Andam contando por aí coisas do arco da velha que trazem o passado mais distante das brumas do tempo para os dias correntes. Há uma saudade de tudo! Do que foi vivido e sonhado, e até do que alguns imaginam e transformam em quase verdade, para contar e propagar.

Essa divagação me vem à mente em razão da redescoberta de trilhos que serviam aos bondes que fizeram de Manaus uma das cidades mais modernas, contrastando com outra que ficava escondida nas vielas e choupanas dos bairros mais distantes, e a dos lázaros alijados no Umirisal ou das meninas pobres alojadas no Instituto Benjamin Constant.

Isso acontece na rememoração da história dos bondes elétricos, modernidade importante que nos foi legada em primeira mão pelo governador e grande realizador Eduardo Ribeiro, que depois foi escorraçado da política e morto pelos seus adversários.

Em 2001, quando começamos a projetar e realizar intervenções urbanas que foram restaurando lugares e prédios pitorescos e apaixonantes da nossa cidade, levantamos o traçado dos bondes, e ali pelas ruas Costa Azevedo e 10 de Julho nos deparamos com as linhas de ferro de 1893 submetidas ao asfalto cruel dos anos 1970. Foi então que toda a nostalgia ganhou vida nova, e outra vez surgiram as conversas de varanda contando da vida naqueles anos. Falavam as moças que ficavam nas janelas pra ver o bonde passar, da elegância dos carros, dos namoros a meia luz com as mãos recortadas algumas vezes pela lua cheia, e até dos acidentes com os bondes e dos pequenos atrasos de um minuto que davam o que falar e geravam reclamações incontidas dos usuários, e ainda mais do bonde feito especialmente para o governador com cadeiras de vime e cortinas rendadas. Tudo e tudo foi ressurgindo dos livros, dos jornais e da memória perdida da própria cidade, como se fosse uma voz única na fala de várias pessoas antigas.

Ali começava o desejo ardente de reabilitar a principal avenida de cidade – a Eduardo Ribeiro – e por ela passar novamente a linha principal com nosso bonde inglês, cujo projeto foi logo desenvolvido e levado de seca a Meca, mostrado e aplaudido, e que dessa vez está no caminho de ser consumado.

Agora mesmo novos trilhos surgiram encravados na pedra importada, bem ali na encruzilhada defronte ao antigo bar Siroco, e vão ser preservados como testemunho do passado e prova da saudade que nos anima a redescobrir o tempo da “belle époque” com sua elegância europeia, e até mesmo de época mais recente, quando o governador Plínio Coelho – que também foi dos mais importantes para a nossa terra – tudo fez para ressuscitar os velhos trens de ferro. Sua vontade era tanta que ele serviu de motorneiro com quepe e tudo para demonstrar seu desejo de vê-los circulando novamente, mas logo depois, desiludido e temendo que não desse certo pelas modernidades que se impunham nas cidades que cresciam como a nossa, criou a Transportamazon e sepultou de vez o tilintar dos bondes, a brincadeira do cerol feito nos trilhos, a correria para mocegar e pular fora quando o cobrador chegava perto, e até mesmo quando bem comportados, ver a troca de lança no final da linha e a virada dos bancos.

Tudo isso vai voltar. É só esperar um pouco mais.

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Roberio Braga
*Amazonense de Manaus. Historiador. Bacharel em Direito, especializado em Direito Agrário, pós-graduado em Administração de Política Cultural e Mestre em Direito Ambiental. Professor da Escola Superior da Magistratura do Amazonas e da Universidade do Estado do Amazonas. Ex-presidente da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Ex-Secretário de Estado de Cultura, desde 1997 até 2017 e atual Presidente da Academia Amazonense de Letras.

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