*Claudia Costin

Precisamos deixar um futuro bem melhor para nossos netos e bisnetos.

Na 26ª Conferência das Nações Unidas sobre a Mudança Climática, a COP26, há cerca de um mês, David Attenborough, um naturalista britânico e ativista pela biodiversidade de 95 anos, fez a palestra de abertura.

Em sua fala, retomou um apelo à ação que fez em seu último livro, publicado em 2020, “Life on Our Planet, My Witness Statement”, em que alerta para os tristes efeitos que a mudança climática e a perda de biodiversidade terão sobre nosso futuro próximo e a vida das gerações seguintes.

No início de cada um dos capítulos, que acompanham marcos de sua profícua vida, para dar um sentido de urgência, registra a data, a população mundial, as moléculas de dióxido de carbono na atmosfera e as perdas de biodiversidade.

O ambientalista, já avançado em anos, “quebrou” o Instagram ao postar pela primeira vez na rede social, foi festejado como celebridade pelos jovens num festival de rock e mais de 20 espécies foram batizadas com o seu nome, até um dinossauro -o Attenborosaurus conybeari.

Ao ler o seu livro, que denuncia, entre outros danos ao ambiente, a aceleração do desmatamento no Brasil, pensei muito na importância da construção de uma ética intergeracional, em que possamos ser corretos não só com nossos contemporâneos como com aqueles que povoarão o planeta depois de nós. Sim, precisamos usar os recursos que recebemos da natureza para termos uma vida de qualidade, mas sem esquecer dos que vivem em condições desafiadoras e dos que ainda são muito jovens ou nem sequer nasceram. Afinal, os danos ambientais acumulados poderão resultar num planeta inabitável para as gerações futuras.

Desmate, queimadas e trabalho escravo afetam cadeia da carne

Gado na fazenda São José, em São Félix do Xingu, no Pará, fornecedora direta da JBS e ex-fornecedora da Marfrig. Focos de fogo foram detecta Christian Braga/Christian Braga/Greenpeace

Animais na fazenda Bacuri Christian Braga/Christian Braga/Greenpeace

Mas pensar na construção de sustentabilidade não envolve apenas mudar hábitos de consumo e renunciar a prazeres. Inclui uma solução econômica para o provável agravamento das condições de vida das populações afetadas pela interrupção de atividades potencialmente nocivas aos ecossistemas naturais, de que dependiam para viver.

Além disso, há que se tirar proveito dos recursos que os países já têm para fazer avançar um crescimento verde. Nesse sentido, o novo livro de Jorge Caldeira, com Julia Sekula e Luana Schabib, “Paraíso Restaurável”, mostra o quanto o Brasil está bem posicionado para a necessária transição para uma matriz energética mais limpa, dada nossa maior disponibilidade, a despeito da recente crise hídrica, de água, vento e sol.

Parque eólico no Rio Grande do Norte

Parque eólico da Neoenergia, localizado em Rio do Fogo, no litoral do Rio Grande do Norte, estado com maior produção de energia eólica no Br Alex Régis/Folhapress

Se tivermos, além disso, pulso firme no enfrentamento do desmatamento e no controle de boiadas metafóricas ou literais, teremos deixado um legado ético e um futuro bem melhor para nossos netos e bisnetos. Que assim seja!

*Professora. Artigo na Folha de São Paulo, Caderno Opinião, de 02/12/2021.
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