“Percebi a gravidade do momento, encostei a porta para resguardo daquela hora particular, e, lábios trêmulos, rezei em silêncio com o coração apertado.

Setembro de 1986.

A vida caminhava normal para a maioria das pessoas, mundo afora. Os sofrimentos, dores, tristezas, se abatiam mais fortemente sobre os que padeciam em meio às nuvens dadesesperança,como sempre sucede. Um quarto de hospital, em terra alheia, resumia a esperança de uma família inteira. Todos os esforços médicos, desde os mais modernos e cirúrgicos da ortopedia, aos mais clássicos, da hemodinâmica à homeopatia e florais, eram aplicados. Oêxitoda cirurgiae o ânimo demonstrado pelo paciente haviam conferido novo arde graça e alegria a todos nós.

O temporal dos altos rios havia passado, diriam os marinheiros. O tempo parecia entrarem mansidão como acontece após a travessia dos rios revoltos pelas larvas do vento forte que costumam descer no altoverão na imensidão amazônica, tal qual no mar aberto quando atravessado pelas caravelas ou pelos portentosos transatlânticos. Os momentos de mais aguda tensão pareciam ter cedido, desde quando aquele médico senegoua atendero paciente na sua casa de residência, apesar da idade avançada, e impôs fizéssemos grande mobilização de amigos para transportá-lo a outras terras em busca da recuperação de sua saúde física abalada por escorregão da cadeira de embalo.

Pouco depois a calmaria sofreu abalo porque o progresso da recuperação cedeu lugar a agravamento do quadro clínico, de forma inesperada. Afinal, eram quase 98 anos de idade. No entanto, havia esperança de sucesso e confiança na palavra dos cientistas, mas, ao mesmo tempo, compreensão de que há tempo certo de permanência de cada um dos homens sobre a terra, e que a transição para o mundo da eterna luz acaba chegando para todos. Em Manaus, um dos filhos, ouve em comunicação mediúnica a definição do há-de-vir: “irmão Lourenço, o sol nasce e se põe”.

Naquele dia que caminhava para seu aniversário de nascimento, alguns familiares liderados pela matriarca, professora e força motriz da nossa união, se debruçavam em orações em pequeno apartamento hospitalar, outros conversavam com um médico amigo à porta do quarto especial em que se encontrava o paciente. Voz baixa, quase em sussurro, trocávamos votos de confiança e féna sua recuperação. Um dos filhos retornara à cidade de origem para tomar providências necessárias para a manutenção da família na capital paulistana, pois, de posses remediadas, estavam se esgotando os recursos disponíveis. De repente, um movimento inesperado no interior do quarto chama a atenção. Porta entreaberta, percebi que se tratava de reanimação com massagem cardíaca. A agitação dos médicos e enfermeiros não perturbou a paz externada visivelmente pelo paciente, sempre comsemblante sereno adenotar pazinterior. Não alterou meu ânimo, também. Percebi a gravidade do momento, encostei a porta para resguardo daquela horaparticular, e, lábios trêmulos, rezei em silêncio com o coração apertado.

Pouco depois a notícia da despedida. A médica da família, que tantas vidas salvara a ponto de ser considerada a Sant’Ana do hospitaldecrianças carentes, ao saber do fato apressou-se em procurar reanimá-lo, também, depondo sobre ele a sua energia e experiência, e, mais que isso, o seu amor, mas o desencarneestavaconsumado.

Minutos a seguir estávamos reunidos em oração, mãos dadas, vozes embargadas, corações sofridos, rogando ao Supremo Senhor que atudo preside conforme a fé que ele nosincutiu e ensinou, e depositávamos flores e bençãosem gratidão pela beleza da vida que acabara de cumprir, pelos exemplos que deixava, pela união que nos fizera conhecer em corrente inquebrantável, pelos deveres de honra à verdade, ao trabalho e à dignidade que nos ensinara desde a tenra idade.

Uma voz se ergueu mais forte e solene, temperada de amor e emoção, sofrida, mas fortalecida pela fée clamou pela nossa permanente união e observância dos exemplos recebidos, assinalando,mansae decididamente:”a vida segue… e nessa sequência que há de vir, ele estará conosco e no meio de nós para sempre, pelo tanto do amor que nos devotoue porque o espírito é imortal e os laços de família não se rompem nem mesmo em relação aos que partem a caminho da Luz Superior”.

Desde então, ouvindo amãe emestra, naquela hora, também,ovarão da família, aprendi, sangrando de dore de saudade, que a vida segue, mas jamais se apagará a chamaque nosso pai nos legou como amigo, guiae protetor, e, sobretudo, como luzeiro do amor que nos guiae há de guiar os que depois de nós vierem para cumprira mesmamissão paterna, afinal, ser paié ser amor, exemplo e luz como Lourenço da Silva Braga.

Compartilhar
Roberio Braga
*Amazonense de Manaus. Historiador. Bacharel em Direito, especializado em Direito Agrário, pós-graduado em Administração de Política Cultural e Mestre em Direito Ambiental. Professor da Escola Superior da Magistratura do Amazonas e da Universidade do Estado do Amazonas. Ex-presidente da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Ex-Secretário de Estado de Cultura, desde 1997 até 2017 e atual Presidente da Academia Amazonense de Letras.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário
Por favor informe seu nome aqui