PRESIDENTE JOÃO CAFÉ FILHO

A vinda do presidente João Café Filho ao Amazonas, em março de 1955, foi exclusivamente para visitar Nova Olinda do Norte (1) – à época um distrito pertencente ao Município de Itacoatiara – onde dias antes jorrara petróleo no poço pioneiro NO-1-AM, da Petrobrás (2), um acontecimento de muita euforia em que Nova Olinda ganhou notoriedade nacional. No povoado que logo se formou no entorno da base de operações, onde se destacavam a torre pioneira e o alojamento flutuante à margem do Madeira, técnicos e trabalhadores se sentiam como descobridores de uma riqueza que ia ajudar a mudar o País para melhor. Como afirmaria 50 anos depois o pioneiro Anisomar dos Santos Leal que viu jorrar o “ouro negro” em Nova Olinda, e que trazia no olhar e na memória a lembrança de um tempo de sonho e fartura – “Quem toma banho de petróleo jamais tira do corpo a sensação de conquistador” (cf. “A Crítica”, de 19/04/2005). 

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(1) Localizada no baixo Rio Madeira, a 110 km de Itacoatiara e a 135 km de Manaus, Nova Olinda do Norte leva esse nome devido ao sítio Olinda que pertenceu ao comerciante Fulgêncio Rodrigues Magno. Já a expressão Norte foi-lhe acrescentada pelo governador Plínio Coelho, quando da criação do Município, através da Lei estadual nº 96, de 19/12/1955, com território desmembrado de Maués e Itacoatiara, cuja instalação deu-se em 31.01.1956. Nova Olinda ficou conhecida como a “cidade do petróleo” e em 1956 também seria visitada pelo presidente Juscelino Kubitschek. Primitivamente, a região foi habitada pelos índios Mura, Mundurucu e Torá.

(2) A exploração do petróleo na bacia do Amazonas iniciou com os trabalhos do Serviço Geológico e Mineralógico do Brasil (SGMB) e teve grande impulso com a criação da Petrobrás, em 03/10/1953. As pesquisas foram intensificadas após a descoberta do petróleo de Nova Olinda.

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Os repórteres João Amaral e Cavaleiro de Macedo, enviados especiais dos jornais “Folha do Norte”, de Belém, “A Crítica”, de Manaus, e “O Globo”, do Rio de Janeiro, foram os primeiros jornalistas a chegar ao local. No dia 15 o jornal “A Crítica” anunciava: “Em Nova Olinda jorrou uma coluna de petróleo de 150 pés. O óleo atingiu os galhos mais altos das árvores situadas nas vizinhanças, e ultrapassou a torre de 44 metros… jorrou durante cerca de dois minutos e os trabalhadores aproveitaram para recolher uma mostra de 200 litros de óleo em um tambor de gás. O povo todo comenta a histórica ocorrência”. Então, o jornal amazonense exibiu três fotografias de Albertino Santos, o primeiro fotógrafo a bater “chapas” das experiências de Nova Olinda, ainda em 1953. Cavaleiro de Macedo contou o passo a passo da confirmação do petróleo, com informações do chefe das perfurações, engenheiro Levindo Carneiro: “No dia 06 de março, a sonda recolheu amostras de arenito com petróleo, após perfurar precisamente 8.920 pés, ou seja, 2.719 metros. Os trabalhos, entretanto, prosseguiram com grandes probabilidades de êxito até que, ao atingir a profundidade de 09 mil pés, ou 2.744 metros, o petróleo jorrou”. Tal fato aconteceu exatamente às 23h45m do dia 12/03/1955, mas oficialmente comemora-se o feito histórico no dia 13.

“Foi uma alegria. Fomos todos banhados de petróleo. À noite teve um baile que só terminou quando a luz do dia surgiu. O engenheiro Levindo Carneiro, que tinha uma lanchinha, mandou a gente procurar o povo todo para festejar. O baile foi em cima de uma balsa” (cf. jornal citado).

A sonda do Poço NO-1-AM, que funcionava em Nova Olinda do Norte, foi adquirida pela Petrobrás ao custo de um milhão de dólares, e com ela trabalharam mais de cem homens, todos perfeitamente habilitados.

João Augusto Fernandes Campos Café Filho

Período de Governo: 24/08/1954 a 08/11/1955

Jornalista e advogado. Nasceu em Natal/RN, aos 03/02/1899. Contraiu núpcias com Jandira de Oliveira (1931-1970). Participou da Aliança Liberal na campanha de 1930. Em 1933 fundou o Partido Social Nacionalista (PSN) do Rio Grande do Norte. Tentou a vereança, duas vezes, mas não logrou ser eleito. Em 1934 foi eleito deputado federal e reeleito em 1945. Vice-presidente da República (1951-1954). Presidente da República (24/08/1954 a 10/11/1955). Ministro do Tribunal de Contas Estado da Guanabara (1961/1970). Faleceu no Rio de Janeiro em 20/02/1970.

A descoberta de petróleo em Nova Olinda entusiasmou o governador Plínio Ramos Coelho (1920-2001), o qual imediatamente telegrafou ao presidente João Café Filho convidando-o para vir participar da comemoração oficial do evento, programada para o dia 28 no próprio sítio da calha do Madeira. Na manhã de 27/03/1955, o avião Lodescar FAB VC-66, da Força Aérea Brasileira (FAB), deixou o Rio de Janeiro e na meia-arde, após uma ligeira escala em Anápolis/GO, pousou em Manaus. Trazia, além do presidente da República, seu chefe de gabinete Erivan Santiago França (1925-c.1989) e alguns assessores próximos. Do Aeroporto de Ponta Pelada os expedicionários foram direto para o Palácio Rio Negro. O encontro de Café Filho com o chefe do Executivo amazonense foi registrado pelo fotógrafo Hamilton Salgado.

Em entrevista coletiva declarou o presidente da República:

“Recebi a notícia como nova e esplêndida esperança para todos os brasileiros. Ela veio demonstrar que o Governo Central tinha razão ao insistir na experiência da Petrobrás: o segredo foi descoberto sem a participação do capital estrangeiro, com a nossa gente e os nossos recursos. Minha presença aqui, em hora de tantas preocupações, traz a mensagem de estímulo aos pioneiros e a confiança no futuro dos filhos da Amazônia. O Governo concentrará todos os seus esforços para a exploração racional e tanto quanto possível imediata do petróleo do Amazonas”.

Na manhã do dia 28, o presidente Café Filho e o governador Plínio Coelho, ladeados pelo presidente da Petrobrás, engenheiro Artur Levy (1902-1993), pelo presidente da Assembleia Legislativa do Amazonas, deputado Edson Stanislau Afonso, pelos representantes de Itacoatiara nessa Casa Legislativa, deputados Antônio Vital de Mendonça (1925-1955), do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), Tércio Araújo da Silva, do Partido Social Democrático (PSD), Horácio Girão de Alencar (1921-1994), do Partido Democrata Cristão (PDC), e outras autoridades com funções na capital amazonense, aportaram em Nova Olinda do Norte sob um intenso foguetório e saudados por uma grande multidão.

Da lancha/motor que os conduzia desceram na balsa da Petrobrás ali improvisada em cais acostável, onde foram formalmente recebidos pelos cerimonialistas do governo do Estado, pelo prefeito de Itacoatiara Teodorico de Almeida Nunes, pelo presidente da Câmara Municipal, Adamastor Onety de Figueiredo (1905-1959), pelo juiz de Direito Edson Marques de Araújo (1904-1984), pelo promotor de Justiça Geraldo de Macedo Pinheiro (1920-1996), pelos vereadores Acácio Soares de França Leite (1913-1982), Francisco Ferreira Ataíde (1915-1997), Camilo de Menezes Vasconcellos Dias (1911-1986), pelo engenheiro-chefe da Base de Nova Olinda e outras personalidades.

Em Nova Olinda homenagens diversas foram tributadas ao presidente da República. Foi um dia de congraçamento, recheado de emoção e muitos discursos.  Descontraído, atento aos acontecimentos, Café Filho sentiu-se alegre ao receber o carinho do povo. Impressionou-o fortemente a demonstração feita por um dos engenheiros da Petrobrás confirmando a existência de petróleo em Nova Olinda; pôde ver, ao lado do governador do Amazonas (3), jatos do óleo bruto retirado do poço NO-1-AM espirrando para o alto, com força e poucos claros de separação. Uma cena indescritível, um gesto realmente simbólico e patriótico!

Antes de deixar a região do baixo Rio Madeira, ao entardecer daquele memorável dia, João Café Filho foi presenteado por um operário da Petrobrás com uma garrafa com petróleo, cuja fotografia foi estampada em vários jornais do País. No dia seguinte, deixaria Manaus no rumo da capital da República.

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(3) À época, o governador Plínio Ramos Coelho apareceu nas primeiras páginas de vários jornais brasileiros com o seu terno de linho branco tingido com o petróleo que jorrou do poço NO-1-AM.

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Conforme referenciado, João Café Filho foi deputado federal duas vezes. Além de haver se insurgido contra a Lei de Segurança Nacional, em 1935, denunciou o Plano Cohen como uma tapeação militar para legitimar a ditadura do Estado Novo, em 1937. Ainda no parlamento fazia campanha contra o cancelamento do registro do Partido Comunista Brasileiro (PCB), a extinção do mandato dos parlamentares nele inscritos e defendia o divórcio. Ameaçado de prisão, asilou-se na Argentina retornando ao Brasil em 1938. Um dos fundadores do Partido Republicano Progressista (PRP), nas eleições de 1950 teve o seu nome lançado à vice-presidência pelo governador de São Paulo,Ademar de Barros (1901-1969). Destarte, eleito companheiro de chapa de Getúlio Vargas, por uma coligação partidária liderada pelo Partido Social Progressista (PSP), – com uma diferença de 200 mil votos para o segundo colocado, Odilon Duarte Braga (1894-1958), da União Democrática Nacional (UDN) – João Café Filho passou a presidir o Senado Federal, missão que a Constituição democrática de 1946 atribuíra aos vice-presidentes da República. Com o suicídio de Getúlio Vargas, em 24/08/1954, foi alçado à chefia do governo federal.

O governo de Café Filho foi marcado pelas medidas econômicas liberais comandadas pelo economista Eugênio Gudin Filho (1886-1986). Afastado por motivos de saúde, em 08/11/1955, em seu lugar assumiu o presidente da Câmara dos Deputados, Carlos Luz (1894-1961). Por pressão do ministro da Guerra, general Henrique Teixeira Lott (1894-1984), Carlos Luz foi deposto e impedido de governar, assumindo a Presidência interinamente Nereu Ramos (1888-1958), então vice-presidente do Senado, ocasionando um estado de sítio e impedimento de Café Filho – impedimento que foi aprovado pelo Congresso Nacional, em 22/11/1955, e confirmado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em dezembro.

JUSCELINO KUBITSCHEK

Juscelino Kubitschek de Oliveira, que ficou também conhecido como JK, foi um homem de grande habilidade política, um conciliador. Quando em abril de 1955 pisou o solo de Itacoatiara, era apenas um pretendente à cadeira presidencial, vale dizer: tinha qualidades para ser eleito e/ou possibilidade de o ser.

A respeito dessa curta passagem, escrevi em 1998:

1955/06 de abril. Juscelino Kubitschek, candidato à Presidência da República, chega a Itacoatiara e realiza comício. Procedente do baixo Amazonas e a caminho de Manaus, o candidato pelo PSD chegou às 17:00 horas desse dia, transportado em um hidroavião da Panair do Brasil. Postado de pé em um dos bancos da praça da Matriz, defronte à loja ‘A Pernambucana’, o grande brasileiro dirigiu a palavra a uma pequena multidão que o assistia. Saudado pelo médico do SESP e futuro deputado estadual José Mendes, [a seguir pediu] um copo d’água [que lhe foi servido] pelo [então] jovem balconista [da referida loja] João dos Santos Lopes [hoje com 80 anos]. (págs.267/268 do livro Cronografia/2).

Após finalizar seu improvisado comício, JK adentrou na Igreja Matriz e, diante da imagem da Senhora do Rosário, fez uma breve oração e se despediu. Deixou Itacoatiara quase ao anoitecer dirigindo-se a Manaus onde deu seguimento à campanha vitoriosa que o levaria ao Palácio do Catete. Em entrevista aos jornais da capital disse que, se eleito, multiplicaria todos os esforços no sentido de tornar realidade a exploração do petróleo no Amazonas.

Depois, já presidente, JK retornaria duas vezes ao nosso Estado: em abril de 1956, para conhecer o trabalho da Petrobrás em Nova Olinda do Norte; e em janeiro de 1957, para inaugurar a Refinaria de Manaus. Aqui trataremos apenas da viagem de 1956.

Segundo dados oficiais (1),

Para uma visita de dois dias ao Amazonas, que inclui uma inspeção aos trabalhos da Petrobrás, na região de Nova Olinda, chegou a Manaus, ontem à tarde [18/04/1956], o presidente Juscelino Kubitschek. No aeroporto de Ponta Pelada, onde pousou o avião presidencial às 14:30 horas, achavam-se presentes o governador Plínio Coelho e senhores secretários, o presidente da Assembleia Legislativa, deputado Edson Stanislau Afonso, o desembargador Rocha Carvalho, presidente do Tribunal de Justiça, o prefeito de Manaus senhor Stênio Neves, o brigadeiro Nelson Wanderley, comandante da 1ª Zona Aérea, o coronel Victor Leitão, comandante da Guarnição Federal do Amazonas, outras autoridades federais e estaduais, além de grande número de populares.

O avião presidencial (2) partiu do Rio de Janeiro e, antes de alcançar Manaus, fez escalas em Anápolis e nas bases aéreas de Cachimbo e Jacareacanga, no Estado do Pará. Da comitiva, sem citar o staffpresidencial, faziam parte o presidente da Petrobrás, Janary Nunes (1912-1982), diversos parlamentares federais da chamada ‘bancada nortista’, entre os quais “o deputado Pereira da Silva que foi um caloroso companheiro de propaganda de Juscelino Kubitschek” (3).

À tarde, a Assembleia Legislativa do Amazonas “prestou homenagem ao presidente, dedicando-lhe uma sessão especial”. E, à noite, no banquete que lhe foi oferecido, no Ideal Clube, discursou sobre o “Plano de Valorização Econômica da Amazônia”, afirmando entre outras coisas:

A Amazônia não pode ser apenas um tema literário, um assunto internacional, um paraíso de histórias exóticas, um campo para aventureiro em busca de emoções novas. A Amazônia não é mais um mundo ao nascer, um mundo estirando os braços ao seu despertar. A Amazônia é um problema de governo que deve ser colocado com grandeza e exatidão. É mais do que um problema de governo: é na verdade um problema de consciência da nacionalidade. (…) Aqui estive por diversas vezes, candidato à Presidência da República, e fiz promessas concretas. Volto presidente, no pleno exercício do meu cargo, para dizer-vos que não é em vão que aqui estou (…). Vim para dizer-vos que o candidato e o presidente não são duas pessoas diferentes, mas uma só, solidariamente unida no cumprimento das promessas feitas. (…) Tudo leva a crer que teremos, em breve, notícias positivas para dar ao povo desta região e de todo o País (4).

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(1) Cf. “Jusbrasil – Diários – Diário Oficial da União (DOU) de 19/04/1956, Seção 01, página 11 – PDF”. Documento em formato digital que me foi gentilmente cedido pelo acadêmico, jornalista e escritor Júlio Antônio Lopes, a quem agradeço penhoradamente.

                                    (2) Avião Viscount FAB VC 90, da Força Aérea Brasileira.

(3) Cf. “O Jornal”, de Manaus, de 19/04/1956. Francisco Pereira da Silva (1890-1973): idealizador do projeto que criou a Zona Franca de Manaus. Natural do Rio Grande do Norte e veio para o Amazonas em 1924. Membro da Junta Governativa Revolucionária do Amazonas (1930). Secretário-Geral do Estado (1930-1932). Deputado federal (1946-1950 e 1955-1959).

(4) Cf. Documento “Jusbrasil” e “O Jornal”, citados.

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Juscelino Kubitschek de Oliveira 

Período de Governo: 31/01/1956 a 31/01/1961

Médico, nascido na cidade de Diamantina/MG, em 12/09/1902. Cônjuge: Sarah Lemos (1931-1976). Foi chefe do Gabinete Civil do Estado de Minas Gerais (1933-1934). Filiou-se ao Partido Progressista (PP) de Minas Gerais, elegendo-se deputado federal em 1935, cargo que exerceu até o fechamento do Congresso Nacional, com o golpe de 1937. Nomeado prefeito de Belo Horizonte (1940-1945), participou da criação do PSD em Minas Gerais, elegeu-se deputado federal (1946-1950) e governador de Minas Gerais (1951-1955). Concorreu à Presidência da República pela coligação PSD-PTB, tendo como vice João Goulart (1918-1976), e tomou posse em 31/01/1956, após grave crise política. Com o fim de seu mandato, elegeu-se senador por Goiás (1962-1964). Após o golpe militar de 1964 teve seu mandato cassado e os direitos políticos suspensos por dez anos. Exilado, retornou ao Brasil em 1967. Faleceu no dia 22/08/1976, em um acidente automobilístico no km 165 da Rodovia Presidente Dutra, em São Paulo.

Consoante o magistério de Renato Cancian (1985), o governo de Juscelino Kubitschek entrou para história do País como a gestão presidencial na qual se registrou o mais expressivo crescimento da economia brasileira. Na área econômica, o lema do governo foi “Cinquenta Anos em Cinco”. Para cumprir com esse objetivo, o governo federal elaborou o Plano de Metas, que previa um acelerado crescimento econômico a partir da expansão do setor industrial.

A prioridade dada ao crescimento e desenvolvimento econômico do País recebeu apoio de importantes setores da sociedade, incluindo os militares, os empresários e sindicatos trabalhistas. O acelerado processo de industrialização registrado no período, porém, não deixou de acarretar uma série de problemas de longo prazo. O governo realizava investimentos no setor industrial a partir da emissão monetária e da abertura da economia ao capital estrangeiro.

A emissão monetária ocasionou um agravamento do processo inflacionário, enquanto que a abertura da economia ao capital estrangeiro gerou uma progressiva desnacionalização econômica, devido a que as chamadas multinacionais passaram a controlar setores industriais estratégicos. O controle estrangeiro sobre a economia brasileira era preponderante nas indústrias automobilísticas, de cigarros, farmacêutica e mecânica. Em pouco tempo, as multinacionais começaram a remeter grandes remessas de lucros para seus países de origem.

Portanto, se por um lado o Plano de Metas alcançou os resultados esperados, por outro, foi responsável pela consolidação de um capitalismo extremamente dependente que sofreu muitas críticas e acirrou o debate em torno da política desenvolvimentista.

A gestão de Juscelino Kubitschek também foi marcada pela implementação de um ambicioso programa de obras públicas com destaque para construção da nova capital federal, Brasília. Em razão de seu arrojado projeto arquitetônico, a construção da cidade de Brasília tornou-se o mais importante ícone do processo de modernização e industrialização do Brasil daquele período.

O responsável pelo projeto arquitetônico de Brasília foi Oscar Niemeyer (1907-1912), enquanto que o projeto urbanístico ficou a cargo de Lúcio Costa (1902-1998). Por conta disso, destacam-se essas duas personalidades, mas é preciso ressaltar que administradores ligados ao presidente JK, como Israel Pinheiro (1896-1973) e Bernardo Saião (1901-1959), também foram figuras importantes no projeto. As obras de construção de Brasília duraram mais de três anos. A cidade foi inaugurada pelo presidente em 21/04/1960.

Em comparação com os governos democráticos de antes e após JK, o seu mandato presidencial apresenta o melhor desempenho no que se refere à estabilidade política. A aliança entre o PSD e o PTB garantiu ao Executivo Federal uma base parlamentar de sustentação e apoio político que explica os êxitos da aprovação de programas e projetos governamentais. O PSD – um partido conservador, que representava interesses de setores agrários, da burocracia estatal e da burguesia comercial e industrial – era a força dominante no Congresso, pois possuía o maior número de parlamentares e o maior número de ministros no governo. O PTB, ao contrário, reunia lideranças sindicais representantes dos trabalhadores urbanos mais organizados e setores da burguesia industrial. O êxito da aliança entre os dois partidos deveu-se ao fato de que ambos evitaram radicalizar suas respectivas posições políticas, ou seja, conservadorismo e reformismo radicais foram abandonados.

Na sucessão presidencial de 1960 se apresentaram como candidatos: Jânio da Silva Quadros (1917-1992), apoiado pela UDN; Henrique Teixeira Lott, pelo PTB aliançado com o Partido Socialista Brasileiro (PSB); e Ademar de Barros, pelo PSP. A vitória coube a Jânio Quadros, que obteve seis milhões de votos. Naquela época, as eleições para presidente e vice-presidente ocorriam separadamente. Assim, o candidato da UDN a vice-presidente era Milton Campos (1900-1972), mas quem venceu foi o candidato do PTB, João Goulart, que a partir dali iniciaria seu segundo mandato como vice-presidente.

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Linhas atrás, noticiamos a chegada a Manaus, em 18/04/1956, do presidente Juscelino Kubitschek. Agora prosseguimos…

No dia seguinte, para ir conhecer os poços petrolíferos do médio Rio Madeira, o presidente JK, alguns de seus principais assistentes, o governador Plínio Coelho, o presidente da Petrobrás e outras altas autoridades, deixaram Manaus embarcados em dois Catalinas da FAB (5). Na noite anterior, em um confortável navio da frota dos SNAAP (6), dezenas de outras personalidades – o prefeito de Manaus, o bispo do Amazonas, dom Alberto Gaudêncio Ramos (1915-1991) (7), parlamentares estaduais, militares, comunicadores, empresários, elementos das classes alta e média, além de curiosos interessados em participar das comemorações, ver, saber, informar-se a respeito do petróleo e conhecer o presidente JK, tomaram o rumo de Nova Olinda do Norte.

Na antevéspera, para recepcioná-lo, tanto na capital quanto em Nova Olinda, haviam chegado a Manaus, procedente de Belém: o comandante da 1ª Zona Aérea, brigadeiro Nelson Wanderley, o superintendente da SPVEA (8), Waldir Bouid (1912-c.1993), o diretor-geral dos SNAAP, Darcy Caldeira, e o presidente do BASA (9), José da Silva; de Porto Velho: o governador do território federal de Rondônia, José Ribamar Miranda; e de Boa Vista: o governador do território federal de Rio Branco (atual Roraima), Clóvis Barbosa, e o deputado federal Félix Araújo.

De Itacoatiara seguiram à Nova Olinda: o prefeito Raimundo Perales, os vereadores Adamastor de Figueiredo (presidente da Câmara), Luiz da Paz Serudo Martins (vice-presidente), Arnóbio Frias de Oliveira (1923-1995) e João Valério de Oliveira (1928-1973); o juiz de Direito Edson Marques de Araújo, o promotor de Justiça Geraldo Pinheiro e o tabelião Pedro Rodrigues Bezerra (1920-c.1981); o vigário padre Alcides de Albuquerque Peixoto (1911-1998); o coletor federal Estácio de Albuquerque Alencar (1898-1987); o exator estadual Elias dos Santos Ferreira (1922-2007); os gerentes das agências do Banco do Brasil, Sebastião Higino de Vasconcellos Dias, e do BASA, Almir Andrade de Menezes (1922-c.2009); o servidor municipal Paulo Gomes da Silva (1911-1993); vários comerciantes e alguns servidores públicos.

A comitiva itacoatiarense aproveitou o ensejo para entregar memorial ao presidente pleiteando a solução dos graves problemas municipais, principalmente o da energia elétrica: há cerca de 10 anos as ruas da cidade, à noite, viviam na mais completa escuridão. A falta de energia obstaculizava-lhe o desenvolvimento. Ao receber o documento das mãos de Raimundo Perales, ali mesmo JK o repassou a Waldir Bouid recomendando prioridade ao assunto. Em breve a iluminação pública e domiciliar em Itacoatiara seria um assunto superado: em 1958, graças à liberação de recursos federais, através da SPVEA, foram inauguradas a rede de distribuição elétrica e a nova usina de luz dotada de dois possantes motores a diesel.

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(5) Hidroaviões bimotores, modelos PBY-5A, requisitados da Base Aérea de Belém.

(6) SNAAP: Serviços de Navegação da Amazônia e de Administração do Porto do Pará, sediada em Belém. Autarquia federal criada em 1940 a partir da encampação da empresa inglesa The Amazon Steam Navigation Co.

(7) Dom Alberto Gaudêncio Ramos, aos 33 anos de idade, foi eleito bispo da Diocese do Amazonas (1948-1952) e, aos 36, arcebispo metropolitano de Manaus (1952-1957). A 09/05/1957 foi nomeado arcebispo de Belém, sua terra natal.

(8) SPVEA: Superintendência do Plano de Valorização Econômica da Amazônia, sediada em Belém. Autarquia federal criada em 1953 para planejar e desenvolver a região. Extinta em 1966 e substituída pela atual SUDAM – Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia.

(9) BASA: Banco da Amazônia, à época tinha o nome de Banco de Crédito da Borracha. Estatal sediada em Belém e criada em 1942. Passou a ser BASA em 1966.

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Naquele ensolarado dia 19/04/1956, o presidente JK sobrevoou a região compreendida entre a foz do Madeira e o Rio Abacaxis. Ao descer em Nova Olinda foi festejado com abraços e delirantemente aplaudido. Chegou a chorar lágrimas de emoção quando viu despejar o petróleo: ele próprio dirigiu a demonstração acionando o poço pioneiro. No fim da tarde voltaria a Manaus e dali ao Rio de Janeiro.

Nos dois anos que se seguiram à data histórica de 13/03/1955, outras cinco perfurações foram feitas nas proximidades do poço pioneiro NO-1-AM. O período de euforia e esperança teve, no entanto, curta duração. O petróleo voltou a jorrar no poço NO-2-AM, localizado na Ilha de Maracá, mas a Petrobrás, acatando os argumentos lavrados no chamado “Relatório Link”, alegou que “o hidrocarboneto da região não tinha valor comercial e determinou o fechamento dos poços”.

Tal relatório reporta os resultados do trabalho do geólogo norte-americano Walter Link (1902-1982), que durante seis anos chefiou o projeto de exploração da Petrobrás, cuja falta de resultados levou-o a deixar às pressas o nosso País, em 1960, acusado de sabotagem por jornalistas e políticos nacionalistas. Em 2005, meio século após a entrada em operação do poço pioneiro de Nova Olinda do Norte, um dos trabalhadores que vivenciaram aquele momento, Jeremias Gomes da Costa, daria a seguinte informação: “Nós derramamos sessenta sacos de cimento de 50 quilos da marca Zebu no poço N0-1-AM. Na torre N0-2-AM foram derramados quarenta sacos de cimento puro. Tinha que tapar… Eu sempre achei que tinha dedo dos americanos, porque eles não queriam que desse petróleo aqui. Não queriam porque nós íamos deixar de comprar deles. Em minha opinião há muito petróleo e gás em Nova Olinda” (cf. jornal “A Crítica”, de 19/04/1955).

 

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Entre 1947 e 1964, como em todo o Brasil Itacoatiara respirava liberdade. A Constituição Federal de 1946 sepultara a Era Vargas e a partir dali a cidade foi em busca de descobrir novas lideranças; era um tempo em que a classe média encorajava-se no plano político. A questão crucial era aprimorar a Democracia e proporcionar o maior engajamento da sociedade nos destinos da cidade, do Estado e do País. Predominava o espírito de participação, avultava o desejo de expressar e ouvir opiniões, de discutir os problemas regionais, nacionais e até internacionais. A Câmara Municipal centralizava os debates e alguns vereadores ousavam no discurso. Além da discussão de assuntos meramente locais, os parlamentares municipais postulavam pela construção de uma estrada ligando a cidade à capital; discutiam sobre sindicalismo e necessidades do operariado brasileiro; tratavam da política do petróleo e de suas consequências nesta região; se mostravam inquietos com a propalada ingerência do governo norte-americano na América Latina; e exultavam com a ascensão de Fidel Castro em Cuba. Uma década mais tarde, os vereadores que mais ousaram na abordagem dos três últimos temas – Paulo Pedraça Sampaio e Argos do Amaral Valente (1925-2001) – seriam perseguidos e presos pela ditatura militar de 1964.

Foi uma época rica em proposituras e em realizações, pródiga em conquistar espaços oportunizando que o social se sobrepusesse ao individual. Por toda a cidade fervilhavam ideias progressistas.

Havia anos, a seção local do Partido Comunista havia sido fechada e em razão disso seus membros passaram a se reunir clandestinamente. A campanha d’O Petróleo é Nosso” era defendida localmente pelo vereador Francisco Ferreira Ataíde e o então jovem e estreante político, João Valério de Oliveira. A defesa das políticas sindical e trabalhista estava centralizada nos sindicatos dos Estivadores e dos Trabalhadores na Construção Civil – ambos assessorados por Paulo Pedraça Sampaio, líder político e sindical carismático. No seio da Escola Comercial de Itacoatiara, criada em 1952, começaram a surgir líderes estudantis.

Em julho de 1954, desembarcou em Itacoatiara, procedente de Belém, o oficial da “linha dura” do Exército, general Justino Alves Bastos. Comandante militar da Amazônia, à época, “ao descer no porto da cidade, foi surpreendido por uma grande inscrição do Partido Comunista Brasileiro esculpida na parede externa do prédio de José Monassa, ao lado da pracinha do Relógio, fazendo frente para o Rio Amazonas. Nervoso, o general convocou alguns soldados que serviam ao Tiro de Guerra nº 276 local, para apagar o letreiro. Além de demorada, a tarefa resultou infrutífera: o símbolo do comunismo internacional (foice e martelo) havia sido pintado em piche, substância negra e muito pegajosa… trabalho feito pelos comunistas locais Eloy Honorato da Silva, Manoel Mendes da Silva (1922-1986), César do Carmo Garcia (1908-1993) e Cícero Ferreira da Silva (1919-1993) – liderados por Paulo Sampaio… A pintura do dístico comunista mexeu com os brios do general Justino [e o irritou fortemente]” (cf. Cronografia/2, páginas 265/266).

No período ligeiramente anterior à visita do candidato JK a Itacoatiara, o Município colocava-se como o mais populoso do interior amazonense: 30.102 habitantes, sendo 15.449 homens e 14.653 mulheres. Inobstante a segunda guerra mundial e a enchente grande de 1953 haverem influído negativamente nos setores de abastecimento alimentar, emprego e renda municipais – a receita orçamentária referente ao exercício de 1952 fora orçada em Cr$ 1.047.848,20 (um milhão quarenta e sete mil oitocentos e quarenta e oito cruzeiros e vinte centavos).

No espaço entre a mencionada visita de JK e a sua posse na cadeira presidencial, três fatos significativos da história local chamariam a atenção repercutindo em todo o Estado do Amazonas: 1) cassação, no dia 08/07/1955, do prefeito Teodorico de Almeida Nunes, pela Câmara Municipal; 2) falecimento, em 09/08/1955, do deputado estadual Antônio Vital de Mendonça, vítima de um desastre aéreo, ele e três companheiros de infortúnio, quando sobrevoavam um trecho da periferia de Itacoatiara, donde partiria a estrada ligando esta cidade à Manaus; e 3) iniciado, em dezembro de 1955, o movimento encabeçado pelo prefeito municipal em exercício, Adamastor de Figueiredo, contra decisão do governador Plínio Ramos Coelho mandando criar o novo Município de Nova Olinda do Norte, com terras desmembradas de Itacoatiara. Aquilo que parecia uma ação meramente paroquial tomou vulto e foi barulhentamente levada à discussão no plenário da Assembleia Legislativa, em Manaus, e finalmente a julgamento no Supremo Tribunal Federal, no Rio de Janeiro, que optou por indeferir a causa de Itacoatiara. Em represália, o prefeito Adamastor desligou-se do partido do governador (PTB), ingressou no PSD e rompeu politicamente com o antigo correligionário e amigo, Plínio Coelho.

A gestão do presidente Juscelino Kubitschek (1956/1961) foi importante para o Brasil e também refletiu em Itacoatiara. Entre as ações positivas desse período, aqui operadas, ressaltamos: em 1957: (1) inauguração do Aeroporto do Guajará, oficialmente denominado de “Arico Barros”. A partir daí, com a desativação dos hidroaviões da Panair do Brasil, as viagens aéreas passaram a ser operadas pelos aviões DC-3, os famosos “Douglas” norte-americanos, e, mais tarde, os modernos YS-11, da empresa Serviços Aéreos Cruzeiro do Sul; e (2) ampliação do sistema de saneamento básico/abastecimento d’água – fruto de um convênio de cooperação entre o SESP e a Prefeitura Municipal; em 1958: inauguração da nova usina de luz e da rede de distribuição de energia. As obras do Aeroporto, as de saneamento básico/distribuição de água e as de eletrificação/usina de luz, foram custeadas com verbas federais, através da SPVEA; em 1959: implantação do projeto ETA-54, de plantio de seringueiras no Rio Urubu, a partir do km 20 da rodovia AM-10, a cargo do Instituto Agronômico do Norte (IAN), também um órgão federal, em convênio com o Governo do Estado do Amazonas; e em 1960: construção do prédio da agência do Banco da Amazônia, defronte à Prefeitura Municipal.

Releva informar, ainda, que em fevereiro de 1956 Itacoatiara presenciou uma tentativa de tomada da cidade por oficiais da Aeronáutica rebelados contra a posse do presidente JK. Tão dramático episódio, perpetrado sob a liderança do major-aviador Haroldo Coimbra Veloso (1920-1969) e do capitão José Chaves Lameirão (1926-1975), começou pela tomada da base aérea de Jacareacanga e da cidade de Santarém, ambas no Estado do Pará. Os revoltosos, empolgados, pilotando um avião militar Douglas B-17, aterrissaram no campo de pouso de Itacoatiara, mas, graças à pronta intervenção do Tiro de Guerra nº 276, sob o comando do sargento Orlando Ferreira Cruz, e ao apoio do 27º Batalhão de Caçadores (27ºBC), sediado em Manaus – eles foram detidos e seus intentos subversivos abortados. A narrativa completa desse fato acha-se inserida nas páginas 269 e seguintes de Cronografia/2.

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