Versos de amor
Versos de amor

“E que nem todos os poetas cantam para muitas musas. Há os que se dedicam, eternamente, a uma deusa e por um só motivo: o verdadeiro amor”. 

Faz silêncio sobre o corpo do poeta. Inerte, diante de nós, não transparece dor nem angústia. Parece encantado. É que aos poetas, cujos versos brotam do coração e são guardados nos cofres mais íntimos porque feitos para uma única musa que embelezou a trajetória de toda a sua vida, a libertação do corpo físico representa o reencontro com os desejos perdidos porque a amada partira antes … bem antes, deixando a tristeza da solidão.É que nem todos os poetas cantam para muitas musas. Há os que se dedicam, eternamente, a uma deusa e por um só motivo: o verdadeiro amor. E confiam que assim será por todos os séculos crendo na infinidade das vidas que atravessarão e que nos confins dos tempos ainda estarão amando aquela que lhes roubou beijos e carícias consentidas, e tomou as mãos e disse amém aos mesmos ‘desejos ardentes e aos mesmos sonhos de eterno verão diante das estrelas.

Era o que me dizia – em outras palavras – nas conversas muitas que travávamos, o meu amigo Yomar Desterro e Silva ao declarar que jamais deixou de fazer versos e falar do belo com o pensamento firme na esposa, a sua Maria Isabel, que tanto amava, e que ao mesmo tempo era mestra, mãe e artista, daquelas que de tudo fez pela família e tudo de si deu à sociedade.

Yomar teve a ventura dos bens terrenos e das honrarias humanas, tudo conquistado pelo trabalho, pela competência e pela seriedade sempre festejadas pelos que o conheciam, e as funções árduas, porém bemsucedidas nas diretorias do Banco do Estado do Amazonas, do Banco da Amazônia e da empresa de joias BETA, por exemplo, jamais modificaram o seu comportamento nem o afastaram do caráter rijo da moral inabalável.

Fraternalmente advogava prelecionando, e caminhava por entre amigos antigos e novos como se fosse sempre um de nós, igual, quando a experiência e o saber o distanciavam em muito de nós outros aos quais abraçava com fidalguia e se antecipava para cumprimentar, com boas regras de educação e carinho.

Elegante no tratar, no vestir e na forma de conduzir os processos de seus clientes, certa feita tomei conhecimento de que escrevera um livro sobre a história da família Ferreira, mais precisamente

sobre dona Libânia Ferreira, professora de primeiras letras ao tempo dos anos inaugurais do Amazonas provincial, e, de pronto, decidi que o governo do Estado precisaria publicá-lo como resenha histórica para recuperar a trajetória de Marçal Ferreira, dona Libânia e seus pósteros, a professora e o político de Manaus que, conjugados no mesmo esforço, tanto contribuíram para o desenvolvimento de nossa terra. Foi um acontecimento especial, seja no campo social e literário, seja pelo autor – sempre bem acolhido desde os tempos em que gostava de bailar nos salões do Ideal e do Rio Negro Clube, como em ratão do tema que ele discorreu com conhecimento de causa, após pesquisa minudente.

O privilégio de conhecê-lo, deque me tenha adotado como amigo; das deferências com as quais me distinguia em toda e qualquer oportunidade, de ouvi-lo e de aprender com ele, fazem com que o seu encantamento provoque em mim um vazio de tristeza, mas, ao lembrar da certeza que ele gostava de proclamar de que iria ao reencontro de sua bem-amada e musa, compreendo a razão daquele semblante sereno e em paz com o qual me deparei na hora derradeira de seu sepultamento físico.

Faz silêncio sobre o corpo do poeta. Há cânticos de passagem entre as estrelas.

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Roberio Braga
*Amazonense de Manaus. Historiador. Bacharel em Direito, especializado em Direito Agrário, pós-graduado em Administração de Política Cultural e Mestre em Direito Ambiental. Professor da Escola Superior da Magistratura do Amazonas e da Universidade do Estado do Amazonas. Ex-presidente da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Secretário de Estado de Cultura, desde 1997 até esta data.

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