Fiz questão de estar presente na inauguração do primeiro centro comercial especialmente criado para abrigar os antigos camelôs.

Fiz questão como renitente morador do centro de minha querida Manaus. Ali começava uma ação de governo que resumia os anseios de muitos manauaras, que desde a restauração da democracia clamavam pela aplicação em nossa urbe os princípios da administração republicana. Anos e anos de politicagem populista, de perversão da questão social, de usurpação do espaço público, haviam transformado a outrora orgulhosa capital mundial da borracha numa imunda favela, projeção das mentes abjetas de sucessivas administrações municipais. Não vou aqui relembrar este processo vergonhoso, nem apontar um culpado. Na verdade o fardo desse absurdo histórico deve ser dividido entre todos nós. Mas é importante dizer que foi preciso um político com lastro de família na cidade para Manaus retomar sua autoestima. O Prefeito Artur Neto desde o primeiro momento não se deixou ficar nas quatro paredes de seu gabinete. Foi para as ruas, convocou uma equipe, sob o comando do Rafael Assayag, e mesmo com ameaças e tentativas de sabotagem, soube dar início a este momento especial da vida de Manaus. A “Galeria Espírito Santo” segue todos os preceitos contemporâneos de restauração de espaços urbanos.

Um prédio de inspiração inglesa, que fazia parte de nossa paisagem sentimental, prestes a desaparecer no tumulto da Image especulação imobiliária, foi resgatado e dado a ele uma função econômica e social. Ali, talentosos arquitetos oferecem um espaço agradável, de dimensões humanas, onde os novos empreendedores podem progredir com dignidade. Mas para além do acerto no quesito da recuperação de um bem arquitetônico cultural, há a inovação de não excluir os excluídos. Nenhuma cidade brasileira que recuperou da economia informal suas calçadas usou o processo como forma de inclusão social, como o que está se vendo em Manaus. No entanto, não se trata de uma tarefa fácil.

Anos e anos de permissividade e mau exemplo das autoridades, criaram uma cultura de desleixo, que se mescla com o fato da maioria dessa população fragilizada vir do campo e ter pouco ou nenhum traquejo em viver numa cidade. Por isso, ao lado das intervenções na estrutura urbana, na recuperação dos logradouros, é necessário um trabalho de educação. No caso dos camelôs, há a obrigatoriedade do curso de empreendedorismo, que é fundamental, mas deveria ter pelo menos algumas horas dedicadas a noções de civilidade e respeito ao patrimônio público. No final de 2014, quando estiverem inaugurados os outros dois centros comerciais, a conservação das praças, prédios e paisagens reconquistadas não poderá se basear apenas na repressão, no uso de segurança, no estrito comando de manter a ordem. Ganhou-se uma batalha, mas a guerra não está ganha.

Nesse segundo tempo do jogo de recriação de uma cidade bela e civilizada, há que mudar mentalidades. As calçadas estarão livres das barraquinhas de ferro e plástico, mas poderão ser conquistadas pelos carrinhos de mão carregados de legumes, frutas, até mesmo peixe e outros comestíveis, cuja mobilidade sobre rodas é difícil de reprimir. Há também os guerrilheiros da livre iniciativa com seus carrinhos de supermercado enferrujados e seus isopores imensos que já saem de fábrica imundos e “protegidos” por fita gomada.

Os comerciantes também precisam cooperar. Há lojas e tão ruins, de mercadorias tão medíocres, que até mesmo os manequins têm receio de entrar. Outros acreditam que quanto menor o poder aquisitivo mais surdo é o freguês, e tome música brega no último volume. E há aqueles que pensam que o cliente é sonâmbulo e precisa bater palmas para que acordem.

Esses são quesitos de educação a serem conquistados. Pelo bem da outrora Cidade Sorriso.

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Márcio Souza
Dramaturgo e historiador nascido em Manaus. Ex-presidente da FUNARTE. Professor Adjunto da Universidade da Califórnia, em Berkeley (USA). Membro da Academia Amazonense de Letras. Presidente do Conselho de Cultura da Prefeitura de Manaus.

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