Fui convidado a colaborar com o FECANI deste ano, realizado no período de 4 a 7 de setembro corrente, na categoria de jurado. Jamais participara do evento. Fiquei surpreso por se tratar de um festival da canção, e, os seus jurados terem, como condição essencial, a qualificação de músico, o que não é o meu caso. Perguntei-me a mim mesmo como é que eu poderia julgar se bons ou maus, pobres ou ricos a melodia e o ritmo de uma canção, se me faltavam condições técnicas para tanto? De outro modo eu também não poderia recusar-me a comparecer a essa festa, primeiro porque uma festa não se recusa e, depois, porque não iria, com tal atitude, ao mesmo tempo decepcionar os meus conterrâneos itacoatiarenses. Cheguei, então, ao local do evento sem saber mesmo o que ia fazer. Fui conduzido a um camarote reservado a convidados, onde eu e minha esposa nos acomodamos, na monumental arena do espetáculo. Tentei ligar o ventilador, sem consegui-lo. Abri a porta e pedi auxílio a uma das muitas pessoas que circulavam por perto, com ares e sorrisos de quem estava ali para ajudar a gente. Veio um cavalheiro alto, de meia idade e se ofereceu em saber o que eu desejava. Ele foi lá, ajeitou o ventilador e, no final, nos identificamos. Disse-me que seu nome era Manolo, ninguém mais nem menos que o Presidente a trinta anos daquela festa, posto ser esse o 30º Festival da Canção de Itacoatiara, uma das mais antigas e históricas cidades do Amazonas, plantada a cerca de 260 quilômetros de Manaus. Aproveitei, então, para saber mais e fui informado que iria participar como julgador de três eventos, o Aberto de Oratória, a Tarde de Contadores de Estórias e o Concurso de Poesia Falada. Iria participar ainda da tarde de autógrafos dos poetas itacoatiarenses. Fiquei mais contente ainda porque esse era o terreno da Literatura, setor em que poderia melhor colaborar.

Aí percebi a abrangência desse acontecimento. Não é apenas um festival da canção, sua vitrine de maior destaque, mas um festival de cultura. Um acontecimento inusitado, original na região. Envolve mais de 20 modalidades esportivas e mais de 10 artísticas, além de promoções nos domínios do artesanato, da arte culinária e das diversões infanto-juvenis. Realiza mostra de comida regional, docinhos caseiros e uma jaraquiana da cidade. Itacoatiara possui uma tradição dos bons doces e bolos da terra. Consta, ainda, da programação, um salão da palha regional, visto a cidade também alimentar a tradição de famílias dedicadas à tessitura de objetos e recipientes de palha de tucumã, ventarolas, abanos, cestinhas, sandálias, bolsas e grandes cestos de roupa. Há mais. Há um campo aberto, no conjunto urbano montado na cidade para a festa, onde se realizam os circuitos de papagaio de papel, com a participação de jovens e crianças, deixando os céus daquele pedaço da cidade cortados de cores sopradas pelo vento.

Numa olhada geral logo se pode concluir que a coisa não é de brincadeira. Na parte de que participei mais de perto pude confirmar isso. Na oratória apreciei textos bem lançados e bem pronunciados, na forma e no conteúdo. Na poesia falada apareceram poemas de boa qualidade, produzidos por jovens e até crianças das escolas de ensino fundamental. Os contadores de causos comportaram-se muito bem, com humor e uma linguagem gramaticalmente correta, embora alimentada por um sopro localizado nas águas do baixo-Amazonas, no sotaque e no ritmo das abordagens. Tudo num ambiente agradável, com entusiástica participação das plateias constituídas de jovens na maioria. Plateias que, ao assimilar as ideias e as emoções expressas na palavra dos oradores, dos poetas e dos contadores de causos, deverá multiplicar tudo isso no dia a dia de sua vivência, melhorando o seu convício de cidadãos comprometidos com o seu mundo.

O que há de se louvar, por fim, é a condição de ser esse evento uma promoção de iniciativa privada, invenção do povo da Velha Serpa, trabalho de equipe, e que veio, forçando de baixo para cima, até o poder público se sensibilizar e começar a aparecer nos anúncios orais e nos painéis eletrônicos da festa. Por ser uma iniciativa do povo, não há nesse acontecimento nenhum traço de monumentalidade propício a iludir o público, símile do “penem et circenses” da antiga Roma.

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Elson Farias
*Poeta e ensaísta. Ex-presidente da União Brasileira de Escritores do Amazonas e da Academia Amazonense de Letras. Nascido em Itacoatiara é uma das glórias dessa cidade.

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