Surra no poeta
Surra no poeta

“E olha que o poeta era daqueles de alta qualidade, versejador de primeira,oriundo de outras plagas, mas já bastante entrosado com a vida manauense”. 

Mesmo em tempos em que não havia mídias sociais e as notícias corriam lentamente até mesmo na própria cidade de Manaus, um fato, de tão agressivo e considerado despropositado, não posso dizer que correumundo mas varou por diversas cidades brasileiras: a surra que o poeta pegou, no meio da rua.

E olha que o poeta era daqueles de alta qualidade, versejador de primeira, oriundo de outras plagas, mas já bastante entrosado com a vida manauense, frequentando os bares e terrasses, convivendo com os sabichões, escrevendo discursos e poesias de encomenda, ganhando a vida na imprensa e, em certo tempo, até como revisor do Diário Oficial do Estado, emprego público razoavelmente remunerado. Portanto, não era uma pessoa sem relações, embora fosse daqueles que não dava um galo para entrar na rinha e ainda cobrava muitos outros para dela sair.

E tudo ocorreu nos tempos de pré-guerra mundial, no governo de Jonathas Pedrosa, médico e político à moda antiga, vindo da Bahia e que, tendo se radicado no Amazonas, fez barba, cabelo e bigode na política, foi oposição e situação no Império e durante a Primeira República (1889-1930) botou banca na liderança de partido e comandou jornal. Homem de bem, acostumado a muita luta e a enfrentar opositores aguerridos que mudavam de lado a qualquer tempo e por qualquer chuvisco de interesse.

A surra levada na rua não teria sido a primeira das muitas encrencas em que o poeta se viu envolvido, ou se envolveu por gosto próprio. Aindaem Belém, quando por lá versejava e ganhava o pão, em plena redação do jornal “Folha do Norte”, andou tomando uns tapas na cara, por alguma coisa que teria feito contra Paulo Maranhão, que era o secretário do jornal, lá por 1910.

Um ano depois; largado de Belém para Manaus, o mesmo poeta andou em palpos de aranha por ter publicado carta em que denunciou ter escrito certa conferência para um figurão das letras pronunciar em festa de gala e posar de intelectual na presença do governador, tudo por uns trocados que precisava para sobreviver. E porque o figurão não lhe pagou os trocados, botou a boca no trombone e fez publicar a carta denúncia.

O mais grave de tudo foi o espancamento que aconteceu a 13 de outubro de 1913, em plena rua, no bairro do Mocó, quando o policial Hermógenes Alves de Oliveira largou lenha nos costados do pobre poeta, dando-lhe uma surra daquelas que espantou o noticiário, e, antes de concluído o inquérito, acabou demitido pelo chefe de Polícia, João Lopes Pereira.

Consta nos anais da política que o espancamento teria sido mandado fazer por ordem e graça superior do governador, insatisfeito com artigos, poemas e conversas que o poeta andava fazendo pela cidade, de bar em bar, nas beiras de calçada ou em qualquer lugar em que chegasse.

A surra foi grossa. Alquebrado pela vida boêmia, residindo em casa modesta na distante Cachoeirinha, possivelmente sem qualquer companhia permanente como era do seu estilo, há de tersofrido muitas dores em consequência da apalmatoada do agressor que, ao que parece, não contou conversa e largou a mão sem dó nem piedade, deixando o poeta nas cordas do ringue de rua em que duelaram, se é que houve duelo ou foi só uma agressão braba.

Há quem diga por aí, como se fosse verdade, que pouco depois e em consequência dos fortes e muitos safanões, o poeta foi a óbito. Não! Os simbolistas perderam um dos seus mais importantes poetas, o grande e consagrado Maranhão Sobrinho, um dos fundadores da nossa Academia Amazonense de Letras, dois anos depois, na noite de Natal de Jesus.

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Roberio Braga
*Amazonense de Manaus. Historiador. Bacharel em Direito, especializado em Direito Agrário, pós-graduado em Administração de Política Cultural e Mestre em Direito Ambiental. Professor da Escola Superior da Magistratura do Amazonas e da Universidade do Estado do Amazonas. Ex-presidente da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Secretário de Estado de Cultura, desde 1997 até esta data.

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