* Thiago Amparo

Da Flip ao Rei Leão, por que discurso de diversidade é insuficiente.

Está entre as minhas anedotas favoritas envolvendo a lendária juíza Ruth Ginsburg, uma das nove integrantes da Suprema Corte dos EUA: em 2017, quando uma jornalista perguntou qual seria o número “suficiente” de mulheres na Suprema Corte, sua resposta foi certeira: “quando tivermos nove juízas”.

O estranhamento que essa resposta provavelmente causou revela o quão profundo é o processo de normalização da desigualdade. Por que não nos espanta – em sociedades plurais – termos cortes supremas, parlamentos e gabinetes de ministros compostos hoje integralmente por homens brancos?

Diversidade oferece uma linguagem importante para avançarmos em debates sobre desigualdade, mas também podem fazê-lo de forma perversa. Igualdade, por outro lado, permite uma gramática mais potente para pensarmos questões estruturais.

Às pessoas “diversas” lhes é dada a cortesia politicamente correta de pautar temas dentro de suas identidades e não refletir sobre temas tidos como gerais.

Certa vez, em um debate sobre democracia, a mediadora me perguntou: “como é para você, negro, viver no Brasil de hoje?”. Depois da minha resposta, a mediadora perguntou ao outro palestrante (homem branco): “como você vê hoje a crise da democracia no Brasil?”

Na Flip 2019, a escritora Marilene Felinto recusou convite para participar de um debate só com autoras negras como ela, porque a elas não fora dado o reconhecimento de melhores autoras da festa literária pelo mesmo veículo de imprensa. Sob aplausos, disse: “da senzala da reportagem eu não participo.”

Ademais, a linguagem da diversidade tende a nos fazer se contentar com pouco. No Brasil, dados deste ano do projeto Justa (plataforma do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais) relatam que homens brancos têm 37,8 vezes mais chances de se tornarem desembargadores do que mulheres negras. A piada (triste) é que, diante desta estatística, alguns homens brancos já nasceram desembargadores.

Hoje, negros são 1% no mercado jurídico de elite no país. Se amanhã forem 3%, estaremos num mundo mais diverso do que antes. Mais diverso, sim. Significativamente melhor, não.

Práticas de diversidade, se bem-feitas e constantemente revisadas, funcionam. Permitem que grupos historicamente marginalizados de setores de poder como altas lideranças empresariais ocupem novos espaços. Também, é comprovado empiricamente que diversidade gera mais lucro (cerca de 35% a mais no caso da diversidade étnico-racial segundo famoso estudo da consultoria McKinsey).

Diversidade impulsiona, entre outras coisas, maior inovação, fomentando novas ideias e expansão das redes de contato, além de maior sensibilidade para o público consumidor de uma determinada empresa. Tanto os leitores deste jornal quanto os consumidores de xampu demandam diversidade no que consomem.

Tais práticas de diversidade são importantes e devem continuar. No entanto, lutas por igualdade não devem a elas ser resumidas. Digo isso, claro, sem trivializar o que significa igualdade (há bibliotecas inteiras a respeito).

Diversidade é ter uma pessoa “diversa” para chamar de sua. É chamar uma única mulher em um congresso com dez homens na mesa. É ter uma pessoa LGBT em sua empresa como oficial de diversidade num mar de pessoas heterossexuais, ter um único diretor negro em seu departamento, ter alguns parlamentares negros num Congresso Nacional composto por 75% de homens brancos heterossexuais.

Diversidade é almejar um mundo que parece uma boy band dos anos 90, com uma pessoa de cada etnia.

Igualdade, por outro lado, é ter o top 5 de autores mais vendidos na Flip 2019 negros e indígenas, com obras que falam sobre temas diversos, de racismo a música. É reverter os parâmetros culturais a que crescemos acostumados e permitir, por exemplo, que negros contem e sejam protagonistas de suas próprias histórias e não serem reduzidos a meros lacradores – com a peculiaridade e individualidade a que tem direito outras pessoas.

Filmes como “Rei Leão” e “Pantera Negra” e séries como “Olhos que Condenam” são exemplos disso.

O fato de questionarem a existência de uma pequena sereia negra ou de uma agente secreta 007 mulher mostra o quão culturalmente longe estamos de quebrarmos paradigmas que nos levem à igualdade.

Quando era advogada pela Aclu, umas das mais fortes organizações de direitos civis nos EUA, Ginsburg foi uma das principais defensoras dos direitos das mulheres. Em 1973, ao discursar perante uma corte composta integralmente por homens, a então advogada Ruth Ginsburg citou a abolicionista e defensora de igualdade entre homens e mulheres, Sara Grimke: “Eu não peço favores para o meu sexo. Tudo que peço a nossos irmãos é que tirem os pés dos nossos pescoços”.

Quando demandam igualdade, negros, LGBTs, mulheres, pessoas com deficiência, migrantes, entre outros e todas as intersecções entre eles, não pedem o favor da diversidade. Pedimos igualdade.

*Advogado e professor. Matéria na Folha de São Paulo. Caderno Opinião, de 26/07/2019.
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