*Fábio Marton

Há 500 anos, 20 de setembro de 1519, o navegador português Fernão de Magalhães partia de Salúncar de Barrameda, Espanha, para a expedição que, em seu valor simbólico, só tem rival na (dá para argumentar) Apollo 11. A primeira volta ao mundo foi uma façanha para eternamente habitar o imaginário popular. Na vida real, a coisa foi bem menos heroica que o lembrado. Magalhães certamente não deu a volta ao mundo e, talvez, o verdeiro merecedor do título seja um intérprete asiático. Vejamos.

  1. Ninguém achava que ele ia cair da borda do mundo

Pode olhar em qualquer mapa medieval: a terra é esférica. O desenho altamente impreciso, que lembra um T dentro de um O, representava os três continentes conhecidos – Europa, Ásia e África – em um dos hemisférios do planeta. O outro, se imaginava então, era impossível de explorar, pois as pessoas morreriam de calor ao tentar atravessar a “zona tórrida”. Em 1519, essa última parte já havia sido desmentida muitas décadas antes pelas navegações portuguesas pela costa da África.

Já havia mais de um milênio e meio que ninguém com o mínimo de educação levava a sério a hipótese da Terra plana – incluindo os padres que pregavam ao povo, e até os Vikings que chegaram à América 500 anos antes de Colombo e acharam que era uma península da África. Em cerca de 240 a.C. o grego Erastótenes de Cirene já havia calculado a circunferência da Terra com um erro de 10%. A dúvida não era se era possível dar a volta ao mundo, mas por onde: a ponta sul da América, ligando Atlântico e Pacífico, era inexplorada, e podia terminar num mar de gelo intransponível, como ao norte do Canadá. A passagem, bastante difícil, seria descoberta na viagem e ganharia o nome de Estreito de Magalhães.

  1. Era uma questão de dinheiro

Magalhães era um veterano português da conquista de Malaca (na Malásia) de 1511, a primeira vitória decisiva do colonialismo europeu na Ásia. Havia proposto sua aventura ao rei de Portugal, que recusou, mas permitiu oferecê-la a outro interessado. Os portugueses, com sua base na Malásia, não viam razão para achar outro caminho para as especiarias. Já os espanhóis estavam desesperados: Colombo os havia levado a acreditar que haviam encontrado as “Índias” no final do século 15. Com isso, assinaram o Tratado de Tordesilhas, em 1494, pegando quase toda a América, mas cedendo a Portugal a rota para a Índia pelo sul da África, completada na viagem de Vasco da Gama, em 1498 e a única viável até então. O que pareceu um grande negócio para a Espanha significou que, por décadas, Portugal deteria o monopólio das especiarias pela via marinha – a razão central das Grandes Navegações. Depois de Magalhães, o comércio de especiarias seria dividido entre a rota portuguesa, pelo Leste, e a rota espanhola, pelo Oeste.

  1. Magalhães foi considerado um vilão

Se ninguém realmente acreditava que cairia da borda do mundo, em vários momentos, deve ter preferido cair. Quando os marinheiros chegaram na Espanha, em 6 de setembro de 1522, todo mundo já dava a expedição por perdida. Ao longo do caminho, os marinheiros foram morrendo por fome, escorbuto, tempestades, motins e batalhas com os nativos. Dos 270 que partiram com ele, em 5 navios, 18 retornaram, em um só. Magalhães não estava entre eles (mais adiante).

E, se estivesse, teria uma péssima recepção: desertores, que haviam dado meia-volta na travessia o Estreito de Magalhães e retornado à Espanha no navio San Antonio, em maio de 1521, escaparam de ser executados pelo crime dizendo que o capitão português era um tirano que estava traindo o rei da Espanha. Em 1522, os sobreviventes tiveram que fazer sua caveira ainda mais para serem aceitos. De forma que, pelos anos que se seguiram, o navegador foi visto como um traidor tanto na Espanha quanto em sua Portugal natal – onde já era visto, por ter vendido seus serviços à arquirrival. Foi só com a publicação do relato do italiano Antonio Pigafetta, o escrivão de bordo, que sua reputação começou a ser recuperada, primeiro em outros países da Europa.

  1. O matador de Magalhães é um herói nacional filipino

Em 16 março de 1521, Magalhães já havia perdido dois navios – um para tempestade e um por deserção, o já citado San Antonio. Foi quando finalmente encontrou seu alvo: asiáticos urbanos, do tipo que vende especiarias. Assim, 29 anos depois de Colombo, os espanhóis finalmente achavam a rota para as “Índias”.

Os marinheiros eram do Rajanato de Cebu, um Estado hindu na ilha de mesmo nome, nas Filipinas. Em 7 de abril, foram levados à sua capital, Singhapala, e foram recebidos pelo rajá Humabon. Em uma semana, o líder aceitou se batizar no cristianismo, adotando o nome Carlos, em homenagem ao rei da Espanha, Carlos I.  Também ordenou a conversão de todos seus súditos. Mas um se recusou: o chefe Lapu Lapu, da ilha de Mactan.

Magalhães foi então enviado para convencê-lo e, ao receber a negativa, tentou usar de força. Mas a batalha foi assimétrica – para o lado dos filipinos. Eram 1500 nativos contra um destacamento minúsculo de 49 europeus. Os invasores não conseguiram aproximar seus navios da praia para dar suporte com seus canhões, nem mesmo trazer besteiros ou arcabuzeiros em botes, a uma distância segura. Vestindo armaduras, o pequeno destacamento foi atingido por uma tempestade de flechas, lanças, até pedras, sendo forçado a bater em retirada. Retornaram fogo, e até 150 nativos morreram. Mas Magalhães, e mais 13 outros, não conseguiram escapar. O navegador foi finalizado com uma espada, literalmente morrendo na praia. Seu corpo não seria recuperado.

Hoje, Lapu Lapu é celebrado como o primeiro herói nacional das Filipinas, um ícone da luta contra o imperialismo europeu.

Quanto ao rajá Humabon, pareceu aceitar bem a situação, convidando os europeus para um banquete, no dia 1o de maio. No qual tratou de exterminá-los com veneno. Morreram os dois sucessores portugueses de Magalhães, Duarte Barbosa e João Serrão, mais 25 marinheiros. Serrão conseguiu escapar brevemente para a praia e gritou para a tripulação que todos estavam mortos, menos um. Os espanhóis bateram em retirada. Perderiam ainda dois navios e mais comandantes na volta. Ao final, o espanhol Sebastian Elcano seria quem acabaria com o crédito de primeiro capitão a circunavegar o mundo, com seus 17 maltrapilhos sobreviventes.

  1. Um escravo malaio pode ter sido o primeiro a dar a volta ao mundo

O que fez o rajá mudar de ideia? Segundo a teoria da própria tripulação, Henrique, o escravo de Magalhães, o sobrevivente a que Serrão havia se referido. Fora capturado por Magalhães na conquista de Malaca de 1511 e servia como intérprete. Quando seu senhor morreu, ele exigiu sua soltura, conforme era o desejo expresso do falecido. Mas a equipe não queria perder sua língua e, com isso, foi mantido contra sua vontade. Como intérprete, Henrique estava no banquete letal do rajá e falou a ele coisas que os espanhóis não entenderam. O fato de ter sido poupado levou os marinheiros a concluir que ele havia provavelmente convencido o rajá de que a Espanha conquistaria seu país – como faria, em 1565.

Os europeus também supuseram que Henrique cumprira sua vontade expressa nos dias anteriores, a de voltar para sua terra natal. Se ele fez isso, se atingiu novamente a Malásia – numa rota que não seria tão difícil, pois era bastante frequentada pelos mercadores asiáticos – isso torna ele o primeiro humano a dar a volta ao mundo, mais de um ano antes de seus colegas na sofrida expedição terminarem a sua circunavegação.

Os historiadores param por aí, no “não há prova”. Mas a tese foi defendida pelo escritor judeu alemão Stefan Zweig (aquele do “Brasil é o país do futuro”) e é, naturalmente, bastante popular na Malásia, onde Henrique é conhecido como Panglima Awang (“Capitão Awang”), nome inventado pelo escritor Harun Aminurrashid no romance sobre a vida do escravo, em 1958. Como Lapu Lapu nas Filipinas, ele é visto como o real herói da jornada.

*Jornalista de história e ciência. Matéria na Folha de São Paulo, de 20/09/2019
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