Utopia na tradição Itaquatiara

Última área de fronteira agrícola e vitrine do mundo, nossa região detém 54% do território nacional, o que equivale a registrar que o Brasil é que pertence a Amazônia, onde, ainda, a população convive em contrastes abismais, levando-se em conta a marginalização dos povos da floresta e a expropriação a que são submetidas centenas de etnias, remanescentes indígenas, quilombolas e caboclos sobreviventes à inexistência de políticas públicas nas três esferas governamentais, por estar longe dos grandes centros de decisões.

No interior do Amazonas, existem milhares de estudantes, filhos de operários, de trabalhadores da agricultura familiar e pescadores que concluem o Ensino Fundamental ou Médio nos municípios, sem nenhuma perspectiva de emprego formal. Pressionados pela geração de renda, migram para centros metropolitanos sem nenhuma preparação técnica, engrossando o “exército industrial de reserva” com um custo econômico e ecológico altíssimo para a região, favorecendo o risco social de adolescentes do estado.

Itacoatiara em Tupi significa Pedra Pintada. Sempre foi musical desde os Iruri, no Madeira, etnia com características de cacicado complexo descendente dos Tupinambá, segundo a brasilianista, arqueóloga e antropóloga Anna Roosevelt. Conforme o historiador Francisco Gomes da Silva, confeccionavam as flautas Membitarará para, nos rituais de arte tribal e plumária, ao comando do Tuxaua Mamorini, celebrar as colheitas e a existência; exercer a diplomacia selando acordos de paz com seus vizinhos ou prestigiar a chegada em seu território do jesuíta Jódoco Perez, fundador do município, nos idos de 1683.

A Cidade da Canção possui um parque industrial madeireiro, um Polo Moveleiro de destaque, reconhecido no Brasil e no exterior e que pode desenvolver a indústria sem chaminés, despertando como cenário ecológico, artístico e musical importante, concorrendo para compor uma relação de itens, como ensina o professor e ambientalista Raimundo Saraiva de Araújo, para a obtenção de certificação internacional com o título de Green City. Porém, poucas instituições preocupam-se com o destino dos resíduos florestais, produzidos fartamente pelas serrarias e movelarias o que, sem um estudo de reaproveitamento, tal riqueza seria queimada nas caldeiras ou jogada nos rios.

A Escola de Música de Itacoatiara é o marco inicial do ensino formal na Amazônia e no Nordeste, custeada pela Prefeitura Municipal, a partir de 1939 e administrada pelo maestro Raimundo Ubirajara Fona. Ela não era só dirigida aos músicos, tendo em vista que sempre os luthiers que trabalhavam com a construção do violão, consultavam seu dirigente a respeito, tirando as dúvidas sobre a seleção das essências florestais da Amazônia e da nobre arte. E Didico aproveitava também para fazer palestras sobre a archetaria alternativa, além tocar o violino que ele mesmo confeccionava.

Lutheria é a associação da arte e da ciência da manufatura de instrumentos musicais com caixa de ressonância. É uma das mais antigas profissões que utiliza a madeira na fabricação de seus artefatos e uma das que mais agrega valor aos produtos da floresta, afirma Tasso Azevedo, do Imaflora – Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola. Ainda hoje a Lutheria é totalmente dependente da floresta à medida que necessita de madeira, colas e resinas para o desenvolvimento de suas atividades, conclui. A artesania fina faz parte do segmento que incorpora as bases sustentáveis que empodera tanto as mulheres quanto os homens da sociedade do século 21.

A materialização da Oficina de Restauração de Instrumentos Musicais é o primeiro passo e propõe uma nova visão sobre o velho saber, unindo história, arte e ciência à cultura itacoatiarense, oportunizando, futuramente, a formação de massa crítica. A seguir, com a criação de ateliês e cooperativas, com o conhecimento do mercado da Lutheria amazonense e o aperfeiçoamento técnico constante, revitalizam-se os propósitos vocacionais do Vale de Serpa, impulsionando os saberes na produção artística, com a conquista da cidadania cultural e a concretização dos ideais da juventude do berço enigmático da tradição itaquatiara. Com a idade da “pedra”, mesmo na caverna, ainda é capaz de produzir ecos…

As atividades desenvolvidas mesmo que em um espaço extraescolar, além de despertar a responsabilidade social, motivará desdobramentos como: a valorização da ludoterapia, musicoterapia e outras terapias pertinentes. As habilidades individuais, nesta modalidade artística, são capazes de ativar, desenvolvendo as inteligências múltiplas nos dois hemisférios cerebrais, além de sensibilizar adolescentes para uma Educação Ambiental integrada, levando o nome da terra a contribuir para o conceito da sustentabilidade planetária, proposta na Rio-92.

A solidificação deste projeto traz em seu norte, a correta utilização das espécies de madeiras da Amazônia de origem certificada com os princípios e critérios do FSC, na restauração dos instrumentos musicais, despertando nos alunos  uma compreensão  exata sobre o equilíbrio do hábitat no qual vivemos e, ainda, possibilitar aos docentes um ofício e geração de renda, diminuindo os índices de violência que assustam a população, linkando o slogan da Universidade Holística Internacional de Brasília, criada com base na Declaração de Veneza (Unesco,1986), que afirma: paz e meio ambiente começam dentro da gente.

A vontade torna útil o desejo no aperfeiçoamento constante do métier, jogando papel fundamental na média profissionalização, tendo em vista a ocupação empregatícia ou autônoma de itacoatiarenses que, sem uma ocupação para exercer, tornam-se presas fáceis, podendo até receber o apadrinhamento do tráfico ou aumentando os índices de suicídio entre jovens. A comunidade do Vale de Serpa tem que fazer a opção sócio econômica e cultural, encampando uma luta que justifique a realização do projeto diante da necessidade exposta.

Compartilhar
J.R Lopes
É jornalista. Natural de Itacoatiara (AM).

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário
Por favor informe seu nome aqui