Drauzio Varella
*Drauzio Varella

O uso de máscara precisa ser promovido e incentivado exaustivamente por campanhas educativas.

A variante delta do coronavírus foi detectada pela primeira vez na Índia, em dezembro de 2020. Ao chegar a Nova Delhi, ela varreu do mapa a variante alfa, então dominante. Em abril, já provocava pelo menos 30 mil casos diários na cidade.

Da capital, ela se espalhou pela Índia inteira e para diversos países, nos cinco continentes. No Reino Unido, é responsável por 90% das infecções, segundo a revista Science, prevalência coincidente com o aumento das hospitalizações que obrigaram o governo a adiar os planos de reabertura completa das cidades.

Causadora de mais de 90% dos casos em Portugal, a variante levou o governo a proibir viagens entre Lisboa e o resto do país no último fim de semana. Nos Estados Unidos, os Centers for Disease Control reconheceram que a prevalência entre os americanos duplicou em duas semanas, chegando a 20%.

Vacinação contra a Covid-19 de pessoas com 46 anos na cidade de São Paulo

Fila de vacinação de pessoas de 46 anos na UBS Belenzinho, na zona leste de São Paulo Danilo Verpa/Folhapress

Fila de vacinação contra a Covid-19 de pessoas de 46 anos no megaposto instalado na galeria Prestes Maia, na República, região central de São Paulo Danilo Verpa/Folhapress

No Brasil, a delta está presente em vários estados. Em abril, uma gestante foi a primeira brasileira a perder a vida.

A entrada da variante nos países que ainda não tiveram acesso às vacinas, bem como naqueles que imunizaram pequena parcela da população, pôs a Organização Mundial da Saúde em alerta.

Os serviços de saúde pública do mundo inteiro querem saber: 1) A delta se dissemina, de fato, mais depressa do que as três mais contagiosas em circulação pelo mundo, surgidas no Reino Unido, na África do Sul e em Manaus? 2) A doença provocada por ela é mais agressiva? 3) Qual o padrão das mutações que facilitam disseminação tão rápida? 4) As vacinas disponíveis têm eficácia contra ela?

Modelos epidemiológicos criados na London School of Hygiene & Tropical Medicine estimam que a capacidade de contágio da delta seja 50% a 100% maior do que a da variante alfa, detectada pela primeira vez no Reino Unido no segundo semestre do ano passado.

Como essa variante alfa, do Reino Unido, é cerca de 50% mais contagiosa do que a originária da China, e a delta é 50% a 100% mais contagiosa do que alfa, estamos diante de uma cepa duas vezes mais contagiosa do que aquela do início da pandemia.

No Reino Unido, os dados iniciais sugerem que a variante delta duplica o risco de hospitalização, possibilidade assustadora em países com populações não vacinadas ou com índices baixos de imunização. A necessidade de hospitalização está diretamente ligada ao aumento da mortalidade.

Programas de reabilitação ajudam pacientes que tiveram Covid-19

Terapeuta explica como são feitas medições durante terapia de recuperação pós-Covid-19, no Hospital de Especialistas João Paulo 2º, em Glucholazy (Polônia) Bartosz Siedlik – 19.mai.2021/AFP

 Paciente faz treino ergométrico durante terapia de recuperação pós-Covid-19, no Hospital de Especialistas João Paulo 2º, em Glucholazy (Polônia) Bartosz Siedlik – 19.mai.2021/AFP

Estudos indicam que a primeira dose das vacinas AstraZeneca e Pfizer oferece menos proteção contra a delta do que contra as demais variantes. Depois da segunda dose, entretanto, os níveis de proteção contra casos graves e hospitalizações é o mesmo.

Um vírus que, em um ano e meio de pandemia, conseguiu produzir variantes cada vez mais contagiosas, precisa ter sua disseminação interrompida. Essa tarefa depende de duas estratégias: vacinação em massa e adesão às medidas de prevenção recomendadas desde o início da pandemia, higiene das mãos, uso de máscaras e distanciamento social.

Num país como o nosso, em que o ritmo das vacinações é lento, temos de reforçar a prevenção. O uso de máscara precisa ser promovido e incentivado exaustivamente por campanhas educativas, como fizemos no passado com a camisinha na prevenção à Aids.

É ignorância liberar do uso de máscara os que já foram vacinados. Embora as vacinas evitem hospitalizações e mortes, nenhuma delas reduz a zero o risco de contrair o vírus. Pessoas vacinadas podem ficar doentes, desenvolver sequelas que chegam a durar meses e transmitir o vírus para os familiares.

Países como Estados Unidos, Israel e Reino Unido, que suspenderam as restrições assim que os índices de vacinação provocaram redução significativa das mortes, sem levar em conta opiniões contrárias de vários de seus cientistas, correm risco de ter de voltar a trás.

Esse coronavírus demonstrou habilidade para criar variantes mais contagiosas, que aumentam o número de mortes como consequência do maior número de pessoas infectadas. Até aqui, por sorte, não surgiu uma cepa resistente às vacinas, claramente mais virulenta e letal.

É muito cedo para relaxar. Como nos ensinou Charles Darwin, a seleção natural é sobretudo imprevisível.

*Médico e escritor. Colunista da Folha de São Paulo, Caderno Ilustrada, de 30/06/2021.
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