Olavo Bilac (1865-1918) e Vinícius de Moraes (1913-1980) nasceram no Rio de Janeiro. Vinícius contava 5 anos de idade quando Bilac morreu. Bilac viveu o Brasil das últimas décadas do Império e das primeiras da República Velha. O Brasil de Vinícius era o país da República Populista e do Regime Militar de 64. Dois estados diferentes, o de Vinícius e o de Bilac. Diferentes no modo de conduzir os negócios do governo e no comportamento de uma sociedade em transição, da formalidade à informalidade na conduta dos cidadãos. Pode-se verificar isso a partir do vestuário dos dois poetas, na imagem deixada à posteridade em fotografias de época, levando-se em conta a classe social que representaram e as funções públicas relevantes que exerceram. O pai de Bilac era médico e a mãe pertencia à linhagem da recente nobreza brasileira. Os pais de Vinícius integravam a sofisticada burguesia carioca. Bilac foi alto funcionário público e inspetor escolar do Distrito Federal, cargo em que se aposentou, além de ter exercido, em comissão, importantes missões diplomáticas. Vinícius foi diplomata de carreira até se aposentar, após uma trajetória acidentada, face os conflitos gerados pelas imposições de comportamento de sua função pública e a vida boêmia explícita que levava. Motivada, ainda, pela condição de compositor popular que abraçou, com entusiasmo. Deve considerar-se que a condição de compositor de música popular contribuiu para elevar os níveis de qualidade estética do nosso cancioneiro, mas sem dúvida desagradou as autoridades do Itamarati, que não podiam ver com bons olhos, visto o recato pessoal que se espera em titular dessa função de estado, o fato de ver um dos seus pares a perambular pela noite carioca, a bom cantar e dizer poesia nos bares e boates da moda na cidade. Havia outra dificuldade para o poeta do Soneto de fidelidade, gerada por suas progressistas posições políticas. Também aí eles se assemelham, visto Bilac ter experimentado igualmente perseguição política, preso no Império por sua militância republicana e abolicionista.

Pois, então, nessas fotografias a que me refiro linhas acima, vemos Bilac enfarpelado, de paletó, colete e gravata de seda implantada em colarinho alto, bigode engomado e o pensez-netdistinto ornando um perfil apolíneo. Ao contrário de Vinícius que se permitia fotografar em mangas de camisa, com os botões da blusa abertos, pondo à mostra a nesga dos pelos do peito cabeludo. Distinguia-os, ainda, o caso de Bilac ser solteirão, de não constar de sua biografia que tenha tido relação estável com nenhuma de suas musas mais frequentes. Sua noiva eterna foi impedida de casar-se com ele em face da vida boêmia que o poeta levava, forçado por objeções dos familiares da moça. Enquanto que Vinícius casou-se nove vezes, arrostando as noivas a vida superboêmia que ostentava. Ainda aí se revelam os costumes diferentes da sociedade vivenciada por esses dois grandes bardos brasileiros. A mulher, do tempo de Bilac, agrilhoava-se nos preconceitos familiares orientados por uma educação repressora e castradora das emoções e dos sonhos, enquanto que, no mundo de Vinícius a mulher já se havia libertado de tais algemas, transformando-se em elementos responsáveis pelo bom desempenho da coletividade e se fazendo donas do próprio nariz.

No terreno das ideias, também diferiam bastante. Bilac viveu uma época marcada pelo espírito positivista de Comte[1], que inspirou a legenda ordem e progresso inscrita na bandeira nacional e celebrada por Bilac na autoria da letra do Hino à Bandeira. Vinícius experimentou, na juventude, o sistema de ideias católico adotado pelo Centro Dom Vital, que tanta influência exerceu na mocidade estudiosa de sua época, e que marcou a poesia dos seus primeiros livros, sob a liderança de Jackson de Figueiredo[2] e, depois, de Alceu Amoroso Lima[3]. Vinícius, no entanto, na maturidade abandonou esses princípios ideológicos e se vinculou às correntes socialistas do pensamento moderno brasileiro.

Bilac diferia, ainda, de Vinícius, na concepção do país.

Num poema célebre e muito popular intitulado A Pátria, Bilac exorta o leitor jovem a louvar a grandeza do Brasil, como se lê nesses versos:

Ama, com fé e orgulho, a terra em que nasceste!

Criança! não verás país nenhum como este!

Olha que céu! que mar! que rios! que floresta!

A Natureza, aqui, perpetuamente em festa,

É um seio de mãe a transbordar carinho (…)

Enquanto que Vinícius, numa visão mais humana da realidade, em vez de se mostrar ufano com as grandezas do país, lamenta, ainda que com ternura, o destino em Pátria Minha:

(…)

Vontade de beijar os olhos de minha pátria

De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos…

Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) tão feias

De minha pátria, de minha pátria sem sapatos

E sem meias, pátria minha

Tão pobrinha!

(…)                 

Sim, mas não obstante a todas essas diferenças e aproximações, uma circunstância vincula para sempre um no outro esses dois grandes poetas brasileiros, que é o sentido de paixão do comportamento lírico em relação à mulher. Bilac despe-se da postura austera do homem público da República Velha, para cantar o amor, com a liberdade de um autêntico menestrel, nos seus famososTercetosAí o poeta fixa a emoção vivida numa noite de amor inesquecível, em versos elegantes e de vivo realismo lírico. Uma noite em que só um desejo o alimentava, o ideal de jamais deixar-se ficar longe dos beijos e do calor dos braços da mulher amada. Quando ela pede que ele se vá embora, pois a manhã já se aproxima, o poeta implora por mais alguns segundos e ela, então, abria-lhe os braços e ele ficava. O poeta apela para o senso de proteção do amor, para ficar mais um pouco no lugar onde se aconchega. E por aí vai o poeta ficando. Ante a aparente indiferença da amada aos apelos exaltados do poeta, insinua-se dramático e não acredita que ela deseje condená-lo à noite fria e escura que domina as ruas lá fora, da cidade naquele instante. Aí o poeta percebe reflexos de compaixão nos olhos da amada e conclui que não deve partir. Amanhece e o poeta permanece fruindo aquele momento de amor. Diverge da indiferença da companheira quanto aos seus sobressaltos e se esforça em argumentar com os seus melindres, mas sempre no intuito de adiar a ausência daquele leito acolhedor. A amada, então, cheia de amor, consente aos apelos do poeta que conclui triunfante:

– E ela abria-me os braços. E eu ficava.

Cuida-se de um dos mais belos poemas de amor, escritos em qualquer período da literatura, nada piegas, mas ao contrário, alimentado por um vigor erótico puro e amadurecido, na tradição de tantas manifestações líricas da mais alta poesia praticada no mundo.

Neste ponto é quando melhor se aproximam esses dois poetas brasileiros. Porque tal como em Bilac, a obra e a vida de Vinícius foram marcadas pelos rasgos da paixão. Em toda a sua poesia, desde os livros da primeira fase, em que se percebe essa intensa atmosfera lírica, com a presença dominadora da mulher, mas numa visão da mulher ideal, fluida, de concepção metafísica, encontrada na primeira fase de sua obra, como nesses versos do poema A brusca poesia da mulher amada:

A mulher amada é como o pensamento do filósofo sofrendo

A mulher amada é como o lago dormindo no cerro perdido

Mas quem é essa misteriosa que é como um círio crepitando no peito?

Essa que tem olhos, lábios e dedos dentro da forma inexistente?

Tudo contrário à visão consolidada na maturidade lírica do poeta, em que a mulher amada é real e palpável, a mulher do Soneto de devoção que aí vai por inteiro:

Essa mulher que se arremessa, fria

E lúbrica aos meus braços, e nos seios

Me arrebata e me beija e balbucia

Versos, votos de amor e nomes feios.

 

Essa mulher, flor de melancolia

Que se ri dos meus pálidos receios

A única entre todas a quem dei

Os carinhos que nunca a outra daria.

 

Essa mulher que a cada amor proclama

A miséria e a grandeza de quem ama

E guarda a marca dos meus dentes nela.

 

Essa mulher é um mundo! – uma cadela

Talvez… – mas na moldura de uma cama

Nunca mulher nenhuma foi tão bela!

Muito deve a popularidade do poeta a essa visão da vida e do amor, uma experiência vivencial generosamente distribuída no cancioneiro popular, com a qualidade literária e a influência musical praticada nos superiores níveis artísticos alcançados pelo Maestro Antônio Carlos Jobim[4], o famoso Tom Jobim da Garota de Ipanema, canção composta nessa parceria excepcional e mundialmente famosa.

Isso que se percebe nos versos de tantas canções curtidas pelo povo, como estes de uma de suas peças mais interpretadas, numa verdadeira afirmação do bem querer:

Eu sei que vou te amar

Por toda a minha vida eu vou te amar

Em cada despedida eu vou te amar

Desesperadamente

Eu sei que vou te amar.

Um dado interessante a ser levantado é que no tema do amor, no cancioneiro popular brasileiro, predomina, em linhas gerais, o sentimento do amor frustrado, traiçoeiro, ou fatal. O amor condenado a levar os amantes a um fim trágico, à semelhança daquela célebre canção interpretada na voz dramática de Vicente Celestino[5], um dos mais louvados cançonetistas do período:

Tornei-me um ébrio e na bebida busco esquecer

Aquela ingrata que eu amava e me abandonou

Nada disso se observa na postura dos autores da Bossa Nova, movimento musical que muito teve a ver com a presença e a influência de Vinícius. O amor é cantado para valer, e, quando irrealizado, no mínimo com a graça e a ironia daqueles versos de Formosa, composto em parceria com Baden Powell[6]:

Mulher que nega

Não sabe não

Tem uma coisa de menos

No seu coração.

A maestria de Vinícius de Moraes e o bom gosto aperfeiçoado em sua formação estética elevou a qualidade formal do texto e da sensibilidade do cancioneiro popular brasileiro. Tal circunstância levanta a hipótese de que a experiência de compositor de música tenha contribuído, por seu lado, para a condição de popularidade alcançada por sua obra poética. Pode-se assim concluir que não foi somente a divulgação do nome do poeta, por meio da mídia massificadora conquistada pelos veículos de exposição popular, que beneficiou o poeta com essa condição, mas o próprio tirocínio formal conquistado pela fatura literária desses dois modos de expressão. O exercício do cancioneiro popular concedeu maior fluência e simplicidade, maior comunicabilidade, portanto, aos seus poemas de feição erudita. Aquilo que poderia parecer negativo ao padrão literário do criador do Orfeu da Conceição, ao contrário contribuiu para um melhor acesso de toda a sua obra ao consumo dos seus inúmeros leitores.

Mas esse é outro assunto, que foge ao tema central deste trabalho que é identificar esses dois grandes poetas brasileiros, Olavo Bilac e Vinícius de Moraes, na expressão do sentimento do amor em seu momento mais exaltado que é a paixão. Nesse ponto eles foram iguais e muito contribuíram para a elevação da poesia brasileira gerada na relação amorosa entre homem e mulher.



[1] COMTE, Augusto (Montpellier/França 1798 – Paris 1857), filósofo francês, fundador da Sociologia e do Positivismo.

[2] FIGUEIREDO, Jackson de (Aracaju/SE 1891 – Rio de Janeiro/RJ 1928), professor, filósofo e político.

[3] LIMA, Alceu Amoroso (Petrópolis/RJ 1893 – 1983), critico literário, ensaísta polígrafo e pensador católico.

[4] JOBIM, Antônio Carlos (Rio de Janeiro/RJ 1927 – Nova Iorque/USA 1994), pianista, compositor, cantor.

[5] CELESTINO, Vicente (Rio de Janeiro/RJ 1894 – São Paulo/SP 1968), cantor.

[6] POWELL, Baden (Varre-Sai/RJ 1937 – Rio de Janeiro/RJ 2000), violonista, compositor, um dos maiores músicos do seu tempo.

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Elson Farias
*Poeta e ensaísta. Ex-presidente da União Brasileira de Escritores do Amazonas e da Academia Amazonense de Letras. Nascido em Itacoatiara é uma das glórias dessa cidade.

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