O verão amazônico é flamejante no mês de setembro, semelhante ao Sol nas bancas de revista, como canta Caetano Veloso em “Alegria, Alegria”, música defendida no Festival Record, em 1967, quando foi vaiado ao romper com a tradição bossa novista, mas inaugurando uma nova, conhecida por Tropicalismo. Sol era um tabloide, ou seja, um meio jornal que antecedeu Pasquim, Opinião e Movimento, no Rio de Janeiro, do qual faziam parte do front Ziraldo, Zuenir Ventura, Chico Buarque, Arnaldo Jabor, Carlos Heitor Cony e os correspondentes Nelson Rodrigues, Henfil, etc., que ecoavam na linguagem a alternativa da contracultura. Afinal, era o sonho de liberdade dos brasileiros…

Na década de 70, a dupla Dom & Ravel fez um sucesso imenso. No Brasil, as emissoras tocavam em homenagem a Seleção Brasileira, tricampeã em Guadalajara, México, uma de suas músicas que, aliás, é uma marcha. Ela exalta as riquezas, o vigor da juventude, o povo de nosso país. Infelizmente, os militares dela se apropriaram para fazer propaganda política de seus projetos e perseguiram os dois irmãos, inviabilizando a carreira dos artistas, por que pensavam que era uma afronta ao “ame-o ou deixe-o”, símbolo do preconceito imposto pela ditadura. A primeira música que o Papa João Paulo II ouviu quando chegou ao país foi Canção da Fraternidade, de conteúdo crítico social, de ambos.

O contexto é o mês no qual a população veste o coração com as cores da nossa bandeira, exteriorizando o verde amarelo para celebrar o dia-mor. Bicicletas, motocicletas e automóveis enfeitados, todos convidados a festejar o Dia da Independência. Os hinos das três armas ecoam longe estimulando a população a participar dos festejos da Semana do Amazonas e da Pátria. Vestidos em traje de gala, os estudantes perfilados marcham gratos ao berço em que nasceram seus pais com distinção, garbo e cadência. No porto uma corveta e vários NaPaFlus – Navios Patrulhas Fluviais, ali ancorados, mas que estavam desenvolvendo manobras de defesa na região.

A praça principal é a nossa Avenue Des Champs-Élisées, uma alameda que todo turista conhece pelo nome de Túnel Verde. Em um dos cruzamentos principais está montada a estrutura que dá assento às autoridades, composta por integrantes dos três poderes mais a direção do 4º Comando Naval da Amazônia, sediado em Belém, ladeada por inúmeros marujos e demais convidados. A parada escolar por si só já é um parada na Cidade Ecológica, imagine com tais convidados. Um acontecimento!

Todas as escolas desfilam! Logo um ar solene se instala naquele perímetro tomado por populares, turistas e mães que, a todo custo, desejam registrar, através do fotógrafo profissional Antônio Retratista , o momento do filho. Ao microfone o locutor oficial informa que quem encerrará o desfile será a Fanfarra Municipal Pequeno Príncipe. E, lá vem ela, da direção da Praça da Matriz… Em ritmo cadenciado as crianças e adolescentes apressam o passo com galhardia, beleza e amor próprio, divididas em nove alas, sempre variando os toques ensinados pelo instrutor… Só a baliza já é um espetáculo a parte, ela é bailarina deste chão.

Na passagem pela avenida todos admiram aqueles petizes que, ao que tudo indica, vão à busca de algum ideal, tão compenetrados e seguros estão. A leveza era tanta que pareciam estar flutuando; mas no chão os pés acompanham o som no repique das caixinhas, uníssonos, ritmados. Todavia, quando eles passaram em frente ao palanque das autoridades o Comandante – deixou a emoção escorrer de seus olhos -, e o contingente de marinheiros armados, prestam continência. E a população, orgulhosa vai ao delírio, aplaudindo a postura de humildade dos marinheiros, reconhecendo o espetáculo em fervor da pátria que mexe com todos nós.

Quem criou essa corporação foi o prefeito Chibly Calil Abrahim (1914-1987) que, no futuro próximo, seria transformada na Banda de Música oficial da Cidade da Canção, com o objetivo de participar de concurso nacional e internacional de bandas e fanfarras. Ela possuía estatutos publicados no Diário Oficial do Estado, vinculada a Prefeitura Municipal de Itacoatiara que, em parceria com a Suframa, obteve todos os instrumentos necessários à formação do grupo. Os ensaios ocorriam no Alvoradinha Hotel, onde os instrumentos eram guardados. Convidada para todos os eventos, tinha o design de quatro modelos para apresentação que fora desenhado pelo estilista Antônio Carlos Fonseca, a pedido da administradora e madrinha da banda, dona Lisette Bouez Abrahim. Recebeu até convites para desfilar em Manaus e Belém.

Na década de 70, esse projeto já convergia para a inserção de crianças e adolescentes em oportunizar o ensino de música aos estudantes, especialmente, aos mais simples, oferecendo um aperfeiçoamento e formação. Apesar de não ter se constituído em uma escola formal, havia a preocupação com a iniciação musical e social do grupo, em vista de ter se tornado uma experiência de sucesso, visto que era desejo dos pais que seus filhos pertencessem a agremiação sociocultural, referência para os demais municípios. Nos eventos, após as solenidades, era servido um lanche variado.

Os desfiles da Fanfarra Municipal Pequeno Príncipe arrastavam multidões; em determinadas ocasiões foi necessário o acompanhamento de policiais e batedores da PM tanto na segurança da corporação quanto na orientação do trânsito. As comunidades chegavam a solicitar que no roteiro fossem incluídas as vias próximas dos residentes. Todos desejavam ouvir as variações dos 32 toques que dominavam a percussão de bumbo, caixa, tarol, surdo, prato, pandeiros, etc., misturados aos metais compostos por cornetas simples e cornetões. As tubas, bombardinos, trompas e chaves de afinação foram adquiridas diretamente da fábrica da Weril Instrumentos Musicais Ltda., localizada no Parque Industrial de Franco da Rocha (SP).

A descontinuidade da política administrativa só foi percebida quando ‘nova administração’ assumiu. Ao assistir um jogo de futebol local, inúmeras crianças despertaram para o som afinado vindo da arquibancada, observando que os instrumentos nos quais tocavam, até há pouco tempo, faziam parte de uma torcida organizada, no Estádio Floro de Mendonça. E, com justa razão foram ao instrutor e, este, ao maestro, reclamar sobre o paradeiro do instrumental que tantas alegrias deu a população. Essa decepção significava o fim de uma era, para todos eles.

Em solenidade de inauguração da sede da Academia Itacoatiarense de Letras, no dia 15 de novembro de 2014 – na administração Francisco Calheiros -, apresentou-se a Fanfarra da Escola Carlos Mestrinho, composta por adolescentes, estudantes daquele educandário. Segundo o instrutor, professor Roberto Serrão, Licenciado em Artes pela Universidade Federal de Juiz de Fora, ela não recebe nenhuma subvenção quer do governo municipal ou estadual para o pagamento dos custos da organização não governamental.

O compositor da MPB e músico Ivan Lins, em “somos todos iguais nesta noite”, pede a banda pra tocar mais um dobrado…

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J.R Lopes
É jornalista. Natural de Itacoatiara (AM).

1 COMENTÁRIO

  1. Que bacana esse artigo JR Lopes. Eu não sabia que tínhamos essa banda de música.
    Ele me fez voltar ao tempo em que a praça era do povo como o céu é do avião, onde todos os movimentos sociais aconteciam na Quadra Herculano de Castro e Costa, coisa que não acontece mais. Ainda no artigo, é bom ler esse título de “Túnel Verde” que embeleza nossas caminhadas vespertinas.
    Valeu, Poeta!

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