Reinaldo José Lopes
*Reinaldo José Lopes

Personagem criado por Tolkien tenta subjugar natureza queimando florestas.

É meio apocalíptica a experiência de acordar, abrir as cortinas e perceber que há algo de muito errado com o céu. No cantinho do interior paulista onde vivo, com efeito, o cenário de fim do mundo não veio com a escuridão às 3h da tarde, como na Grande São Paulo, mas por meio do Sol avermelhado, com a mesma cara que teria num crepúsculo de inverno, às 7h30 da manhã. Para chegar até os olhos dos pobres Homo sapiens cá embaixo, a luz precisava atravessar uma sopa grossa de fumaça e nuvens. Saruman tinha triunfado.

O nome, que talvez não seja conhecido de quem não leu “O Senhor dos Anéis” nem assistiu às adaptações cinematográficas do romance, é uma das grandes sacadas linguísticas do escritor britânico J.R.R. Tolkien (1892-1973). Em inglês antigo, significa algo como “homem de engenho” ou “homem matreiro”. “Saru” era um termo repleto de ambivalência para os anglo-saxões de mil anos atrás: incluía, em doses iguais, admiração pela engenhosidade e temor de que ela pudesse ser usada para o engano e a violência.

Foi a partir desse complexo de significados que Tolkien desenvolveu a figura do mago renegado Saruman, cuja sabedoria e poder são lentamente corrompidos por sua “mente de metal e engrenagens”, que passa “a não se preocupar com coisas que crescem, exceto até o ponto em que lhe servem naquele momento”, como diz um personagem de “O Senhor dos Anéis”.

Só um lunático poderia acusar Tolkien de ser um “melancia” (verde por fora e vermelho por dentro, ou seja, um comunista disfarçado de ambientalista; sim, é um dos insultos políticos mais imbecis já imaginados, mas releve). O velho professor da Universidade de Oxford era um católico conservador que sentia certa saudade da monarquia medieval – mas foi também um dos primeiros a enxergar com clareza o abismo gerado pela destruição ambiental.

“Em todas as minhas obras, fico do lado das árvores, contra todos os seus inimigos”, escreveu ele em carta ao jornal Daily Telegraph. “O som selvagem da motosserra nunca silencia onde quer que as árvores ainda possam ser achadas crescendo.” Saruman, assim como outros vilões tolkienianos, tem sua integridade corroída justamente pela tentação de passar feito um trator por cima do mundo natural, pelo desejo de submeter tudo o que existe ao projeto que o mago resume com três palavras: “Conhecimento, Governo, Ordem”.

A fortaleza do feiticeiro renegado já tinha sido “verde e repleta de alamedas com árvores frutíferas, mas nenhuma coisa verde crescia ali nos últimos dias de Saruman”.  Há outra coisa em comum entre Saruman e os acontecimentos desta semana trágica, porém. O mago era também um mestre da insinceridade política, da arte de pronunciar discursos nos quais o divórcio entre palavra e ação ganha ares surreais. Vimos alguns exemplos de linguagem sarumânica nestes dias, tais como a afirmação de que o governo brasileiro estaria “protegendo o ambiente com soberania e sem histeria”.

Eu disse que Saruman tinha triunfado? É o que parece, mas as reações contra o que tem acontecido no Brasil sugerem que a crítica de Tolkien ao sarumanismo moderno ajudou a lançar raízes profundas na imaginação das pessoas. A visão de que florestas são apenas estorvo para a prosperidade, por outro lado, é tão estéril, do ponto de vista imaginativo, quanto a terra calcinada que ela está ajudando a criar.

Fogo na Amazônia

*Jornalista e escritor. Artigo na Folha de São Paulo inserida no Caderno Ciência, de 25/08/2019.
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