*Luís Francisco Carvalho Filho

Na pandemia, ser governado por Bolsonaro é pesadelo adicional.

Uma crise sem precedentes, a aparente incapacidade material para tratamento de todos os infectados com complicação respiratória, o colapso da economia planetária, a recessão sombria, distópica, empresas sem fabricar, vender e servir, consumidores sem consumir, o desmantelamento dos arranjos familiares de trabalho, sustento e poupança, o confinamento residencial, ruas vazias, crianças sem escola, os pobres mais pobres ainda e vivendo em ambientes insalubres, medo de adoecer, medo de desabastecimento, é papel dos governantes a adoção de estratégias de enfrentamento e de medidas compensatórias, além de orientar a população perplexa, desinformada.

Ser governado por Jair Bolsonaro é o pesadelo adicional que o país não merece.

Seria constrangedor comparar suas atitudes, invariavelmente beligerantes e estúpidas, com, por exemplo, a postura da chanceler alemã Angela Merkel.

Não é só a pequenez moral, a sanha autoritária, a incivilidade política, o descompasso com o seu tempo. O presidente trata a pandemia com notável falta de seriedade.

É verdade que o ministro da Saúde (pelo menos por enquanto) dá surpreendente demonstração de profissionalismo, atuando como agente de Estado (e deve descolar mesmo sua imagem da melancólica figura presidencial), mas o governo como um todo é muito ruim de serviço.

A economia vai mal e a culpa não é mais da Dilma nem do PT. Assim como, nas gestões petistas, a culpa não era mais de FHC.

A culpa, agora, é de Jair Bolsonaro e de Paulo Guedes -tido pelo mercado como “ilha de eficiência” em Brasília- e seu liberalismo de gibi.

Em 2019, apesar da reforma da Previdência, a solução mágica para a trava do desenvolvimento, o PIB cresceu menos que em 2017 e 2018, no combalido governo Temer, um fiasco.

O ministro da Economia quer mais reformas, “necessárias e urgentes” (no plural), mas é incapaz de formulá-las e de encaminhar propostas concretas para o Congresso.

O decreto de calamidade é importante para se obter agilidade para compra de material e contratação de serviços, mas não é tudo e é preciso vigilância do Legislativo e do Judiciário.

O presidente é leviano, inconfiável: não serve de modelo para gestores estaduais e municipais, hesitantes ou erráticos.

O panelaço contra Bolsonaro

Pessoas protestam de janelas e varandas de apartamentos contra o presidente no bairro de Perdizes, zona oeste de São Paulo Danilo Verpa – 18.mar.2020/Folhapress

Pessoas protestam de janelas e varandas de apartamentos contra o presidente Jair Bolsonaro no bairro de Perdizes, zona oeste de São Paulo Danilo Verpa – 18.mar.2020/Folhapress

Projeção contra o presidente Jair Bolsonaro em um prédio na Rua Aureliano Coutinho, em Santa Cecília Marilia Miragaia – 18.mar.2020/Folhapress

O Brasil deve cuidar de todos os vivos e precisa de Estado.

O governo federal, incapaz de organizar o atendimento de aposentados, vai cumprir a promessa de distribuir voucher mensal de R$ 200 (equivalente a menos de 40 dólares) para milhões de trabalhadores informais e autônomos de todo o país?

Quantos leitos de UTI, equipados com respiradores, serão incorporados à rede pública de hospitais nos próximos 60 dias?

Quais medidas o Ministério da Justiça implantará para controle da epidemia no sistema penitenciário, superlotado e sanitariamente indecente, com mais de 750 mil presos?

O que o Ministério da Educação sugere para a falta de aulas presenciais? As crianças pobres do Brasil vão para casa e pronto, sem merenda?

O irresponsável passeio entre “admiradores” no domingo, a falação imprópria sobre a pandemia (“exagero”, “histeria”), a patética entrevista coletiva de quarta-feira (18), a máscara cirúrgica para simular gravidade e circunspecção, manipulada, porém, com a habilidade de um símio (material trágico e farto para a inspiração de humoristas): é melhor que o presidente da República entre em quarentena, silencie e desapareça da cena política.

*Advogado criminal. Artigo na Folha de São Paulo, Caderno Cotidiano, de 21/03/2020.
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