Luiz Felipe Pondé
*Luiz Felipe Pondé

A busca de timidez e discrição como sabedoria é um desafio para o século 21.

Outro dia ouvia uma colega, muito inteligente e bonita, me dizer da “gastura” que sentia em ouvir pessoas falando sobre suas qualidades intelectuais, realizações e títulos. Estando eu presente no momento desse infeliz “self marketing” que causou a “gastura” no estômago da minha jovem colega, entendi bem o que ela dizia.

O mau hábito de falar das próprias realizações sempre existiu. Mas, hoje, é diferente: ser brega e fazer self marketing virou uma “ciência”. Hoje, a velha máxima que “toda virtude verdadeira é tímida” se transformou numa informação urgente.

Toda virtude verdadeira é tímida. Sempre. Sim, sei que somos seres de contínua baixa autoestima, e que o mundo prima por nos ferrar todo dia: gorda, burro, brocha, histérica, mal amado, enfim, adjetivos feitos para destruir a já frágil autoestima que temos. E que, portanto, muitas vezes nos faz cair na tentação de reafirmar nossos feitos na cara dos outros. Mas há uma diferença quando fazemos isso em claro momento de desespero e quando fazemos isso achando que estamos abafando. O caso comentado pela minha colega era este segundo caso.

Por que toda virtude verdadeira é tímida? Antes de tudo, porque a vocação constante à vaidade que nos assola deixa a virtude insegura com relação a si mesma. Esta dinâmica, entre a dúvida da virtude x a certeza da vaidade é tema, por exemplo, da clássica polêmica da graça entre Santo Agostinho (354–430) e Pelagius (360–420).

Outro traço da virtude é ser desatenta consigo mesma. Por isso, alguns afirmam que a maior de todas as virtudes seria a humildade, uma vez que esta é o oposto simétrico da vaidade. O cotidiano da virtude não é checar a si mesma continuamente no espelho para ver o quão bem sucedida ela tem sido em ser ela mesma. Essa desatenção consigo mesma é traço essencial da virtude. Associada a ela está a percepção de “naturalidade” que toda virtude verdadeira transparece.

Somos naturalmente “equipados” com a capacidade de identificar a leveza com a qual alguém age de modo virtuoso. Assemelhando-se à manifestação da graça, a leveza da virtude tímida e natural equipara-se à beleza sem vaidade.

Essa “naturalidade” da virtude está descrita por Aristóteles (384 AC–322 AC) quando em seu “’Ética a Nicômaco” ele diz que a virtude deve se transformar numa segunda natureza.

Não se trata de negar o esforço consciente em busca do comportamento virtuoso, segundo o filósofo. O esforço é real e consciente. Portanto, a timidez da virtude não é fruto de sua inconsciência como comportamento. A timidez é fruto da naturalidade (segunda natureza, nos termos do filósofo) que caracteriza uma virtude madura.

Timidez aqui é quase uma metáfora, não para a insegurança enquanto tal, mas para a virtude instalada no cotidiano do virtuoso que se deixa perceber pelo ato, e não pelo “anúncio do ato”.

A ética é uma ciência prática. A ideia de fazer marketing da ética é como se afirmar que um círculo é quadrado. Dizer que a virtude é prática e jamais teórica significa dizer que só o outro reconhece a virtude em você. A virtude é da ordem do ato e não do discurso. Se você falar da sua virtude, você jamais convencerá uma pessoa razoavelmente inteligente e madura da veracidade da sua afirmação. Porque quem precisa anunciar sua própria virtude é porque a prática dessa virtude não é suficiente para ser reconhecida.

Por isso, afirma-se que a virtude é pública, jamais privada. É silenciosa, mas sua existência é atestada pelo olhar do outro que a vê acontecer no mundo, sem anunciar que está acontecendo. O histórico do seu comportamento, reconhecido ao longo do tempo pelas pessoas à sua volta (mesmo as que te odeiam), se constituirá na substância do seu caráter. Esse caráter, ao longo da vida, se constituirá, por sua vez, no seu destino. Por isso, afirma-se que virtude é destino. Sendo ela uma segunda natureza, realizada no silêncio do esforço prático sem tagarelice, a virtude (ou a ausência dela) pode se transformar numa maldição mesmo. Nada garante que virtude traga “felicidade”.

No nosso mundo tagarela, marcado pela breguice do self marketing, a virtude não deve ser apenas tímida, mas a própria timidez se torna, a cada dia, uma virtude em si mesma. E esta é um animal do silêncio. Semelhantes a ela são a discrição, a delicadeza, a elegância e a contenção. A busca dessas virtudes como forma de sabedoria é um desafio para o século 21. Otavio Frias Filho era um exemplo vivo delas.

*Filósofo e escritor. Artigo na Folha de São Paulo, Caderno Ilustrada C6, de 03/09/2018.
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