Reinaldo José Lopes
*Reinaldo José Lopes

Complexidade do DNA deve adiar, talvez para sempre, o sonho de criar super-humanos.

A julgar pelo que algumas pessoas andam falando (entre elas, gente bem influente e/ou cheia da grana), a ascensão de “super-humanos” geneticamente modificados, o próximo estágio da evolução da nossa espécie, é só questão de tempo, e talvez já esteja nos aguardando na próxima esquina.

Só consigo responder a essa ideia tomando de empréstimo um dos bordões de José Simão, patrimônio histórico do humorismo brasileiro e desta Folha: hoje só amanhã. Falar é fácil, criançada. Quero ver é fazerem mesmo os X-Men da vida real.

Veja, não estou pedindo um careca capaz de ler pensamentos ou uma ruiva deslumbrante que mexe objetos com a mente. Se alguém me dissesse que sabe como produzir no tubo de ensaio um bebê com QI de 200 (a média da população é 100), ou então um velocista que corra os 100 metros rasos em 8 segundos, eu já ficaria convencido.

X-Men ao longo do tempo

X-MEN – PRIMEIRA CLASSE (2011) Para contar a origem do grupo, nos anos 1960, novos rostos apareceram na tela. As escolhas revitalizaram a franquia, com a entrada de dois atores populares e frequentadores habituais da festa do Oscar: Michael Fassbender, como Magneto, e Jennifer Lawrence, como Mística/Divulgação

“Spoiler”: não vai acontecer tão já. Talvez não aconteça nunca ou, caso algo assim se materialize, os custos serão tão ou mais altos que os benefícios.

É, pode ser que eu esteja sendo categórico demais. Afinal, não faz muito tempo, em novembro de 2018, o pesquisador chinês He Jiankui anunciou ter usado a revolucionária técnica de edição de DNA conhecida como Crispr (pronuncia-se “crísper”) para gerar bebês (por enquanto, duas meninas) que carregam genes destinados a lhes proteger contra a ação do vírus HIV.

Jiankui agiu, ao que tudo indica, nas brechas do sistema regulatório relativamente permissivo da China, e cientistas de seu país e do mundo todo o condenaram pelo ato – ele chegou a perder o emprego de professor universitário. Mas o negócio funciona, não funciona? Não seria uma notícia alvissareira para a aurora dos superbebês?

Seria se a gente fizesse a mais vaga ideia de como usar a Crispr para mexer no que realmente importa. OK, “o que realmente importa” é um termo vago. Claro que é interessante ser resistente ao HIV, mas estamos falando de uma característica que ocorre naturalmente, por meio de mutações espontâneas, nas células de milhões de pessoas. E que depende de mudanças num único gene – entre dezenas de milhares dos que compõem o seu, o meu, o nosso DNA.

E quanto a inteligência, habilidade atlética, talento musical ou mesmo beleza? Essas coisas têm em comum o fato de que dependem da interação complicada de milhares de genes, muitos dos quais com funções, efeitos e peso no resultado final que hoje são desconhecidos.

Suponhamos, porém, que boa parte dessa ignorância atual seja elucidada e que, de quebra, seja possível usar a Crispr para mexer em milhares de genes em paralelo –coisa que hoje, vale repetir, não é viável. Desprezemos também a interação dos genes com o ambiente e vamos supor que a edição de DNA já é mais de meio caminho andado para o resultado que se deseja obter. Problema resolvido?

Não, porque genes muito raramente atuam sozinhos sobre uma característica desejada, deixando o resto do organismo incólume. A proteína cuja receita está contida no gene X e que tem o efeito Y sobre o sistema nervoso também pode desencadear o efeito Z sobre as células do fígado, digamos – e pode ser um efeito nada interessante para a saúde, ou a longevidade, ou a fertilidade do sujeito.

Variantes de genes, em outras palavras, sempre têm tanto custos quanto benefícios, e o mesmo vale para as características que eles influenciam. Não existe almoço grátis em biotecnologia futurista.

Jipinho yutu-2 em imagem capturada pela sonda Chang e-4, que posou no lado afastado da lua no início de janeiro/CNS/AFP.

*Jornalista e escritor. Artigo na Folha de São Paulo, Caderno Ciência B5, de 10/02/2019.
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