*Marcelo Viana

Histórico do jornal de prestigiar a ciência e fomentar a livre discussão de ideias foi motivador do meu interesse em assumir esse espaço.

Há anos venho defendendo que está na hora de termos um protagonista de novela, de qualquer gênero, que seja um matemático. Não (apenas!) para a eterna glória da minha profissão e sim, sobretudo, como um lembrete bem humorado da necessidade de aproximarmos a ciência do dia a dia de todos.

Henri Poincaré escreveu que “o pensamento não é mais do que um relâmpago no meio de uma longa noite, mas é esse relâmpago que é tudo”. E precisa ser compartilhado para que ilumine a todos.

As falhas do ensino da matemática expostas pela pandemia do coronavírus

Youcubed propõe exercícios e atividades de raciocínio que possam ser usadas na pandemia Reprodução

“Muitos jovens não estão engajados no ensino online, mas eu diria que eles não estavam engajados no ensino mesmo antes disso. A pandemia só jogou uma luz sobre isso – sobre a utilidade do que pedimos que eles aprendam” BBC News Brasil/Getty Images

Nunca é demais enfatizar a importância de que a sociedade compreenda a importância da ciência e o seu papel no nosso desenvolvimento material e espiritual, individual e coletivo. Essa tarefa cabe, antes de mais, aos cientistas: quem se não nós pode apresentar as maravilhas do conhecimento científico e o quanto ele já fez pela humanidade?

A receptividade do público brasileiro, sempre ávido e carente de conhecimento e cultura, não está em dúvida. Até eu, que escrevo sobre tema sabidamente ingrato de comunicar, sou frequentemente agraciado com dúzias e dúzias de mensagens dos leitores, com respostas aos desafios que coloco, pedidos de novos temas a serem abordados, questionamentos sobre assuntos relacionados.

Talvez menos conhecida no meio acadêmico e científico, mas não menos importante, é a receptividade dos nossos grandes meios de comunicação, escrita, falada e visual, a conteúdos de natureza científica voltados para o público geral. Ainda temos um caminho a percorrer para alcançarmos a presença da ciência na comunicação de massa de que disfrutam países mais avançados, mas a disponibildade dos veículos está aí.

Ciência paulistana mostra a sua força no combate ao coronavírus

O professor Marcelo Knörich Zuffo, coordenador do Centro Interdisciplinar em Tecnologias Interativas da USP, com os respiradores de baixo custo produzidos por sua equipe com outras áreas da universidade, para ajudar no combate ao novo coronavírus Karime Xavier/Folhapress

O físico Fabio Jorge, do Instituto de Física da USP, testa várias máscaras com aparelho que mede o grau de filtragem de partículas nos materiais Rubens Cavallari/Folhapress

Sou grato à Folha de S.Paulo pelo espaço que me abriu para me comunicar semanalmente com todo o Brasil, com total liberdade para escrever sobre os temas que me interessam e que, acredito, podem interessar também aos leitores. O histórico da Folha de prestigiar a ciência e fomentar a livre discussão de ideias foi um grande motivador do meu interesse em assumir esse espaço, há quase 4 anos. A tarefa de escrever um artigo por semana nem sempre se coaduna bem com uma agenda pesada, mas ela já se tornou parte integrante daquilo que faço como matemático.

Na próxima sexta-feira (19), a Folha de S.Paulo completa um século de existência. É uma honra fazer parte do grupo de colunistas que o jornal reuniu ao longo dos anos para, nestas páginas, levarem até os leitores um pouco do relâmpago de Poincaré.

*Jornalista. Articulista da Folha de São Paulo. Texto no Caderno Ilustrada, de 17/02/2021.
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