*Roberto Pompeu de Toledo

Sete de setembro. Data oportuna para visitar o sítio histórico da independência.

O monumento que ali celebra a data, cheio de escadarias, de bronzes e de rococós, o pomposo prédio do Museu do Ipiranga, alguns metros adiante, o lindo jardim com vegetação domesticada e esculpida à Versalhes, na frente do museu, e atrás dele o parque que, ao contrário, se oferece na exuberância da Mata Atlântica, são atrações conhecidas, ainda que só por fotografia, mesmo para quem não é de São Paulo.

A sugestão do colunista é um passeio menos óbvio: acompanhar a trajetória do riacho do Ipiranga. O leitor está pronto? Prevenimos que cuidados especiais serão necessários.

Preparou sua máscara de oxigênio? (Há trechos em que o cheiro é insuportável.)

Calçou as botas? (Em outros, será preciso vencer a sujeira.)

Está em dia com suas aulas de aeróbica? (Pode ser preciso correr para não ser atropelado.)

Vamos em frente.

No início, o kit de sobrevivência não será necessário — um par de tênis, bermuda e camiseta serão suficientes. É a parte agradável, aliás muito agradável, do passeio. O Ipiranga nasce dentro do Jardim Botânico de São Paulo, e graças a melhoramentos realizados nos últimos anos é possível visitar sua nascente.

Uma trilha percorre as diversas fontes formadoras. É sempre um espanto deparar com a nascente de um rio. Como pode, um ente tão majestoso e respeitável, nascer de tão humildes fiozinhos de água, às vezes uma simples bolha a tentar escapar da terra?

O.k., o Ipiranga não é majestoso. É um riacho. “Não sei nada de deuses / Mas sei que o rio é um deus”, escreveu T.S. Eliot. Na escala do poeta, os riachos seriam deuses menores — um Eros, um Pan. São respeitáveis, de todo modo, e alegres, tanto quanto são sisudos os exemplares maiores.

Já engrossado, o Ipiranga ainda vive momentos de felicidade enquanto corre dentro dos limites do Jardim Botânico. Caminha entre margens recobertas de grama ou de folhagens e insinua-se sob simpáticas pinguelas. Mas é só sair e enveredará por uma via dolorosa na qual será submetido às aflições mais cruéis que podem acometer um rio.

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O riacho do Ipiranga, ao logo da Avenida Ricardo Jafet, em São Paulo, recebe dejetos de esgoto e neste trecho já se necessita de máscara de oxigênio (Foto: Flirck / Inês-SP)

 

Ele deixa o Jardim Botânico e onde vai se enfiar? No canteiro central da Rodovia dos Imigrantes, a supermovimentada estrada que leva ao litoral, por onde seguirá sufocado entre a fúria, os barulhos e as descargas de um exército inimigo de motores. Na verdade, vá lá a correção, ele não se enfiou, foi enfiado naquela mais inóspita das situações.

Nesse trecho, a preparação aeróbica será inútil. Tentativas de atravessar qualquer das pistas, para se aproximar do rio, resultarão em morte certa. À saída do Jardim Botânico o Ipiranga também sofrerá outro tipo de infortúnio: começará a ser bombardeado pelo despejo dos esgotos. A nobreza do passado histórico não o poupará da sorte costumeira dos cursos d’água paulistanos.

Cada vez mais sujo, espremido e abandonado, deixará a Rodovia dos Imigrantes para tomar a Avenida Ricardo Jafet, onde seguirá ocupando o canteiro central. Os maus-tratos continuarão os mesmos. Ao deixar a Ricardo Jafet desaparecerá sob o asfalto, outro destino comum dos rios paulistanos, forçados à vida subterrânea para ceder espaço aos carros.

Reaparece ao chegar ao Monumento da Independência, a cujo pé, correndo entre margens mais ou menos descentes, tem um momento de trégua. Mas chega ali desnutrido, sofrido, exangue, e o trecho é breve, de não mais de 150 ou 200 metros.

O Ipiranga não é um caso único. Sua sorte é a mesma do geral dos rios de São Paulo. Muitos riachos da cidade submergiram para em cima ser riscadas avenidas. Os dois maiores rios, o Tietê e o Pinheiros, tiveram pistas de alta velocidade descuidadamente plantadas nas margens.

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Já desnutrido, sofrido, exangue, chega aos pés do Monumento da Independência (Foto: Flirck / Inês-SP)

O que singulariza o Ipiranga é o nome aprendido pelas crianças brasileiras desde pequenas na escola. No último trecho antes de desaguar no Rio Tamanduateí, ele voltará a ocupar o canteiro central de uma avenida (a Teresa Cristina) e ali sofrerá a ignomínia das ignomínias.

O percurso se fará sob vigas de concreto que correm de uma à outra margem, paralelas e a curta e regular distância umas das outras. As vigas, como as grades de uma prisão, com o rio relegado a um fosso escuro, lá embaixo, nos oferecem a metáfora perfeita para a conclusão da via dolorosa — não bastassem o escárnio e a humilhação ao longo do caminho, eis o Ipiranga, a cujas margens plácidas se ouviu o brado retumbante, por fim encarcerado.

*Articulista da Revista Veja. Edição  nº 2338, de 11/09/2013.

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