O pior da quarentena não é ficar enfurnado em casa. Pelo contrário, até gosto muito. Sinto falta do contato com amigos e de ir ao cinema. É verdade. Também me faz falta as confraternizações e reuniões nas diversas instituições das quais participo. São associações de escritores, saraus literários, encontros no IGHA- Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas.  E claro, as reuniões de família com a presença de filhos, genro, nora e da minha netinha Maria Luísa.

Como disse, não é ruim ficar em casa. Tenho uma rotina e estou em tele trabalho.  Tenho escutado as pessoas dizerem que estão em “home office”. Uso errado do anglicismo. Bem, eu estou em tele trabalho e trabalhando de casa no meu escritório doméstico (home office). Nem todos têm escritório em casa. Uns trabalham da sala, da cozinha ou mesmo do quarto. Em inglês existem as palavras “telework” ou “remote”. Mas pouco usadas. Meus amigos americanos me relatam durante a pandemia: “we are working from home”. Estamos trabalhando de casa.

Outra coisa boa da quarentena é ter mais tempo disponível para leitura. Atividade da qual gosto muito. Mas o que eu sinto falta mesmo é de viajar. Estou lendo um livro do italiano Antônio Tabucchi, chamado “Afirma Pereira’.   Se passa em Portugal. Tabucchi adora viajar. Teria dito ao Jornal de Letras de Lisboa, sobre o ato de viajar:” Mesmo que não aconteça nada verificável, no plano do real, sempre favorece uma sucessão de ideias, uma espécie de fantasia”.

Minhas viagens também são sempre fontes de inspirações, de deleite, de exercícios de imaginação e de fantasias.

Muitos conhecem a frase de Fernando Pessoa – Navegar é preciso, viver não é preciso. A interpretação mais festejada é aquela que entende que navegar é preciso, no sentido de exatidão. Necessitamos de cálculos, de precisão. Já a vida é imprecisa. Não podemos calcular nem predizer o futuro.

O romano Plutarco teria dito: “Navegar é necessário, viver não é”. Pessoa teria se inspirado na frase da obra “Vida de Pompeu”. O general romano incitava os marinheiros temerosos em navegar, dizendo: ”navigare necesse, vivere non est necesse”

A genialidade de Fernando Pessoa está justamente no jogo de palavras. Na minha interpretação pessoal gosto de entender que navegar é necessário, mas viver também é necessário. Viver não é preciso, no sentido de não haver precisão em calcular o futuro e as incertezas que enfrentamos.

Enfim, quero o fim da pandemia, porque viajar é preciso!

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Pedro Lucas Lindoso
*Bacharel em Direito e licenciado em Letras pela Universidade de Brasília. Membro efetivo do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Pertence a Associação dos Escritores do Amazonas e a Academia de Letras Ciências e Artes do Amazonas. Membro fundador da Academia de Ciências e Letras jurídicas do Amazonas.

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