Drauzio Varella
*Drauzio Varella

É preciso ter em mente que as medidas de combate à pandemia envolvem tudo o que deixamos de fazer.

Você pode transmitir o novo coronavírus, antes de saber que está infectado.

Ao entrar em contato com o vírus, alguns permanecem sem sintomas durante todo o curso da infecção: são os assintomáticos. Outros passam dias sem sentir nada, antes que os sintomas se instalem: são os pré-sintomáticos.

Assintomáticos e pré-sintomáticos desempenham papel primordial na disseminação da epidemia, porque são pessoas saudáveis que entram em contato com outras, em casa e na comunidade, muitas vezes sem tomar os cuidados necessários. Esse contingente de transmissores só pode ser identificado pela testagem em massa.

Para ter valor preventivo, entretanto, a execução do teste deve ser rápida, para que os infectados e os que entraram em contato com eles possam ser identificados e mantidos em isolamento.

Resultados que chegam depois de dois ou três dias são menos úteis; quando se tornam acessíveis apenas uma semana ou mais depois da coleta, o impacto na prevenção de novos casos é zero.

A falta de testagem aleatória em indivíduos saudáveis compromete os esforços para controlar a epidemia.

O número de casos assintomáticos durante todo o curso da infecção é mal conhecido.

Nos primeiros meses da pandemia, os estudos citavam números que variavam entre 30% e 80% dos infectados.

O tempo nos mostrou, no entanto, que apenas 17% a 30% são verdadeiramente assintomáticos, os demais desenvolvem a sintomatologia característica da Covid. Uma revisão sistemática mais recente concluiu que permanecem sem sintomas 20% dos infectados.

Entre os que apresentarão a forma sintomática da doença, o período de transmissão do vírus para os contactantes começa dois dias antes da instalação dos primeiros sintomas.

Nesses dias iniciais, a carga viral nas secreções da mucosa nasal atinge o pico, para cair nas proximidades do final da primeira semana. Nos assintomáticos a carga viral costuma ser mais baixa, e a eliminação do vírus mais rápida.

Embora saibamos que a carga viral diminui gradativamente no decorrer do processo infeccioso, a duração do período em que pode ocorrer transmissão não está definida com clareza. As melhores estimativas são que, depois de dez dias, o doente deixa de ser contagioso, desde que seus sintomas estejam em regressão.

Nos pacientes internados em UTI, mantidos com ventilação mecânica, o vírus pode persistir nas secreções nasais por mais tempo.

Alguns dos que se recuperaram completamente da doença podem apresentar o teste de PCR repetidamente positivo por semanas.

Esses casos não estão associados à possibilidade de transmissão para terceiros, porque o teste é muito sensível, capaz de detectar a presença de fragmentos de RNA residual, partículas sem viabilidade.

Por essa razão, não faz sentido empresas adiarem a volta ao trabalho dos funcionários já recuperados da Covid, em que o teste de PCR permanece positivo depois de duas semanas, contadas a partir do dia do primeiro sintoma.

As bases biológicas para a transmissão do Sars-CoV-2 na fase assintomática são pouco conhecidas. O contágio nesse período depende da magnitude da resposta imunológica da mucosa nasal do hospedeiro.

A mucosa nasal é um nicho ecológico em que a resposta antiviral é modulada pelo ambiente externo (temperatura, umidade, poluição do ar), pelos fatores anti-infecciosos presentes no muco, pelo histórico de outras infecções adquiridas por via respiratória e pelo estado imunológico do hospedeiro.

A identificação dos assintomáticos e pré-sintomáticos tem grande importância epidemiológica, porque a única forma de identificá-los é através do teste PCR, colhido no fundo do nariz.

Ônibus vira laboratório para testes de Covid-19 no Aeroporto de Congonhas

Funcionários da Secretaria Municipal da Saúde em ônibus estacionado no Aeroporto de Congonhas, na zona sul de São Paulo; veículo foi transformado em laboratório para testes de passageiros com suspeita de estar com Covid-19 Mathilde Missioneiro/Folhapress

Passageiro tem a temperatura medida ao chegar no Aeroporto de Congonhas, na zonal sul de São Paulo, onde foi montada uma barreira sanitária Mathilde Missioneiro/Folhapress

Ônibus estacionado no Aeroporto de Congonhas, na zona sul de São Paulo; veículo foi transformado em laboratório para testes de passageiros com suspeita de estar com Covid-19 Mathilde Missioneiro/Folhapress

Passageiro têm a temperatura medida ao chegar no Aeroporto de Congonhas, na zonal sul de São Paulo, onde foi montada uma barreira sanitária Mathilde Missioneiro/Folhapress

Enquanto os que já estão doentes procuram os serviços de saúde para confirmar o diagnóstico e receber orientação, quem desconhece sua condição só pode ser alcançado pela testagem aleatória.

Com tanta gente sem sintomas espalhando inadvertidamente o vírus na comunidade, precisa haver um grande esforço para aplicarmos o maior número possível de testes.

Há consenso entre os especialistas de que as medidas de combate à pandemia devem ser de natureza aditiva: vacinação, testagem em massa, uso de máscara, higiene das mãos, distanciamento social e ventilação de espaços fechados.

Ou seja, tudo o que deixamos de fazer.

*Médico e escritor. Colunista da Folha de São Paulo, Caderno Ilustrada, de 02/06/2021.
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