Carcará pega, mata e come
Carcará num vai morrer de fome
Carcará, mais coragem do que home.
João do Vale, compositor.

Observando a natureza  pelo binóculo da ciência, descobre-se que o Falco rufigularis vem a ser primo das águias, aves brasileiras de rapina que desfilam nos céus da Amazônia,  com elegância,  garbo e diversidade, a beleza de um voo rasante e espetacular.  Mas ele pertence a ordem dos Falconiformes, cuja família é a Falconidae, tendo como hábitat natural as verdejantes florestas e as bordas de fragmentos ambientais. Quando arma-se para a guerra e dá aquelas guinadas longitudinais lá de cima, desloca-se a uma velocidade cruzeiro e já vem com as garras engraxadas,  uniformizado com um DNA  listrado de branco, em meio a uma cor meio amarelada na região peitoral, mas tendo um lado negro, cujos olhos profundos  enxergam seus adversários, no jogo da cadeia alimentar, a quilômetros de distância, nas paisagens urbanas degradadas.

O relato acima não é diferente do destino da vida de milhares de seres humanos em um Estado, onde o Governo não tem vontade política de estimular as boas práticas da gestão administrativa, objetivando transformar, melhorando a qualidade de vida da população, investindo e incentivando a juventude a adiar os planos, visualizados com a erotização através dos BBB’s, para não queimar etapas antecipadamente de sua existência, ao direcionar demasiadas energias condensadas, principalmente com relação aos órgão localizados na zona do agrião. Também as organizações pecam por serem desprovidas de um código de ética dos dirigentes, impondo prejuízos incalculáveis às futuras gerações que aprendem ao dar uma espiadinha, desarticulando o planejamento e as estratégias de vitória, ante um adversário que já derrotou o amor à camisa das tradições esportivas amazonenses.

A trajetória do menino humilde que venceu, driblando as adversidades econômicas na competição pela manutenção da vida, é digna de ser inscrita nos anais da História. Até hoje continua sendo cultuado como um monstro sagrado e tido como modelo para os mais novos, continuando a tradição de bem representar a terra em que nasceu, superando as dificuldades dentro das quatro linhas ou fora delas, ora atuando pelo clube onde iniciou a carreira, ora jogando por seu clube do coração ou defendendo com fibra e raça, a seleção que tanto amou.

Filho de Domingos Pena e Francisca Chaves da Silva, esse garoto simples e negro como a nossa cor, nasceu nas cercanias da Colônia, o bairro mais tradicional e antigo da cidade. Veio ao mundo na condição de ave menor, no dia 08 de janeiro de 1950 e, segundo Raimundo Saraiva de Araújo, matemático, ambientalista e botafoguense, nesta época Chico de Serpa, nosso cronista maior, pegava grade, quer dizer, ficava na regra três, sentado no banco de reservas.  Mas com muita paciência e perspicácia,  uma caneta e um cronômetro na mão, anotava em sua agenda, todos os lances da peleja daqueles petizes, conferindo depois com o árbitro, a súmula do jogo, afinal de contas, “a regra é clara”. O cenário era um campo nas proximidades da Caixa D’água, nas décadas de 50/60.

Todo capricorniano é determinado, pragmático e objetivo, cujo alvo maior é o bem-estar da família. Embora pertencesse a Zona Oeste, quando adolescente, não media esforços para ver o  espetáculo de um escrete composto por garotos de ouro, geralmente selecionados nas adjacências da Avenida 7 de Setembro. Às 16:00h, nos domingos, subia em um Apuizeiro que existia no quintal do cassino do Chico Cabeludo e lá, do olho do pau, apreciava o desfile de seus ídolos em campo, torcendo para o clube do coração, em partidas realizadas no antológico Estádio Municipal Eurico Gaspar Dutra, com um olhar privilegiado, embora sua arquibancada improvisada fosse um galho, mas sentindo as constantes bicadas dos bem-te-vis, por estar em território alheio. O mundo dá muitas voltas mesmo e o destino aperfeiçoa as sincronicidades e ele nem imaginaria que um dia iria fazer parte do ninho que sempre sonhou, quando criança, defender.

Foi revelado bem cedo na escolhinha, para as laterais. Era ágil e habilidoso na zaga, ganhava todas as divididas nas disputas com seus adversários, mas com responsabilidade, ía somente na bola; tinha uma grande impulsão, reforçada por sua capacidade pulmonar e permaneceu defendendo o ABC – Atlético Brasil Clube por 13 anos. Porém também incursionou por outros clubes, até ser convidado pelo Waldomiro, de onde ambos saíram para fazer testes em Manaus.

Apontados por olheiros, logo foi apresentado ao técnico Barbosa Filho, um nacionalino convicto de suas devoções que devotou toda vida ao azul e branco. Logo em seguida observado por Paulo Emílio, ex-técnico do Fluminense e do Vasco da Gama, do Rio de Janeiro e que, agora, iria dirigir o destino do Leão. A equipe ficava concentrada em um prédio, na Avenida Joaquim Nabuco canto com a Japurá, enquanto os treinos eram realizados na Vila Municipal, sendo que as refeições, servidas em um hotel do centro de Manaus. Quando nosso personagem viu a lauta mesa, ficava pensando em tanta fartura aqui,  mas refletia que lá, tinha deixado para trás os seus.

Treinava, convivia e compartilhava com seus colegas Biro e Batista (Itacoatiara); Téo, Evaldo, Tadeu, Mário Motorzinho, Rolinha, os irmãos Maravilha, o esforço diário e a vontade de fazer parte de um grande elenco, na década de 70. Todavia tinha um algoz em seu caminho  que o atormentava: era Wilson, um paraense vindo do Paissandu que, preconceituoso e intolerante, pegava no pé todo dia, tirando brincadeiras de mal gosto sobre sua condição social, isto é, de pessoa vinda do interior.  Mas ganhou a admiração de amigos e conselheiros que se solidarizavam com sua dor e eles eram Tadeu, Mário, Evaldo e Batista, que o incentivavam a ficar e, após passar no estágio, a assinar contrato com o clube mais querido da capital.

Naquela época as emissoras de TVs ainda não estavam popularizadas e, na Velha Serpa, a circulação de jornais era insipiente e realizada através de encomendas aos donos dos barcos que faziam linha para a capital, mas a notícia chegava rapidamente ao povo. Vários cronistas assistiam aos treinos, especialmente João Bosco Ramos de Lima, um dos maiores narradores  esportivos do Brasil, pertencentes aos quadros da Rádio Difusora do Amazonas que, tomando conhecimento de sua trajetória, tornou seu apelido conhecido no Amazonas e fora dele.

Extraordinário era ouvir os nomes dos craques que honraram, com habilidade, garra e amor,  as tradições e glorias mil do esporte itacoatiarense, na voz da crônica esportiva manauara, muitas vezes sintonizada em um radinho de pilha emprestado, ligado a uma antena de fio elétrico bem esticado e, no lugar mais alto da casa, para driblar as interferências e aumentar o volume da transmissão. Os moleques fanáticos daquele tempo inventavam de colocar ao sol para esquentá-las ou, então, ferviam a água, pondo-as até a metade, verticalmente, para carregá-las e, deste modo, ouvir o jogo à noite e quase morrer de emoção, quando, nos minutos finais, entrava a música “Ai, ai,aiai/Está chegando a hora…”.  No dia posterior nas escolas, nos treinos dos times; nas lojas, bares e botecos da Cidade da Canção era um comentário só, na torcida pelo sucesso dos nossos atletas, verdadeiros ídolos do passado, que nos representaram muito bem.

Decidido, não suportando mais a incompreensão do vilão e tantas saudades da terra natal, com a agravante de ter deixando a noiva esperando, após três meses fazendo testes, foi até ao presidente Edson Rosas, gerente de um banco e presidente do Nacional: solicitou R$ 200 Cruzeiros e, prontamente atendido, saiu às pressas com uma bolsa, em direção ao cais do porto. No Itapuranga, de bandeira itacoatiarense, pertencente a companhia de navegação municipal Ademar Mendes Pacheco,  os marujos já tinha recolhido a prancha e os cabos de amarração, quando seu Pocochito, comandante da embarcação ancorou a seu pedido o navio/motor e parabenizando-o, mostrou-lhe o jornal, cuja manchete referia-se  aos dois de Itacoatiara que tinham sido aprovados nos testes. E, deitando na rede, pegando aquela brisa suave no rosto, seguiu viagem para a sua cidade, contando a saga a todos que estavam ali, isto é, ao seu redor, sobre sua estada em Manaus.

O lendário atleta jogou por 13 anos no Atlético Brasil Clube, mas seu coração  sempre foi rubro-negro, consagrado como um dos maiores laterais que o Estado já possuiu.  Defendeu com muita garra a Seleção de Itacoatiara nos embates esportivos contra outras seleções municipais. Jovem destemido e corajoso, homem respeitado pelos adversários que, com apenas 20 jardas de cordas, trazia touro brabo pelas ruas do curral da Fazenda Doca Rattes ou do Porto do Carmelo, no Jauary, que chegavam domesticados no Matadouro Municipal. Atualmente, está aposentado, mas não deixou de militar na profissão que representou a paixão de toda sua vida.

Tinha um fôlego privilegiado  e quando o Batista treinava no Floro de Mendonça, ele o acompanhava, dando 25 voltas ao redor do estádio. A mitologia diz que ele passava o suor das patas do cavalo em suas pernas, daí a resistência física que possuía, distribuídas em um corpo de 1,60m de altura.  Defendeu as cores da Seleção de Itacoatiara, contra o Vasco da Gama. Sempre jogou nas laterais. Hoje ele reside no Bairro de Pedreiras, mantendo uma vida social ativa, auxiliando na quermesse do bairro, ou seja, na organização do arraial de Nossa Senhora do Carmo. Participa de outras atividades comunitárias como o Festival Folclórico de Itacoatiara, onde a quadrilha junina que administra,  foi  bicampeã, no Centro de Convenções Juracema Almeida, projeto que visa ocupar a mente dos jovens, resgatando os traços antropológicos de nossa gente.

Já possuiu uma Escolhinha de Futebol com 35 alunos e consagrou-se como técnico campeão sub-14, tendo obtido inúmeras láureas, troféus e medalhas destas conquistas, que guarda em sua residência. Seleciona as promessas em parceria com a Escola, onde   os critérios exigidos são as boas médias, a ética e o sonho para ter acesso aos fundamentos, afinal quem não que ser estrela, não olha para o céu. Mantém em fichários todas as informações dos jogadores e reúne-se constantemente com os pais, fazendo, após a preleção, uma análise da condição de cada atleta. E quando Roberto Dinamite, Túlio e Jorginho (Atletas de Cristo), estiveram em Itacoatiara, tentou articular inúmeros projetos sociais, mas observou que os gestores do município e empresários,  não têm visão de futuro e vontade política de estimular a juventude local, tanto é assim que Itacoatiara perdeu a hegemonia que mantinha em todas as modalidades esportivas, no Amazonas.

O  jogo que considera como um dos mais importantes foi  ABC X Nacional Fast Clube, em 68, em que fez uma atuação de gala contra os três irmãos Piolas. No entanto o clássico ABC X  Náutico não lhe sai da cabeça e quando perdeu, a formação era: Berg; Cauré, Tote, Victor, Perréco e Jorge Sá; Lola, Pedro Taquara, Heleno, Sezion e Miróca. O técnico era Piquitinha. Todavia vestindo o manto sagrado do Santuário de Nazaré,  quando o técnico era Raimundo Nazaré começava com o Pena, Homero, Castro, Tiafá e Ricardo; Amilton, Carlos, Cauré, Zé Augusto, Bacaba, Tião e Anselmo.

No ano de 1975, o Náutico Esporte Clube, cedeu para a Seleção de Itacoatiara vários atletas, inclusive a pequena,  mas atrevida águia serpensis, tornando-se campeã intermunicipal sob os comandos técnicos de Raimundo Nazaré,  com a seguinte escalação:  Zé Mário, Dapéca, Homero, Jorge, Cauré, Barina, Naninho e Hely; Luiz Alberto, Domingos e Mucurinha.  Mas a harpia era bom de bola e de pegada, assim na terra como no céu e ainda não desistiu dos sonhos e, no mês de fevereiro, agora  como olheiro, anda a caça de talentos para o futebol, buscando, com recursos próprios, três garotos do km 21, da Rodovia AM-010-Rio Urubu,  para aprimorá-los, visando os Jogos Escolares.

Em  1981, o presidente era Álvaro Filho, conhecido pela torcida como Alvarito, um divisor de águas na História da administração da Cobra Coral que tinha um timaço e sagrou-se campeão Interclubes, disputando com o Princesa do Solimões. Neste ano a formação já era um pouco diferente, mas nosso personagem estava lá, senão vejamos: Arnoldo; Zé Carlos, Adoniran, Zéca, Sampaio, Cauré e Chico Manga; Di Assis, Niltinho, Chico Holanda, Carlos, Zé Augusto e Carlinho. Tais jogos ocorreram nas duas praças esportivas, mas o empate em Manacapuru, fez com que os torcedores adversários promovessem uma batalha campal. Por outro lado os torcedores nauticanos deixaram imediatamente aquele município, comemorando com uma grande carreata, puxada pelo carro do Corpo de Bombeiros o título conquistado, cujo roteiro passou pelas principais vias de nossa cidade.

A concentração daquele time de moleques era embaixo do Pau Grande, no Cemitério Espírito Santo. Todas as tardes, batiam bola no campo localizado na casa do Raimundinho Almeida.  Um dia o Walmir, irmão do Biro (Nacional), ambos  filhos do seu Pedro Trevoada, viu uma ave pequena, às seis da tarde,  voar em direção ao ôco daquela árvore, perseguindo os morcegos que saíam em busca de alimentos e observou um falcão voando baixo, com suas travas afiadas, dando voltas naqueles voadores noturnos, no ambiente espiritual. Uma tarde, com o condicionamento físico aperfeiçoado nas madrugadas, jogando muito bem, aquele jogador surpreendeu todo mundo: deu um chagão em um, para o lado direito;  comeu o segundo, para o lado esquerdo; em seguida, conseguindo o intento com o terceiro, quer dizer, driblou todo o time adversário e… gooooooooool. O Walmir, macaco velho e ladino, tascou o nome que eternizou Orivaldo Chaves da Silva a entrar para a crônica esportiva da Velha Serpa, como um dos melhores zagueiros do futebol estadual.

Com 63 anos, Cauré ainda é um gavião-menino, porém nunca foi um Querequequé, nem tanto um Pedrês qualquer, mas pertencente a uma alta linhagem, que serve a côrte real, com características e estilo próprio, distinguidas pela riqueza da plumagem multicor. Constrói seus castelos, no dossel da floresta, na gigantesca e bem copada flora porque, lá de cima, observa todo o movimento que ocorre na vida interior. Mas sempre sonhou com os píncaros da glória e aquilo que era apenas uma utopia nas mãos dos outros, transforma-se em seus pés, em realidade latente, em nosso cotidiano.

Com a narração cristalina na voz inconfundível de Rougles Fonseca, comentários abalizados de Luiz Oneth e Raimundo Nazaré, a técnica de som sob a supervisão de Vanzinho nos estúdios, a Rádio Difusora despede-se de seus ouvintes, prometendo voltar ao ar amanhã, se assim Deus o permitir.

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J.R Lopes
É jornalista. Natural de Itacoatiara (AM).

2 COMENTÁRIOS

  1. Que beleza, meu amigo! Tantos ‘pássaros’ existem nesta nossa velha Serpa da qualidade do Cauré. E em todos os setores: esportivos, culturais, sociais… Quantos talentos, quantos artistas, quantos homens e mulheres de bem, quantos jovens (rapazes e moças), quantos trabalhadores que precisam ser enaltecidos, ter suas histórias contadas, mostradas para o mundo. Seu texto é uma coisa maravilhosa. O espaço está aberto, sem discriminação, é democrático e da comunidade. Peço, imploro para que outras pessoas se aventurem a contar suas experiências, a narrar coisas assim, que mexem com o coração e engrandecem a alma da gente. Que felicidade. A coisa melhor do mundo é sermos de Itacoatiara. Estamos no céu. Parabéns!!!

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