Não há dúvida: a geração do conhecimento tem como ponto de partida a informação, que depende dos dados, que por sua vez necessita do capital humano qualificado para gerá-los, interpretá-los e, finalmente, transformá-los em vantagens competitivas. Assim sendo, a aprendizagem contínua torna-se transcendental para desenvolver a ciência e transformar os seus resultados em tecnologia e aplicá-los. É senso comum, segundo análise publicada no Jornal da Ciência, que o desenvolvimento da humanidade requer mais conhecimentos científicos e tecnológicos, os quais exigem uma base sólida para a educação e os meios necessários para desenvolver pesquisas e fazer a gestão de seus resultados.

A queda na qualidade do ensino no Brasil, apontam especialistas, começa pelo anacronismo da grade curricular, regra geral desvinculada da realidade social e econômica do país. Comparando-se os programas do ensino fundamental e superior, observa-se que o ensino médio é hoje o principal gargalo do sistema educacional. Há consenso entre os estudiosos da questão sobre sua baixa qualidade, e também de que esse nível de ensino enfrenta séria crise de identidade há décadas. Nem prepara o estudante para os exames vestibulares nem para o mercado de trabalho.

No Amazonas o ensino básico é distanciado em grande medida dos meios e fins do PIM e das assimetrias da economia regional. O serviço pesado é realizado pelos cursos profissionalizantes, porém insuficientes, tradicionalmente mantidos por Senai,  além de Fucapi, Fundação Nokia e Fundação Paulo Feitoza, ligados aoComitê das Atividades de Pesquisa e Desenvolvimento na Amazônia (Capda). Outro importante centro formador de mão de obra especializada, o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Amazonas (Ifam), é estruturado mediante integração do Centro Federal de Educação Tecnológica do Amazonas e das Escolas Agrotécnicas Federais de Manaus e São Gabriel da Cachoeira. Atualmente compõe-se de dez campi: Manaus Centro, Manaus Distrito Industrial, Manaus Zona Leste, Coari, São Gabriel da Cachoeira, Presidente Figueiredo, Maués, Parintins, Lábrea e Tabatinga.

O maior problema reside na estrutura do ensino em si. Guardando heranças oriundas do Império, é fortemente inclinado ao fornecimento de diplomas de nível superior, priorizando, pois, a formação  bacharelesca ou de doutores no jargão da tradição familiar brasileira. Paralelamente, deixa-se de lado a valorização do ensino médio profissionalizante, a base primaria formadora de técnicos qualificados nos Estados Unidos, Inglaterra, Alemanha, Japão e em todos os países avançados. Desta feita, no Brasil, regra geral, produz-se insuficientemente, ou muitas vezes nem uma coisa nem outra. Nem doutores, efetivamente, que saem das faculdades, passam por mestrados e doutorados, nem técnicos operacionais, aqueles que metem a mão na massa e fazem. Na construção civil, nas linhas de montagem, nas operações de máquinas e equipamentos de precisão, nas áreas de projetos de engenharia e de tecnologia da informação (TI), no desenvolvimento de softwares, nos controles e testes eletrônicos, e assim por diante.

Em sua edição de 12 de abril passado a revista Veja publica excepcional reportagem sobre o assunto. O  título: “Técnicos com muito orgulho”, em que informa: nos últimos anos, a criação indiscriminada de cursos, incentivada com entusiasmo pelo governo federal, resultou em uma miríade de escolas de baixíssima qualidade, formadoras de uma geração que rasteja no mais básico. Estudo da Universidade de Stanford sobre a expansão do ensino superior nos Brics (Brasil, Rússia, Índia e China) mostra que o nível de conhecimento de um aluno que se formou em uma instituição ruim é igual, pasme-se, ao de um calouro numa boa faculdade. Na hora de arrumar emprego, a régua baixa cobra seu preço, conclui. UFAM e UEA têm imensa responsabilidade na reversão desse quadro.

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Osíris Silva
O economista Osíris M. Araújo da Silva é consultor de empresas, ex-secretário Municipal de Economia e Finanças da PMM, ex-secretário da Indústria, Comércio e Turismo e ex-secretário da Fazenda do Amazonas. É presidente da AMAZONCITRUS – Associação Amazonense de Citricultores, membro do Grupo de Estudos Estratégicos Amazônicos (GEEA), do INPA, e articulista econômico de A Crítica.

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