“O que se verificou depois é que, durante algum tempo, o vapor “São Salvador” teria ficado estigmatizado por ter sido o portador de doentes que infectaram a população amazonense”

 No tempo em que a comunicação entre as cidades brasileiras se dava, fortemente, por via fluvial e marítima, o vapor “São Salvador” singrava nossas águas desde o Sudeste, passando pelo Nordeste até chegar ao ponto extremo do Norte do país. Nos primeiros anos de 1900 era de propriedade do Lloyd Brasileiro e a partir de 1911 passou a integrar a frota “The Amazon River SteamNavigationCompanyLimited”, formando com vários outros vapores de maior e menor porte, no transporte de cargas e passageiros, inclusive da esmerada primeira classe.

O Amazonas dependia, inteiramente, das linhas marítimas, e por isso havia grande número de vapores no nosso porto flutuante. De propriedade da “Amazon River” foram os vapores “Belo Horizonte”, “Fortaleza”, “Aymore”,”Francisco Salles”, “Ajudante”, “Inca”, “Sapucaia”, “Paes de Carvalho”, “Indio do Brasil”, “Justo Chermont”, “Perseverança”, “Curitiba”, “Cuiabá”, “Belém”, “Tupy” e “Javary” muitos deles chegando aos confins mais distantes pelo rios Juruá, Purus, Madeira, Javari e Solimões. O vapor “São Salvador”invadia o rio Madeira, rotineiramente, e chegava à Santo Antônio sempre compassageiros e carga, e era dos mais disputados. Coube a ele, em muitas ocasiões, transportaros membros da Comissão das Linhas Telegráficas que representava a grande modernidade da ocasião.

A ele se atribui, desde outubro de 1918, a responsabilidade de haver transportado do Sul do País ou até mesmo de Belém do Pará (seu último porto, antes da capital amazonense), transportado para Manaus o vírus da gripe espanhola, mas poucos dias depois aportou o vapor “Valparaíso”, trazendo 17 enfermos. O virus logo se alastrou na região e ceifou 858 vidas amazonenses.

O clima foi de pavor na cidade. Médicos, enfermeiros, os poucos hospitais, farmácias e a Cruz Vermelha Brasileira foram mobilizados para o enfrentamento da doença. O Teatro Amazonas teve as suas funções suspensas, os bares, cafés, “terraces”, repartições, escolas eigrejas fecharam as portas. Nemo dia dos mortos teve as solenidades comuns naqueles anos. A Santa Casa de Misericórdia ficou superlotada sem conseguir receber mais pacientes com a gripe. Para reduzir os impactos imprevisíveis o médico e governador Pedro Bacellar instalou postos de atendimento na Cachoeirinha, Vila Municipal, São Raimundo e Vila Barroso e os hospitais flutuantes “Santa Bárbara”, “Marapata”, “Rio Madeira” para acolher tripulantes e doentes dos vários navios.

Nos primeiros dias de novembro de 1918 a situação era avassaladora. O governo aviava receitas, enterrava mortos em vala comum, atendia a domicílio, publicava orientações de higiene pelos jornais, remetia “ambulâncias” para o interior, dava auxilio monetário aos mais pobres. Oestoque deremédios esgotou e as plantas medicinais passaram a ser aproveitadas em larga escala com orientação do governo. Com cinco semanas a pandemia parecia chegar ao fimeem 31 de dezembro era considerada extinta, mas recrudesceu em março do ano seguinte invadindo o Instituto Benjamin Constant, alcançando alunas e religiosas. Nem a Comissão de Salvação Pública nem o governo davam conta dos problemas decorrentes da gripe.

Algumas vezes os jornais noticiaram o nome dos doentes, informando livremente à população, referindo, por exemplo, Jayme Pereira, Madureira de Pinho, Luiz Cordeiro Moura, Francisco Mattos Guerreiro, Alfredo Valois, Benjamin Baptista, Pedro Bandeira, Doninha Menezes, Alfredo Mendonça, Manoel Reis, Zaza Menezes, Manoel Bivar, Olga e Nena Ramos, coronel José Ferreira, dentre inúmeros outros nomes.

O que se verificou depois é que, durante algum tempo, ovapor “São Salvador” teria ficado estigmatizado por ter sido o portador de doentes que infectaram a população amazonense, e padeceu queda no número de passageiros, apesar de ostentar boas qualidades operacionais, de segurança e conforto.

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Roberio Braga
*Amazonense de Manaus. Historiador. Bacharel em Direito, especializado em Direito Agrário, pós-graduado em Administração de Política Cultural e Mestre em Direito Ambiental. Professor da Escola Superior da Magistratura do Amazonas e da Universidade do Estado do Amazonas. Ex-presidente da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Ex-Secretário de Estado de Cultura, desde 1997 até 2017 e atual Presidente da Academia Amazonense de Letras.

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