O teto, as colunas, os bustos, os cristais, os espelhos, os móveis, o piso, OS lustres, em tudo no Salão Nobre há requinte. É mais do que maravilhoso.

Faz tempo que não se exige traje especial para frequentar o Teatro Amazonas. Nos primeiros anos o exigido era o que havia de mais clássico em indumentária para homens e mulheres de todas as idades, sempre sofisticadas, em verdadeiro desfile de moda parisiense e londrina nos corredores, varandas e, principalmente, no salão nobre ao qual boa parte do público acorria nos intervalos das récitas para uma exposição viva de elegância, riqueza e sofisticação. A esse respeito as histórias são muitas, até de desavenças entre senhorinhas e senhoras que se apresentassem com o mesmo tom das sedas importadas, armação dos chapéus e adereços de colo.

O salão era, por assim dizer, o ambiente sofisticado por natureza no qual as madames costumavam expor suas relíquias, trocar amabilidades, comentar o desempenho dos atores e atrizes, criticar a orquestra que nem sempre era o ponto forte do espetáculo, mas, também, enciumar umas às outras forçando olhares provocantes de maridos mais afoitos sobre a esposa alheia.

Uma breve descrição pode dar a dimensão da exuberância desse ambiente, nobre sobre todos os títulos, pois creio que é o mais emocionante desse monumento brasileiro. O Salão Nobre que Eduardo Ribeiro tanto quis e foi feito por Ramalho Júnior. O teto, as colunas, os bustos, os cristais, os espelhos, os móveis, o piso, os lustres, em tudo há requinte. É mais do que maravilhoso. São 16 colunas imitando mármore, bustos em gesso pintados de Carrara feitos na Itália e finalizados por Quattrini, em Roma. As pinturas alegóricas são de De Angelis, mas foram feitas pelas hábeis mãos de Sílvio Centofanti rodeadas de portais de mármore travertino, do rio Tibre, mostram a ponte que Ribeiro inaugurara em 1895, garças, esquilos, tucanos, regatão, crepúsculo, onça e capivara, borboletas, flores e o Guarany em detalhes primorosos. O piso de madeira em marcheteria com nogueira, carvalho, bordo e mogno de 12 mil peças sob desenho de De Angelis e balaustrada de “breccia pavonazzeto” com folhas de ouro (1899).

As bases colunares são mármore de Carrara, alisares e panos são de mármore policrômico polido, e não há falar que as colunas de mármore originais teriam afundado. O que afundou no vapor “Santarense” foi o conjunto de peças de Carrara que seria utilizado nas escadarias laterais.

O teto excede a tudo que se viu de belo: “a glorificação das belas artes do Amazonas” com mu sas dos céus do Monte Helicon com perspectiva “sotto insu”. “Glória” é a figura ereta e alada com coroa de louros nas mãos para consagração às artes. Há “Melpomene”,a musa da Tragédia; “Thalia”, com a máscara da Comédia; “Euterpe”, a musa da Música tange um alaúde; “Erato”, a musa da lírica e poesia do amor; “Ethos”, toca lira; “Terpsichore”, a musa da Dança e do Coralgira o corpo com véu de ouro. Não faltam honrarias à arquitetura, pintura e escultura, e muito menos a “Clio”, a musa da História;”Caliop”, a musa da poesia épica;a “Polyhymnia”, a musa dos hinos sublimes;e, a “Urania”, a regente da astrologia que se agrupam em outro lado da peça que forma o céu de arte desse paraíso da beleza. Tudo isso foi contratado em 1897 e esboçado em Roma, mas pintado no próprio Teatro, no local, em muitas horas de dedicação extrema e ao preço de 28 mil francos.

Ao caminhar para a varanda frontal descortina-se o Largo de São Sebastião com suas pedras centenárias, casario tradicional, monumento genial, igreja de uma só torre e a vida cotidiana da cidade que ganhou novos ares desde que o restauramos e revitalizamos anos passados.

Este paraíso encantou inúmeros reis, príncipes, princesas, rainhas, embaixadores, artistas, seduziu líderes de várias nacionalidades e, graças ao bom Deus, ao longo dos anos não sofreu maiores ataques de descaracterização do ambiente, mas foi empobrecido no seu requintado mobiliário da Marcenaria Brasileira de Thomas Cockrane, nos tapetes, peças de adorno e lustres. De Jean Paul Sartre e sua Simone ao príncipe Charles e aos reis da Bélgica e outras muitas personalidades, não houve quem não se encantasse com seu esplendor.

Graças, mil graças, que nos últimos anos não serve mais para banquetes políticos, convenções partidárias, festas de miss, formatura de bacharéis, salesianos ou ginasianos, e vem sendo tratado com a delicadeza necessária à sua preservação visando o infinito que se projeto entre seus espelhos e lustres de ponta a ponta com a sensação de Versalhes.

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Roberio Braga
*Amazonense de Manaus. Historiador. Bacharel em Direito, especializado em Direito Agrário, pós-graduado em Administração de Política Cultural e Mestre em Direito Ambiental. Professor da Escola Superior da Magistratura do Amazonas e da Universidade do Estado do Amazonas. Ex-presidente da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Ex-Secretário de Estado de Cultura, desde 1997 até 2017 e atual Presidente da Academia Amazonense de Letras.

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