*Igor Gielow

Sem guerra ou insurreição, país tem 3 vezes mais assassinatos do que Afeganistão.

A banalidade da morte violenta brasileira, evidenciada pela nova edição do Atlas da Violência, salta ainda mais aos olhos quando se considera que este é um país que não vive conflitos externos ou internos relevantes há décadas.

Uma boa régua de comparação é o México, nação de grande proporção (129 milhões de pessoas) na mesma América Latina (ainda que tecnicamente ele esteja na do Norte). O país vive um contínuo processo de conflito entre cartéis de narcotraficantes e forças do governo há anos.

Resultado: em 2017, teve 29.168 assassinatos, ou 22,5 por 100 mil habitantes, segundo dados da Organização das Nações Unidas e do Banco Mundial. No mesmo ano, o Brasil entregou a taxa astronômica revelada nesta quarta (5), de 31,6 mortes violentas por 100 mil habitantes. Os números mexicanos pioraram em 2018, mas aí não é possível fazer comparações diretas.

Outro país afetado por violência endêmica na região, a vizinha Colômbia, também tem uma taxa altíssima de homicídios. Em 2017, foram 24 por 100 mil habitantes. E o índice tende a declinar com os efeitos do acordo de paz entre governo e a principal força rebelde do país, as Farc, assinado em 2016. Dez anos antes, a taxa era três vezes maior.

Note que os colombianos ainda enfrentam uma guerra interna contra grupos subnacionais, dos quais o Exército de Libertação Nacional se destaca. E ainda assim está mais bem colocado nesse mórbido ranking do que o Brasil.

Extrapolando, é possível ver que o Brasil quase empata com o Iraque, país que passou por uma violenta guerra sectária na esteira da invasão americana de 2003 e que, em 2017, vivia reflexos disso e os efeitos do combate ao grupo terrorista Estado Islâmico. Assim, naquele ano houve uma taxa de 34,4 mortos por 100 mil habitantes no país, marginalmente acima da registrada no Brasil.

Já o Afeganistão, outro país que passou por violentos dez anos após as guerras em reação ao 11 de Setembro de 2001, segue convivendo com a insurreição do Taleban e de outros grupos. Na realidade, a agremiação fundamentalista ganhou tanto território que pode até voltar a partilhar o poder, a depender de negociações intrincadas em curso.

Lá, 2017 teve 9,67 assassinatos por 100 mil habitantes. Uma taxa “paulista”, para ficar na propaganda dos governos tucanos do maior estado brasileiro.

Se quiserem encontrar consolo na hipocrisia, as autoridades brasileiras podem mirar a Síria. Arrasado por uma sangrenta guerra civil que envolveu grupos diversos, de sunitas seculares ao Estado Islâmico, contra o governo central em Damasco, a Síria teve 182,9 mortos por 100 mil habitantes em 2017.

O número já era metade do registrado no pico da guerra, três anos antes, e vem decaindo desde que a intervenção russa em favor da ditadura local aproxima o conflito de um fim.

É um dado de difícil aferição, tomado da fonte mais confiável, a ONG Observatório Sírio dos Direitos Humanos. Seja como for, fornece uma medida comparativa com a guerra diária nas ruas do Brasil, país que teve conflito em suas fronteiras pela última vez nos anos 1860 e que não registra embates internos relevantes desde 1932.

A guerra na Síria em fotos

*Jornalista e secretário de Redação da Sucursal de Brasília. Matéria na Folha de São Paulo. Caderno Cotidiano, de 06/06/2019 e atualizado: 07.06.2019.
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