O tacacá era o alimento de preferência dos manauaras que trabalhavam durante o dia e estudavam à noite. Servido com bastante goma de tapioca, muito jambu e com todos os camarões que o freguês tem direito. Hoje há esses abomináveis “fast-foods” ou então o salgadão com refrigerante. O que também é altamente condenável por qualquer nutricionista de plantão. O tacacá, sem dúvida, é muito mais saudável.

Francisco Gomes, nosso confrade no IGHA-Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas, contesta Câmara Cascudo quanto à origem do tacacá como produto dos indígenas paraenses. Para o ilustre historiador a origem é possivelmente na região da antiga Serpa, hoje Itacoatiara. Diz Gomes que Avé-Lallemant, viajante alemão pela Amazônia, lá pelos anos de 1859, provou o tacacá na velha Serpa, qualificando-o como “a bebida nacional dos Mura”.

Domingo passado conversava com a tacacazeira dona Elsa. A simpática senhora regateava camarões no mercadão Adolpho Lisboa. Disse-me que antigamente seu marido produzia a goma de tapioca e o próprio tucupi.  As únicas coisas que comprava era o camarão e o alho, como estava fazendo agora.

– O jambu, a pimenta e a chicória vêm do meu quintal. O tucupi e a goma de tapioca são fornecidos por um compadre que mora na Cidade Nova. Aqui no mercado é caríssimo, me disse.

Perguntei-lhe qual a dica para se fazer um tacacá bem gostoso. Ela explicou-me rapidamente que deveria levar ao fogo o tucupi em uma panela com o alho bem amassado, o sal, a chicória e a pimenta-de-cheiro. Abaixar o fogo quando começar a ferver. Em outra panela cozinhe o jambu. Muitos sulistas ficam intrigados com o jambu. Provoca sensação de formigamento na boca. Pavulagem, comenta sorrindo.

-Agora vou te contar um segredo: é preciso lavar bem os camarões e ferver por uns cinco minutos. A goma deve ser feita com a água dos camarões. Muita gente não sabe disso.

A senhora não deveria contar esse segredo por aí, argumentei. Ela me disse que não tinha medo de concorrência.

-E não se esqueça de que é preciso retirar a cabeça e a casca do camarão. E fazer tudo com muito amor para ficar gostoso. Outra coisa que é importantíssimo. Devemos servir o tacacá em cuia limpa e bem lavada.

Agradeci a dona Elsa e lhe dei os parabéns. Ela, muito vaidosa, despediu-se.

-Sou tacacazeira profissional.

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Pedro Lucas Lindoso
Escritor amazonense, nascido em Manaus. Filho de José Lindoso e Amine Daou Lindoso. Ex-advogado do extinto Banco Nacional de Crédito Cooperativo – BNCC. Em 1990 foi nomeado diretor de Assuntos da Cidadania do Ministério da Justiça. Ex-procurador geral da Embratur-Instituto Brasileiro de Turismo.Ex-assessor jurídico da Secretaria de Educação do Distrito Federal. Professor da disciplina Introdução ao Estudo do Direito. Membro do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas.

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