fernanda torres
*Fernanda Torres

É certo que o isolamento nunca chegou a valer por aqui, mas uma reabertura oficial difere muito da aglomeração clandestina.

Eu não sei o leitor, mas ando presa à cantilena do futuro temerário desse governo, da crise financeira do país, da queda inevitável do Ocidente e do fim do mundo como o conhecemos. Temas complexos e de difícil solução, que levam a um estado de impotência duro de suportar.

E a pandemia ainda veio coroar a soberba estatística, já galopante no período anterior ao vírus. Há meses, me enxergo na curva de infectados, no mínimo por cento da tendência eleitoral, no ponto ínfimo na multidão de dados.

E entre a impotência e a insignificância, privada do cotidiano alheio por mais tempo do que o tolerável, enfrento o primeiro périplo festivo, depois do afrouxamento das regras de distanciamento social.

São Paulo tem forte movimento de bares no 1º dia de funcionamento até 23h

No primeiro dia em que bares em São Paulo puderam ficar abertos até as 23h, houve forte movimento de pessoas Eduardo Knapp – 9.jul.2021/Folhapress

A vacinação aposentou o “parabéns a você” via Zoom e a reunião familiar de corpo presente retornou com força total. No meu caso, o segundo semestre sempre significou um campo minado de cumpre anos de irmão, filho, mãe, sogra, sobrinho e enteados, além do meu próprio.

De agosto a novembro, fora os oito aniversários de praxe, estive presente em duas reuniões de amigos, um encontro de classe, dois jantares caseiros e uma comemoração da eleição da matriarca para a Academia Brasileira de Letras. Agenda extenuante para um caráter sociofóbico que, não sem estranheza, tenta se reabituar à vida em sociedade.

É certo que o isolamento nunca chegou a valer no Brasil, mas a abertura oficial de uma cidade difere muito da aglomeração clandestina.

Uso máscara, me testo, mas já relaxo de cara limpa quando divido a mesa ao ar livre. Uma risada solta, no entanto, um tom de voz que se altera, e o alarme dos perdigotos dispara, ressuscitando a paranoia do contágio. Readaptação lenta, admito.

Todo o ritual de etiqueta foi revisto. Jamais me adaptei ao beija bochecha, em especial no Rio de Janeiro, onde o “dois para casar” era obrigatório. Hábil no cotovelo, no soquinho e na inclinação oriental, não encontro substituto para o abraço.

A visão de um rosto amigo, do aniversariante que seja, pede o abraço, mas só me atrevo depois do consentimento tácito. Com o rosto voltado 180 graus na direção oposta à do saudado, avanço até sentir o esbarrar das orelhas, num ósculo livre de fluidos e aerossóis.

Vencido os cumprimentos, resta acertar a prosa. Munida de assuntos gerais, apelei, mais de uma vez, para os enormes desafios da atualidade, a fim de sustentar uma conversa de salão.

Na celebração da ABL, eu e um conhecido já engatávamos a quarta marcha do debate sobre os riscos do retrocesso democrático, quando ele desistiu da sala de visita, me segredou ser portador de comorbidade e confessou não se lembrar da última vez em que estivera na companhia de terceiros.

“Faz dois anos que eu não saio de casa”, disse comovido, como que se desculpando pela perda do traquejo social. Silêncio. Era mesmo um milagre estarmos eu e ele de pé, ali, na frente um do outro. Da confidência ao diálogo íntimo sobre o nosso real estado d’alma, foi um passo.

Hábitos de higiene na pandemia

O casal Karoline de Lima Ferreira (30, consultora de vendas) e Guilherme da Costa Criscuolo (33, designer gráfico) adquiriram hábitos de lim Mathilde Missioneiro/Folhapress

Quando a OMS oficializou a catástrofe sanitária, tive inveja do jornalismo. Pega de surpresa pelo enredo planetário, a ficção levou uma surra pavorosa dos fatos. Hoje, com 20 meses completos de peste, me compadeço dos jornalistas. A realidade é insuportável.

Não se trata de elogio à ignorância; mais do que nunca, a boa informação é necessária. Mas quando esse conhecido me revelou o espanto de estar, outra vez, no meio de gente, não era o exemplo genérico a discursar, o representante da curva, o número da planilha, a matéria da pauta, era o indivíduo mesmo, o sujeito em pessoa, quente, próximo e palpável. Era o caso único da ficção.

No “Anos de Chumbo e Outros Contos”, do Chico Buarque, intui-se o bairro, o país, o momento e o mundo, pelo que há de particular na mendiga, no estudante, no miliciano, na “de menor”, no torturador, na Clarice, no fã e nos moços que quase lembram o contista.

Líricos e sucintos, os contos de chumbo do Chico têm elipses elegantíssimas e parecem existir entre o romance literário e a canção. A miséria está lá, o real, a violência, a tragédia social, a anedota e a solidão, mas numa medida humana, existencial, que transcende a notícia do jornal. É representação.

Algo se mexeu no pântano. A trégua da pandemia me devolveu não só os amigos e parentes desaparecidos, como a crença na ficção.

*Atriz. Escritora. Colunista da Folha de São Paulo. Artigo no Caderno Ilustrada, de 10/11/2021.
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