Por ocasião das comemorações dos 351 anos da presença oficial do homem dito europeu no território manauense, contados a partir de 1669 com a construção do Forte de São José da Barra do Rio Negro, resolvi convidar os leitores a me acompanharem numa série de visitas guiadas ao Teatro Amazonas, o ponto referencial mais importante e símbolo da nossa terra, aliás, a única cidade, mundo afora, cujo ícone é um teatro.

Edificado em colina especialmente escolhida para este fim, acabou transformando a região de antiga rocinha na parte mais importante da capital amazonense, desde quando teve início a edificação, em 1884, em razão de projeto de lei de autoria do deputado Antonio José Fernandes Junior.

Deslocado da área alagadiça onde se situam as atuais Sete de Setembro, Enrique Martins, Saldanha Marinho e Joaquim Sarmento, em terras próximas do igarapé do Espírito Santo, conforme pensado originalmente, foi erguido no Largo na forma de projeto proposto pelo português Bernardo António de Oliveira Braga, organizado pelo Gabinete Português de Engenharia de Lisboa, em verdadeira operação de guerra, pode-se dizer, em pouco mais de dois anos e meio de intenso trabalho por decisão, fiscalização e controle do governador Eduardo Ribeiro (18921896), enquanto os cofres públicos bamburravam de receitas originadas pela exportação da borracha.

O que havia nesse belo lugar de contemplação em que se transformou o Largo de São Sebastião, assim denominado por Antônio David de Vasconcellos Canavarro, muitos anos passados, o que havia era só um descampado grande como se fosse uma clareira, e no meio dela uma rocinha particular. Do prédio havia sido erguido somente dois metros e pouco de parede, quando Ribeiro exerceu o governo interinamente (1891) e proclamou que faria erguer o teatro de uma vez por todas, arrastado que vinha desde o império. No ano seguinte, depois do rebolico político-militar da troca de cadeiras com Thaumaturgo de Azevedo, Eduardo Ribeiro (engenheiro. militar, positivista e anticlerical), rescindiu o contrato com Rossi & Irmãos com ajuda do advogado e conde Ermanno Stradelli.

As obras foram retomadas em 1893 em ritmo acelerado, com vários contratos e serviços levados a efeito de forma concomitante para a inauguração até julho de 1896. Até o primeiro espetáculo, a companhia, o maestro e a ópera foram selecionados e contratados por Ribeiro, bem antes da data festiva. Deu-se atuação frenética, fiscalizada com rigor pelo governador que, muitas vezes, metia a mão na massa (cimento) para testar se estavam aplicando o traço contratado com o governo, conforme contava meu pai em conversas generosas conosco.

O fato é que todas as semanas aportavam no cais da beira do Rio Negro, navios vindos da Europa e de outros portos, carregados de materiais e trabalhadores experimentados trazidos para os serviços do teatro que se erguia no meio da selva. Depois, os móveis, espelhos, colunas, adornos, peças de decoração, tapetes, esculturas, luminárias, caixas dá agua, e, como se não bastasse, o governador resolveu instalar uma usina de luz especial para o Teatro usando o que havia de mais moderno na ocasião: o carvão importado.

Apesar do esforço e da demonstração de competência gerencial de Ribeiro, graças a interferências e atropelos políticos, o Teatro acabou sendo inaugurado por Fileto Pires Ferreira em 31 de dezembro de 1896, seis meses depois de Ribeiro passar o governo a seu sucessor e amigo, mas ninguém deixou de reconhecer que a obra foi ribeiriana.

É por esse monumento particularmente belo, luxuoso e sofisticado que vamos passear a partir do próximo domingo. Prepare-se, você vai descobrir coisas muito interessantes e dignas de aumentar seu orgulho de ser manauense.

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Roberio Braga
*Amazonense de Manaus. Historiador. Bacharel em Direito, especializado em Direito Agrário, pós-graduado em Administração de Política Cultural e Mestre em Direito Ambiental. Professor da Escola Superior da Magistratura do Amazonas e da Universidade do Estado do Amazonas. Ex-presidente da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Ex-Secretário de Estado de Cultura, desde 1997 até 2017 e atual Presidente da Academia Amazonense de Letras.

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