fernanda torres
*Fernanda Torres

Sou branca. Não confio mais no meu julgamento.

Vou contar uma coisa horrível. Eu gostei de “Green Book”.

Achei o final mela cueca, mas isso não destruiu meu interesse pela história do ítalo-americano bronco, que só enxerga o horror do racismo depois de uma turnê pelo sul dos Estados Unidos, como motorista de um músico afro-descendente erudito.

Pior, não vi problema na entrega do Oscar de melhor filme para “Green Book”, pois torci contra o Disney queen, “Bohemian Rhapsody”, e achei “A Favorita” de uma afetação insuportável. E fui dormir em paz, porque já era tarde.

Para dizer que não sou um caso de todo perdido, confesso que me incomodei com a coadjuvação de Mahershala Ali na película, escrita, é verdade, pelo ponto de vista do italiano; e lamentei a derrota de Spike Lee nas principais categorias.

“Infiltrado na Klan” mistura humor e terror com grande maestria. É um filme pop e irreverente, com um epílogo matador: um corte abrupto para imagens documentais dos supremacistas brancos de Charlottesville. Não gosto do excesso de risos do telefonema final, mas isso não comprometeu meu apreço pela obra.

No dia seguinte à festa, descobri que Spike Lee havia comparado “Green Book” ao tedioso “Conduzindo Miss Daisy”. E, mais, tinha virado as costas em protesto pelo resultado da premiação.

Foi o que bastou para eu pôr em xeque minhas certezas.

A campanha do Oscar é um funil tão violento quanto o de uma corrida eleitoral, cujo resultado, na arte e na política, acaba por refletir o espírito do tempo.

Em 2018, o escândalo de assédio sexual envolvendo o todo-poderoso produtor Harvey Weinstein fez da premiação um palco para o movimento #MeToo.

A cerimônia deste ano teve como tema o racismo e serviu de resposta ao Omo Total radiante do #OscarsSoWhite de 2016, ano que não teve indicações de afro-americanos para nenhuma categoria.

O Oscar 2019 trouxe citações jocosas ao muro de Trump, roteiro em espanhol e a presença do lendário congressista e ativista pelos direitos civis John Lewis, um dos seis grandes líderes que, em 1963, organizaram a marcha de Washington para protestar contra a segregação racial.

Para reparar o vexame de 2016 e trazer maior diversidade ao prêmio, a  Academia ampliou o leque de latinos, afro-descendentes e estrangeiros com direito a voto.

A mudança se traduziu na eleição de rostos antes improváveis. Talvez por isso, os agradecimentos se revelaram mais reverentes do que se esperaria de uma noite de repúdio ao racismo.

Regina King encerrou sua fala com um enigmático “Deus é bom”. Rami Malek mencionou ser um filho de egípcios imigrados, enalteceu a coragem de Freddie Mercury, mas expressou, acima de tudo, gratidão. Mahershala Ali e Alfonso Cuarón foram chiques e econômicos, evitando o discurso aguerrido.

Oscar 2019

Spike Lee recebe o prêmio de Melhor Roteiro Adaptado por ‘Infiltrado na Klan’ Valerie Macon/AFP.

Sarah Paulson e Paul Rudd apresentam o prêmio de Melhores Efeitos Especiais – Valerie Macon/AFP.

Lady Gaga e Bradley Cooper apresentam a música “Shallow”, do filme ‘Nasce uma Estrela’ – Kevin Winter/AFP

Daniel Craig e Charlize Theron apresentam o prêmio de Melhor Ator Coadjuvante – Kevin Winter/AFP

Spike Lee, não. Lee narrou a saga da própria família, que, a duras penas, demorou quatro gerações para matricular um herdeiro de escravos na Universidade de Nova York, e foi o único agraciado a explicitar a pauta, tocando na ferida incurável da escravidão.

Já os produtores e o diretor de “Green Book” preferiram ser protocolares, passando ao largo da questão racial. Caso tivesse recebido o prêmio de melhor direção ou filme, Lee teria feito história, aproveitando o tempo de TV, com alcance planetário, para exigir o “Do the right thing”, fazer frente a Trump e sacudir o banho-maria do evento.

Ele tem razão, escolheram um drama genérico.

Sou branca. Não confio mais no meu julgamento. Não sei se as roupas das baianas do acarajé representam um delírio escravocrata em pleno século 21 ou se são uma herança dos malês.

Não sei se a junta de generais em torno de Bolsonaro é um perigo ou uma salvação. Não tenho mais convicção de coisa nenhuma.

O mundo mudou muito desde a última vez que eu saí.

*Atriz. Escritora. Colunista da Folha de São Paulo. Artigo no Caderno Ilustrada, de 01/03/2019.
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