O hall nem sempre foi discreto e elegante como se encontra desde 1990 e não coincide como original de 1896 nem como modificado por Olímpio de Menezes (1928-34). 

Depois de contemplar a beleza exterior do Teatro Amazonas o visitante será surpreendido pelo esplendor do seu interior, do hall à cúpula majestática, desse monumento do Brasil. O hall nem sempre foi discreto e elegante como se encontra desde 1990 e não coincide com o original de 1896 nem como modificado por Olímpio de Menezes (1928-34) que o decorou com folhagens, seis quadros de paisagens regionais e teto com luar amazônico. De 1896 para 1990 perderam-se dois bancos de ferro importados e portas em madeira e cristal bisotado que ornavam o ambiente.

A receber quem chega, desde 2017, o busto de Eduardo Ribeiro saúda o visitante. Adiante, pode-se escolher dois caminhos: escadas em mármore Carrara de 1990 que concluíram o projeto original e levam aos demais pavimentos; ou seguir ao Salão de Espetáculos. Subindo, há corredores espaçosos nos quais havia espelhos venezianos e franceses, jarros de porcelana francesa, chinesa e japonesa, bibelôs de Sevres, cortinas de damasco, tapetes persianos, veludos e rendas (1896). Nos camarotes faltam as “damas-de-sala”. Há toaletes e no centro dos corredores exposições contam a história do Teatro.

No segundo piso o camarote do governador, agora sem ornamentos em damasco gravados com franjas e bordaduras em ouro, espelhos venezianos, peças em mármore, adornos de murano, mas sóbrio; além dos reservados ao bispo e prefeito. Foi de lá, em 31 de dezembro de 1896 e em 7 de janeiro de 1897 que Eduardo Ribeiro viveu a emoção da inauguração e da ópera “La Gioconda”, de Amilcare Ponchielli, sob aplausos e vivas. Do mesmo lugar Silvério Nery assistiria à solenidade de 30 dias da morte de Ribeiro, executado por vingança política em 1900.

Desse ponto se descortina o mais belo cenário de quase 125 anos: o Salão de Espetáculos em forma de lira e colunas jônicas com capiteis com volutas. Ao fundo, o palco e a caixa cênica com panos de boca originais (1896), seja o do encontro das águas com Vênus e Tritões paraninfando a Glória e rostos de De Angelis e Crispim do Amaral, este que foi o autor da obra; seja o outro que é simples, e havia um terceiro se perdeu antes de 1910. Medem 14m por 11 me são pintados à têmpera sobrelinho, vindos de Paris. Na caixa moderna não há tanques de água que ajudavam a acústica e preveniam incêndio, nem a concha do “ponto” ou a ribalta iluminada que conheci.

No plafond, executado em Paris pela Casa Capezot, há honrarias de Crispim do Amaral e De Angelis à Glorificação de Carlos Gomes e alegorias à Dança, Música e Tragédia em peças afixadas com grampos de cobre, sustentadas por arcos de ferro a sugerir a Torre Eiffel. Ao centro, a rosácea imponente da qual pende lustre de ferro batido com elementos vegetais e, não sendo o original despedaçado em 1926, é elegante. Nas colunas das frisas há 22 mascarões com faces grotescas, penteado e barba no estilo grego, em homenagem a gênios da humanidade os quais são ligados por grinaldas com guizos e campânulas com luminárias em formato de vegetal, e gradis importados. Os assentos atuais, em madeira e veludo e de estilo, ocupam o lugar de cadeiras austríacas e peças em madeira, ferro e palha da índia, algumas das quais estão no Instituto Histórico do Amazonas, salvas por mim da destruição, em 1973.

Se tiver fôlego, vá à cúpula que não constava do projeto original: é um domo em forma de catedral. Uma escada de ferro, original e do tipo caracol, igual a que foi transferida para o Ginásio Amazonense (1926-29) o levará a esse lugar belíssimo. A estrutura em aço, desenhada em Manaus por Willy von Bancels (1894) tem revestimento em cerâmica policromada em verde, amarelo, azul e branco, e linhas em vidros coloridos, vidradas da Alsacia, imbricadas, aqui chegadas em 121 carradas com suas 66.740 peças. Foi montada por franceses em dois anos de obras juntamente com o telhado. Dominava a paisagem da cidade antes dos arranha-céus. Jamais girou e não se pensou nisso, nem foi comprada em feira de Paris, tudo isso é lenda, mas esteve por ser retirada em várias ocasiões. É exuberante ver!

A visita ao Salão Nobre requer tempo, e vamos vê-lo na próxima oportunidade. Prepare o coração e o espírito, é coisa de sonho que se tornou realidade no meio da floresta e do quase nada daqueles anos.

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Roberio Braga
*Amazonense de Manaus. Historiador. Bacharel em Direito, especializado em Direito Agrário, pós-graduado em Administração de Política Cultural e Mestre em Direito Ambiental. Professor da Escola Superior da Magistratura do Amazonas e da Universidade do Estado do Amazonas. Ex-presidente da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Ex-Secretário de Estado de Cultura, desde 1997 até 2017 e atual Presidente da Academia Amazonense de Letras.

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