Sem ter alcançado a notoriedade que teria anos mais tarde, o concerto especial de VillaLobos no Teatro Amazonas foi realizado na tarde do dia 23 de junho de 1912” 

No meio dos meus alfarrábios, enquanto buscava informações para atender a prezado amigo que solicitou dados de um dos seus antepassados, encontrei registro antigo que andei fazendo sobre a visita de Heitor Villa Lobos a Manaus pelos idos de 1912, apresentando-se no Teatro Amazonas.

Tal achado vem coincidir com orecente recital que tivemos na Academia Amazonense de Letras quando das homenagens prestadas ao doutor Manoel Jesus Pinheiro Coelho, no qual Giovanni Conte e Renan Branco nos brindaram com um belíssimo programa erudito, incluindo o grande compositor brasileiro.

Ouvimos a “Lenda do Caboclo”, a mesma composição que teve bela audição pública,pelosidos de 1932, no Cine Polytheama, executada por Josephina Mattos Pereira, aluna do Instituto Amazonense de Música criado e dirigido pela inolvidável professora Lindalva da Silva Cruz.

A noite na Academia foi deliciosa, inclusive pelas poesias declamadas pelo ator Roger Barbosa, que é daqueles que sabe dizer com ênfase correta.

Heitor Villa Lobos fez sua primeira apresentação no nosso suntuoso teatro acompanhando o pianista Manoel Augusto dos Santos, em par com F. A. Santos Moreira, com programa bastante delicado.

Era o dia 22 de maio de 1912. Os presentes ouviram Bach, Beethoven, Schumann, Chopin, Strauss, Puccini, Liszt, além de músicas do próprio concertista, e uma peça de Villa. Para que o evento pudesse ser realizado, diante da pobreza em que se encontrava o teatro, a Casa Donizetti teve de emprestar o piano de cauda, de marca Apollo. Teria sido uma noite inesquecível, conforme descreveram alguns jornalistas.

Poucos dias depois Augusto dos Santos fez uma apresentação reservada para familiares e amigos do empresário Waldemar Scholz, em seu palacete, atual Centro Cultural Palácio Rio Negro.

Por sua vez, Villa Lobos voltou ao teatro pararecita com o tenor Santos Moreira, inteiramente dedicada aos alunos da Universidade Livre de Manáos, associada a palestra de Nilo de Faria e Souza sobre arte, como parte das atividades da Companhia Alves da Silva, levada a efeito em 3 de junho seguinte.

Sem ter alcançado a notoriedade que teria anos mais tarde, o concerto especial de Villa Lobos no Teatro Amazonas foi realizado na tarde do dia 23 de junho de 1912, com orquestra sob a regência do maestro Luiz Moreira, cujo programa incluiu trechos de “O Guarany”. Teria sido apoteótico.

O público, ocupando praticamente todos os lugares do teatro, desdobrou-se em aplausos entusiásticos. No dia 7 de setembro houve novo concerto desse importante compositor e musicista brasileiro, como era hábito, homenageando o senador Jonathas Pedrosa, o governador político pelo qual atravessava o governo, em razão das brigas e birras graves e armadas entre o governador Bittencourt e Sá Peixoto, seu vice.

Curioso notar o registro que a imprensa fez ao anunciar oconcerto pelo dia da Pátria referindo Villa como “uma prometedora celebração de musicista”. Mesmo assim este foi o ponto alto dos festejos cívicos comemorativos da Independência do Brasil naquele ano. O grande violoncelista nascido no Rio Grande, logo seria notável no país e no exterior, e já em 1929 a Escola de Música de Berlim adquiriu para o seu arquivo, toda a obra dele até então preparada, denotando o sucesso e a qualidade artística, antes mesmo que ele fizesse o famoso concerto de canto orfeônico no estádio do Vasco da Gama, no Rio de Janeiro, reunindo vinte mil vozes e constituísse sua grande obra.

Eis, pois, o registro da passagem de Heitor Vilta Lobos pôr Manaus, que permaneceu na capital amazonense de maio a setembro de 1912, na convivência artística de uma terra que respirava arte, ostentava belo e rico teatro, acostumada às orgias propiciadas pela economia da borracha e vivendo à moda europeia. Mas ouviu a música mais pura composta no Brasil e com jeito brasileiríssimo.

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Roberio Braga
*Amazonense de Manaus. Historiador. Bacharel em Direito, especializado em Direito Agrário, pós-graduado em Administração de Política Cultural e Mestre em Direito Ambiental. Professor da Escola Superior da Magistratura do Amazonas e da Universidade do Estado do Amazonas. Ex-presidente da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Secretário de Estado de Cultura, desde 1997 até esta data.

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