“Resolvi, ouvido o diretor de Edições, fazer valer o desejo antigo do nobre acadêmico e professor Rodolpho Guimarães Valle.

Faz alguns anos que recebi como se fosse relicário juvenil daqueles que se guarda para a eternidade dos tempos, das mãos do próprio autor, duas pastas arquivo com dezenas de folhas datilografadas e com várias anotações do próprio punho que, segundo seu desejo e organização, se constituíam em um só livro a ser publicado por ordem de certa e determinada pessoa que prometera fazê-lo e a quem eu deveria entregar os originais com as recomendações de praxe.

Assim o fez porque estava adoecido gravemente, prestes a viajar para o Rio de Janeiro em busca de amenizar as dores do corpo físico ou talvez confirmar o diagnóstico da doença que provocou seu rápido definhamento. O autor do livro conferiu ao mais jovem dos seus amigos aquele que foi o último produto de sua indiscutível inteligência e de sua paciência em aprofundar pesquisas, anos a fio, com o fim de elaborar biografias de personalidades importantes do Amazonas.

Cauteloso e inspirado pelo espírito natural de guardador de coisas importantes, tomei a providência de mandar extrair cópia xerográfica do inteiro teor do documento que acabara de receber e que ainda carecia não só de melhor organização como da elaboração do prefácio que, segundo a indicação do velho mestre, deveria ser feita pelo padre Raimundo Nonato Pinheiro, muito embora o tema do estudo parecesse conflitante com a formação católica do escolhido.

Depois disso, emocionado, passei adiante o material “a quem de direito”, entregando as duas pastas massacradas pelo tempo àquele que prometera editar a obra, e guardei comigo, como verdadeira relíquia, as copias que fizera. Esperei por anos e nada aconteceu. A certa pessoa perdeu prestígio, deixou os encargos que desempenhava e não cumpriu o prometido, sem que eu saiba as razões nem tenha procurado saber.

O fato é que a cópia dos originais ficou em meu poder, o que parece ter sido providência correta posto que, com isso, resta preservado um dos trabalhos de quem foi ilustre membro da Academia Amazonense de Letras, professor de História do Brasil, político, orador e membro da Maçonaria Amazonense, em cuja instituição alcançou todos os postos de realce.

Destacado titular do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas, foi seu orador oficial e presidente, e sua palavra era por demais acatada em todas as reuniões do sodalício. Homem bom, justo, sereno, firme nos seus propósitos, com ele convivi com certa intimidade sem frequentar a mesa em que degustava a sua cerveja ou brincava o seu dominó – o que fazia com certa reserva-, mas aproveitei da sua boa conversa marcada por um tom de voz inconfundível.

Neste ano, estando a Academia Amazonense de Letras em plena atividade com a publicação de obras de seus titulares, resolvi, ouvido o diretor de Edições, fazer valer o desejo antigo do nobre acadêmico e professor Rodolpho Guimarães.

Valle e mandar publicar de forma impressa e em modo digital o seu “Vultos da Maçonaria Amazonense”, assim por ele titulado e com oferecimento a todos os maçons do universo, e o faço após haver consultado a família por meio de sua ilustre filha e professora Isabel Valle que o sucedeu na cátedra universitária, e com brilho próprio.

O que se tem, pois, é um livro renascido e que em breve estará disponível para estudos e pesquisas.

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Roberio Braga
*Amazonense de Manaus. Historiador. Bacharel em Direito, especializado em Direito Agrário, pós-graduado em Administração de Política Cultural e Mestre em Direito Ambiental. Professor da Escola Superior da Magistratura do Amazonas e da Universidade do Estado do Amazonas. Ex-presidente da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Ex-Secretário de Estado de Cultura, desde 1997 até 2017 e atual Presidente da Academia Amazonense de Letras.

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