1
A água leve dilui
suas escamas lúcidas,
lascas de limo
nasce o peixe.
Traços insólitos
sólidos
desenham-lhe o dorso.

Folha indecisa
sua flava presença,
faca de sal crestada
nas escumas do rio,
o peixe fala
como qualquer aquático
e canta como
qualquer claro córrego.

Quando o vento desce
a flor murcha,
se a noite passa
o peixe padece,
padece do escuro
da falta de lua.

No prato o peixe é limpo
e litúrgico, a lâmina da faca
fere-lhe o lombo azul
e sua lágrima salobra,
sua fala ázima
fixam-se na resina cítrica
do limão e da pimenta.

No leito do rio
quando seca,
suas escamas luzem
e se tornam seivas
para os outros peixes.

2

o peixe é dourado,
o peixe é de prata,
de sal e cordura,
escamas e escumas,
o peixe é de espumas,
de barro e de sangue.
A escassa comida
na beira do rio
é peixe e farinha,
é água e limão,
pimenta e pimenta,
é coentro e pirão.
O homem que come
só peixe, é de ferro.
Afora do peixe
só carne de caça
dá-lhe mais sustância,
dias de domingo.
O peixe, contudo,
é pão de domingo
na beira do rio.
De noite o homem dorme
de braços doídos,
motores de arar
ele desconhece,
tratores nem passam
por seu pensamento;
sofrendo o seu canto
domina a indolência
o corpo de ferro.
O peixe dourado
é fome de pobre,
o peixe prateado,
comida de rico;
se a fome o golpeia
na rede, ele sabe
que peixe prateado,
pescada ou sardinha
é prato de doente.
Se vive entre a mata,
a tormenta e o rio,
a fome o atormenta
nos meses de estio;
os homens de ferro,
de peixe e de barro
dominam o rio
até que lhes façam
viver todo o rio.

3

Um peixe pequeno
de prata e de sangue,
um peixe por cem,
um peixe de pérolas
por cem pratas rotas,
por mil pratas magras
que o pobre não tem,
nem tem o operário
curtido de fome,
das lidas e lutas
que o rico não tem.
Um peixe de prata,
remanso e limão,
pimenta e pimenta,
o peixe que é pão
de areia e semente,
o peixe do pobre
da casa de trapos,
flor de inanição.
É dono do peixe
o rio, porém
os homens que o pescam
não vivem, se expõem.
Os donos dos muitos
impostos e taxas
transformam o peixe
de escamas em barro
e a prata do peixe
em dura adoção.
Quem come do peixe
comprado a mil pratas
não ganha um centavo
de boa digestão.
Contudo pro peixe
só basta o tempero
do sal, do limão,
pimenta de cheiro,
tomate e pirão,
e o sol, todo o sol
de todo o verão.
Assim, assim não,
assim por mil pratas
morre-se de fome
sem disposição,
sequer sem tostão
pra comprar um peixe
de prata e de multas,
de taxas e impostos
e amarga extorsão.

O tempo é de tudo:
preço-espoliação
do peixe-ferrão.

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Elson Farias
*Poeta e ensaísta. Ex-presidente da União Brasileira de Escritores do Amazonas e da Academia Amazonense de Letras. Nascido em Itacoatiara é uma das glórias dessa cidade.

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