fernanda torres
*Fernanda Torres

 Oposição tem de deixar dramalhão de circo e mirar método stanislavskiano.

O drama de Theresa May para aprovar o brexit debaixo de apupos, afrontas e escárnio da plateia ruidosa de parlamentares prova que o GlobeTheater e a Casa dos Comuns guardam um parentesco maior do que sonha a nossa vã filosofia.

Não à toa, Glenda Jackson, depois de 23 anos atuando como membro do Parlamento britânico, retomou a gloriosa trajetória de atriz na pele do rei Lear com críticas consagradoras. Mesmo longe da ribalta, Glenda jamais abandonou o teatro.

No Brasil, a política tem se assemelhado menos a Shakespeare e mais a um “Telecatch” estrelado por Ted Boy Marino.

Em meio à histeria geral, a entrevista do deputado federal de primeira viagem Felipe Rigoni no programa “Diálogos” foi um alento de clareza e sensatez. Moderação rara, em tempos tão obscuros, de se encontrar no Congresso, no Planalto e, muitas vezes, no próprio Supremo.

Formado em engenharia de produção pela Universidade Federal de Ouro Preto, e com mestrado em políticas públicas pela Universidade de Oxford, Rigoni é fruto do movimento apartidário Acredito, empenhado na formação de uma nova geração de coadjuvantes políticos, capazes de fazer a geringonça pública sair do ponto morto.

A deputada Tabata Amaral é parceira de Rigoni no Acredito.

Na sabatina do ministro da Educação, Tabata desferiu o golpe fatal, cobrando planilha, projeto, coerência e, por fim, a renúncia do incompetente Vélez Rodríguez.

Bancado por empresários como Jorge Paulo Lemann, Guilherme Leal e Luciano Huck, o Acredito é visto como esquerda caviar pelos que defendem o Estado mínimo, e direita alfafa orgânica pelos que creem no Estado forte.

Num mundo incapaz de enxergar nuances, Rigoni, que perdeu a visão na adolescência, vê-se ao centro. “Sou liberal na economia e progressista nos costumes”, diz, sob protestos dos que idolatram os bufões de extremo.

Para o deputado, o problema é a polarização do Congresso, que atravanca o avanço de pautas que trariam resultados práticos para a população, calcados em estatística e estudos de impacto. A retórica operística se locupleta na ineficiência.

O embate de Paulo Guedes na CCJ serve de exemplo para a observação de Rigoni.

Sempre me incomodou a soberba de Guedes, a falta de escuta, o pragmatismo ultraliberal num país sem esgoto e a indiferença com que encara a agenda moralizadora dos costumes. No bate-boca da quarta-feira, no entanto, confesso que terminei o dia solidária ao ministro.

Eu não sei se os que estão a favor da reforma da Previdência preferiram se manter afastados dos holofotes, para não imortalizar o apoio em vídeos com potencial destruidor em eleições futuras. Talvez.

Mas a força do coro grego dos contrários pareceu estar mais ligada ao amadorismo do governo do que ao prefiro sumir de vista dos parlamentares favoráveis ao projeto.

De cabeça, só me lembro do elogio primário que o gaguejante Major Vitor Hugo dedicou ao ministro. De resto, foi só paulada.

Guedes é um primeiro ator que não recua diante da vaia. Hábil, citou os avanços sociais implementados por Lula e disparou a metralhadora giratória, cobrando responsabilidade dos congressistas, do presidente e de uma oposição que esteve no poder e não fez aquilo que, hoje, exige dele: reforma tributária, taxação de fortuna, dos rentistas e cortes na folha dos militares.

Vélez é imperdoável, Damares, Araújo e William Damazio no lugar de Ilona Szabó. É um elenco condenado ao fracasso. Os tuítes e o poder paralelo de 01, 02 e 03 são intragáveis. Você pode discordar do Posto Ipiranga, mas é preciso reconhecer que ele difere da canastrice tacanha dos demais empossados.

Se a reforma da Previdência fosse uma peça de teatro, a falta de contribuição das empresas na capitalização privada dos trabalhadores – ou mesmo a garantia dessa capitalização – num país que viu o Montepio da Família Militar virar pó valeria um bom segundo ato. A aposentadoria rural e as perguntas técnicas que terminaram sem resposta, um terceiro.

Mas o suicídio dos velhinhos chilenos é novela barata de rádio, não pode servir de argumento. Tigrão e Tchutchuca é título de pornochanchada dos anos 1970. A oposição tem que abandonar o dramalhão de circo e se espelhar na eficiência do método stanislavskiano dos neófitos Rigoni e Tabata.

O resto é muito barulho por nada.

*Atriz. Escritora. Colunista da Folha de São Paulo. Artigo no Caderno Ilustrada, de 07/04/2019.
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