fernanda torres
*Fernanda Torres

Antes mesmo de eu me adaptar, o mercado pasteuriza a revolução.

Você percebe que envelheceu quando alguém que conheceu bebê aparece de ressaca depois de um viradão no Isoporzinho das Sapatão, baile itinerante que aconteceu na Lapa.

E então se dá conta de que é tarde para reverter as incontáveis, e custosas, sessões de depilação definitiva na virilha, pernas e axilas, que incineraram os bulbos dos antigos pelos, impedindo você de abraçar a nova onda aparadinha.

Sim, você sobreviveu a “Cavalo de Aço”, boca de sino e aos nefandos mullets e ombreiras dos anos 1980; você enfrentou a humilhação da Brazilianwax e teve a iluminação de não adotar o bigodinho de Hitler supraclitorial. Mas já não é questão de escolha, é de hormônio mesmo. O tempo venceu.

Quando as candidatas a Barbie deram de implantar xícaras de silicone no peito e desmatar o púbis para ficarem parecidas com a boneca, João Ubaldo Ribeiro lançou um libelo pela preservação da mata sul-umbilical.

O gênio baiano sentia falta das moças que conheceu nos anos 1970, livres, soltas e naturalmente cacheadas. Não sei o que diria João das aparas de agora, com estilo reco, nesta era tão afeita a regras e a classificações.

Para não cometer deslizes, sempre peço axsmeninxs que, repito, conheci bebê que me ensinem o que é cis não binário ou trans homo.

Elxs declamam a ladainha, mas aprender outro idioma na fase adulta não é fácil. A idade nos torna lentos, e a brontossaura escorrega, esquecendo-se de que gênero nada tem a ver com sexo.

Antes mesmo de me adaptar ao decálogo da petizadx, o mercado já trata de pasteurizar a revolução.

Programas de auditório, comerciais de TV e capas de revista vomitam teses identitárias sobre a fluidez, o poliamor e a assexualidade.

Com uma ponta de vingança – sim, os instintos primitivos pioram com a idade—, você lembra que já viu esse filme.

Foi assim com a velha calça desbotada dos hippies, que hoje é enxaguada em stonewashing e vendida prêt-à-porter. Foi assim com os rasgos, os alfinetes e os pregos com que Vivienne Westwood detonou as skinnies dos Sex Pistols e que agora entopem as prateleiras da Renner e da C&A.

A indústria do rasgo me causa estupefação. Certa feita, dei com uma senhora chique, desfilando pelo aeroporto de Lisboa com os dois joelhos à mostra. Os fiapos dos rombos ornavam as rótulas branquelas como se fossem os raios de dois sóis pálidos. Era de vomitar.

E tem também as que atocham a celulite na cigarrettestretch cortada à navalha, deixando o provolone das carnes transbordar pelas fissuras. Quem merece?

Se nem os punks que cuspiam, socavam e praticavam o piercing radical resistiram à pressão do comércio, que dirá os meninxs? A vida é uma máquina de moer gente.

Mas quem sou eu para ironizar a gurizadx se, do outro lado, impera a brutalidade de machos limítrofes e suas analogias de pera, uva ou maçã? É melhor o Brasil ser uma virgem assediada por gringos tarados ou estuprada por brasileiros toscos?

O cogumelo atômico da explosão proposital de um caminhão tanque do Ibama, em Rondônia; o incêndio criminoso da aldeia pataxó NaôXohã, a 20 quilômetros da já sofrida Brumadinho; e esse governo que não só faz vista grossa para o horror, mas também se empenha para acabar com o fundo de proteção à Amazônia, enquanto enaltece o trabalho infantil.

É esse o espetáculo do crescimento que o mercado tanto ansiava? Ser liberal de direita é isso? Quem votou nesses malucos repetirá a dose em 2022? Pode parar o bonde, que eu quero descer.

Melhor a orgia com a galerx dos mil gêneros. Melhor seguir o Instagram da artista Aleta Valente, herdeira de Kátia Flávia e de “Bonitinha, mas Ordinária”. A miss ex-Febemmade in Bangu, que eu não consegui encarnar em “Jogo de Cena”, de Eduardo Coutinho, porque já me faltava hormônio para ser Aleta, mesmo quando ainda tinha hormônio para ser eu mesma.

Envelhecer é estranhar o mundo, é se irritar e lamentar. Deve ser um artífice da natureza, um jeito de você não desejar estar mais vivo, não aqui, não agora, nesta festa estranha com gente esquisita.

E aí fecham a Rádio MEC, e aí morre o João Gilberto e você escuta aquele lamento manso e elegante, aquela cadência cordial; e você se lembra de Ary Barroso, de Caymmi e Carmen; de Tom, de Vinicius e dos baianos todos, os novos e os velhos.

E vem aquela saudade imensa do tempo em que o Brasil ainda existia.

*Atriz. Escritora. Colunista da Folha de São Paulo. Artigo no Caderno Ilustrada, de 14/07/2019.
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