todos identificar as vantagens de sair da mesmice para ficar em casa.

O que fazer?

Com as mudanças impostas para compreender e enfrentar a contaminação universal da Covid-19, buscamos o lugar comum das janelas de oportunidades que toda crise oferece. E fomos empurrados a assimilar o golpe de ver a economia derreter à nossa frente nos obrigando buscar soluções na história. E estudar como se comportaram governantes, empresários e trabalhadores em ocasiões similares.

Quem é este cidadão, o consumidor?

Daí, vimos que não há saída para quem não trabalha com os dados da realidade. Muito menos para quem não fabrica novos paradigmas de interação com parceiros, clientes, fornecedores e, especialmente, com o mais importante ator dessa trama social: o cidadão, no caso das empresas, o consumidor. Já faz tempo que ele nos tem dado sinalizações e exigências diferenciadas para o ato de consumir. São outros seus hábitos, preferências, valores, percepções e expectativas com relação aos fabricantes. 

Do protagonismo ao isolamento

Desde os anos 90, para dar um exemplo, ele se afasta de quem compromete a qualidade do ar, da água e de outros recursos naturais. O Brasil foi protagonista destacado, desde a grande Conferência da ONU sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento no Rio de Janeiro em 1992. Incorporamos novas atitudes e quem conseguiu perceber a mudança atualizou a comunicação com o cliente e tudo o mais que isso representa em termos de resultados. E por conta, exatamente, de vacilos recentes na comunicação do país com seus pares globais, o Brasil passou a ser foco da crítica mundial por conta das questões ambientais, entre outros descuidos de comunicação de seus propósitos prioritários.

Comunicação aloprada

Pois é… Comunicação de propósitos está na ordem do dia na economia da pandemia. O Brasil corre o risco de ficar isolado dos acordos bilaterais e virar apenas objeto de críticas por sua comunicação desastrosa em assuntos como a Amazônia e resultados catastróficos no trato do novo coronavírus. Quem se comunica – num contexto de solidariedade premente – desatento a essa questão, está fadado à solidão corporativa e institucional. Países que entenderam isso, e emprestaram solidariedade a parceiros mais atingidos, agregaram à própria imagem um ganho excepcional.

“A vida importa…”

Em sua rotina editorial, ou ou estratégia mercadológica, a Rede Globo usa suprimir a citação das marcas em suas manifestações noticiosas. Entretanto, no auge da pandemia, a emissora decidiu abrir um quadro, em seu principal noticiário, destacando as boas práticas de empresa A, B ou C em favor do combate aos atingidos frontalmente pelo maldito vírus. Quem doou o que para quem. Para dar outro exemplo, na comunicação e na rotina empresarial, “… a vida dos negros, índios e refugiados importa, sim”. Por isso, não faz sentido comunicar que o Brasil é a Avenida Faria Lima, esconder a existência do Capão Redondo, ou do Vale do Rio Javari, no Amazonas que, de tão longe, não chega a comover a comiseração humana.

EPIs e Alimentos, propósitos sem retorno

Distantes deste paradigma, sem perceber o alcance e o acerto ético, as empresas do Polo Industrial de Manaus não titubearam em comunicar, com atos e iniciativas, o propósito de uma indústria solidária, justamente na cidade em que mais a crise sanitária mais avançou e ceifou, proporcionalmente, mais vidas do que no resto do país. Este propósito incluiu aprender a fabricar e doar do dia pra noite EPIs, equipamentos para proteger nossos heróis, álcool em gel, respiradores, entre outros produtos que eram feitos do outro lado do mundo e aqui não chegariam a tempo de salvar vidas. E não parou por aí. Com o isolamento, sumiu o emprego, especialmente da metade da população que vive da informalidade. Sumiu também o alimento da mesa das famílias. E aí, a indústria solidária da Zona Franca de Manaus partiu para organizar a coleta de alimentos internamente. QUEM TEM FOME TEM PRESSA, inspirada no sociólogo Betinho, a indústria passou a distribuir, através de suas entidades representativas, Centro e Federação das Indústrias do Estado do Amazonas, ELETROS e ABRACICLO, 20, 50, 100, 150 toneladas de alimentos até aqui. E até onde persistirem os flagelos dessa pandemia, pois o caminho solidário, escolhido como propósito, é uma comunicação que não tem retorno.

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Alfredo Lopes
Alfredo é filósofo e ensaísta. Consultor do Centro da Indústria do Estado do Amazonas - CIEAM.

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