A ex-presidente Dilma foi muito criticada pela frase: “Ninguém vai ganhar, ninguém vai perder. Vai todo mundo perder”. Como uma pitonisa às avessas, ela previu o caos que estamos passando.

Todos nós estamos perdendo amigos, parentes, conhecidos, colegas de trabalho para a terrível covid. Independentemente de partido político, ideologia, sexo, religião, idade ou etnia. As perdas são muitas. Muita dor. Muito medo. Muito sofrimento.

Uma senhorinha que perdeu o filho para o vírus dizia, aos prantos:

– Foi uma “perca” muito grande.

O português é muito difícil mesmo. Há inda regionalismos, erros, vícios linguísticos, que se incorporam indevidamente ao falar de determinadas regiões. Ela não foi a primeira que ouvi falar “perca”, ao invés do substantivo perda.

O verbo perder tem muitos significados. Quando transitivo direto pode significar deixar de possuir. Ou fracassar. O time perdeu o jogo. Ou ainda esquecer. Perdeu o dinheiro no trem. Por fim, o sentido mais usado ultimamente é quando alguém morre. A senhorinha que perdeu o filho para a covid.

Perder pode ser ainda pronominal. Significando sumir, por exemplo. O sol perdeu-se no horizonte. Ou ficar atrapalhado. Perdeu-se na estrada. Ou ainda, perdeu-se em sonhos impossíveis.

É fato que perder é um verbo irregular. No presente do indicativo, por exemplo, se conjuga; eu perco, tu perdes, ele perde, nós perdemos, vós perdeis, eles perdem. Já no presente do subjuntivo, se conjuga: que eu perca, que tu percas, que ele perca, que nós percamos, que vós percais, que eles percam.

A primeira pessoa do singular do presente do indicativo é eu perco. E do presente do subjuntivo, que eu perca. Penso que isso deve levar as pessoas a confundir o substantivo perda com perca.

Há um instituto jurídico, relativamente novo, que vem sendo utilizado em ações diversas no âmbito do Direito Civil. A perda de uma chance. Muitos alunos foram impedidos de fazer o Enem. Não havia salas o bastante para o distanciamento sanitário entre os participantes. Isso é perda de uma chance. Ao serem inexplicavelmente impedidos de fazer o exame, a consequência foi não entrar na faculdade. Cabe indenização.

Com tantas perdas em face dessa horrível pandemia, só me resta conjugar o verbo perder no imperativo negativo:

– Não percamos a cabeça.

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Pedro Lucas Lindoso
*Bacharel em Direito e licenciado em Letras pela Universidade de Brasília. Membro efetivo do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Pertence a Associação dos Escritores do Amazonas e a Academia de Letras Ciências e Artes do Amazonas. Membro fundador da Academia de Ciências e Letras jurídicas do Amazonas.

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