Este é um domingo a ser celebrado por muitos anos. O centro histórico da cidade de Manaus começa a ter suas calçadas devolvidas ao povo. E não apenas isto, os trabalhadores informais, chamados de camelôs, recebem da prefeitura a alforria de anos de escravidão, injustiças e manipulação política indecente.

Muitas cidades e capitais, antes de Manaus, realizaram o mesmo feito, mas nenhuma aplicou uma política de retirada tão generosa e republicana. Conheci e estudei os métodos aplicados em outras terras, como o programa tolerância zero, em Nova Iorque, e as opções brasileiras. A maioria desses programas foi eficiente, mas nenhum deles igual a que neste momento começa a ser executado pelo jovem Rafael Assayag, seguindo as diretrizes do prefeito Artur Neto, que teve a preocupação de oferecer opções concretas à massa de trabalhadores informais. Em certas capitais a questão foi resolvida com medidas fiscalistas, enquadrando os informais com a legislação tributária, tendo como resultado apenas a relocação de uma minoria para os espaços públicos transformados em mercados populares. Em Brasília, por exemplo, o governo local transferiu compulsoriamente os informais que se aglomeravam na espia nada dos Ministérios, nas cercanias da rodoviária, para dois prédios nas proximidades do Setor Militar Urbano. E um local amplo, muito agradável e de fácil acesso, pois há muitas linhas de ônibus que passam ali. No entanto, o espaço foi se esvaziando gradualmente e se transformando num shopping center comum, por não terem oferecido treinamentos adequados aos trabalhadores, que ao deixar a informalidade, naufragaram no cipoal da burocracia. Aqui, não está havendo açodamento, nem a tentação da violência. Desde que assumiu a prefeitura a política de Artur é de tranquilidade, mas firmeza nos propósitos. Pouco a pouco, enfrentando com serenidade e destemor as poderosas forças que lucravam com essa aberração social, as mentes foram sendo conquistadas e as resistências derrotadas. Por trás das aparentemente inocentes bancas que enfeiam nossa bela paisagem urbana, para além da máscara sofrida dos trabalhadores que mourejam de sol a sol, está a sinistra e criminosa figuras dos atacadistas e sonegadores fiscais, sem esquecer as máfias de contrabandistas, de falsificadores, de agiotas e de monopolistas que chegavam a dominar vinte a trinta bancas.

Esses criminosos é que são os que estão perdendo a guerra, porque já não poderão escravizar por dívidas os trabalhadores, a quem forneciam as “mercadorias” sem emissão de notas fiscais, dando prejuízo de milhões de reais por ano aos cofres estaduais e municipais, além de cobrarem juros exorbitantes a esses escravos modernos, algumas vezes a 12% ao dia, além de obriga-los ao consumo de alimentos que fabricavam em cozinhas clandestinas, sem higiene. O mais grave é que certos políticos, a maioria na Câmara de Vereadores e alguns na Assembleia Legislativa, estavam a serviço desses criminosos exploradores, ou se aproveitavam da fragilidade desses trabalhadores para lhes explorar a credulidade, colaboraram para manter durante anos essa iniquidade. Mas chamo atenção dos meus sete leitores para o fato de que esses políticos calhordas não estão se dando por vencidos, acham que podem pescar votos nas águas turvas desse grave problema social. O exemplo recente foi desse vereador pilantra, que mamava nas tetas da prefeitura e preside a sigla de aluguel chamada de Partido Social Democrata Cristão. Ele estava na terça feira passada na Praça da Matriz montado num poderoso carro de som mentindo para os camelôs e os incitando a resistir ao projeto da Prefeitura. O nome desse inimigo de Manaus é Cícero Alencar, e tem mandato de vereador. O Cícero romano era um grande tribuno, esse é falsificado e precisamos eliminar nas próximas eleições. Fiquem de olhos!

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Márcio Souza
Dramaturgo e historiador nascido em Manaus. Ex-presidente da FUNARTE. Professor Adjunto da Universidade da Califórnia, em Berkeley (USA). Membro da Academia Amazonense de Letras. Presidente do Conselho de Cultura da Prefeitura de Manaus.

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