*Cláudia Collucci

Pesquisadores dos EUA avaliaram fatores que podem influenciar na eficácia da imunização, além da vacina em si.

O sucesso de uma vacina contra a Covid-19 dependerá não apenas da sua eficácia medida pelos testes clínicos, mas também do quão rápida e amplamente ela será aplicada, da gravidade da pandemia no momento da imunização e da vontade do público de ser vacinado.

A conclusão é de um estudo de pesquisadores das universidades de Yale e de Harvard (EUA), publicado no periódico científico Health Affairs, dedicado a políticas de saúde.

União Europeia começa vacinação contra a Covid-19

Profissionais da saúde esperam para tomar a vacina no hospital Santa Maria, em Lisboa Patricia de Melo Moreira -27.dez.2020/AFP

Enfermeira prepara uma dose da vacina contra a Covid-19 no hospital Santa Maria, em Lisboa Patricia de Melo Moreira -27.dez.2020/AFP

Por meio de modelo matemático, eles avaliaram quais fatores além da eficácia de diferentes vacinas podem influenciar no sucesso ou não de um programa de imunização.

Os fatores incluem:

1- Com que rapidez e abrangência a vacina pode ser produzida e administrada. Algumas vacinas apresentam desafios logísticos, como a necessidade de ser armazenadas em freezers ultracongelados ou a necessidade de duas doses, com semanas de intervalo.

2 – A parcela da população que deseja ser vacinada. Nos EUA, pesquisas sugerem que apenas 50% afirmam que receberão a vacina Covid-19. No Brasil, 73% se dizem dispostos a se vacinar, segundo pesquisa Datafolha.

3 – A gravidade da pandemia quando uma vacina for lançada. A proporção de infecções que uma vacina é capaz de evitar está diretamente relacionada à disposição do público de se envolver em comportamentos de mitigação, como o uso de máscaras e o distanciamento social.

Segundo Rochelle Walensky, co-autora do estudo e chefe da Divisão de Doenças Infecciosas do Massachusetts General Hospital (MGH), milhões de dólares já foram gastos no desenvolvimento das vacinas e as evidências preliminares sugerem que várias delas parecem ser eficazes.

Mas isso não é o bastante. “Muito mais investimento é necessário para garantir que as vacinas sejam distribuídas de forma eficiente, para promover a confiança do público na imunização e incentivar a continuidade das práticas que retardam a disseminação do novo coronavírus”, explica.

O estudo mostra, por exemplo, que a infraestrutura contribuirá tanto para o sucesso do programa de vacinação quanto a própria vacina. “Se houver atrasos na fabricação da vacina ou na implementação [dos programas de imunização], os benefícios à população diminuirão rapidamente”, diz David Paltiel, professor de saúde pública da Yale.

O governo de Jair Bolsonaro (sem partido) tem sido alvo de críticas por causa do atraso do Brasil na vacinação contra a Covid. Estados Unidos, Reino Unido, Canadá e países europeus iniciaram campanhas de vacinação. Na América Latina, países como México, Costa Rica, Chile e Argentina também já estão imunizando grupos prioritários.

No sábado (26), o presidente Bolsonaro disse que não dá bola para pressões pelo início da imunização. Na terça (29), o secretário-executivo do Ministério da Saúde, Elcio Franco, rebateu críticas de que haja demora do governo em fechar acordos com laboratórios para obter vacinas e disse que não pode “pegar a Pfizer pelo braço” e pedir que a empresa entre com pedido na Anvisa.

Segundo o site da Anvisa, não houve pedido de autorização emergencial ou registro por parte de nenhuma empresa farmacêutica.

Ministério da saúde lança plano nacional de vacinação contra Covid-19

O presidente Jair Bolsonaro, acompanhado dos ministros Eduardo Pazuello (Saúde) e Braga Netto (Casa Civil) e de vários governadores durante lançamento da plano nacional de vacinação contra a Covid-19, no Palácio do Planalto Pedro Ladeira/Folhapress

O presidente Jair Bolsonaro durante lançamento da plano nacional de vacinação contra a Covid-19, no Palácio do Planalto Pedro Ladeira/Folhapress

“Nossa capacidade de produzir impacto depende muito do quão rápido seremos [para começar a campanha e para a capacidade de vacinados por dia], do sucesso em chamar as pessoas para a vacinação conforme as prioridades e da intensificação das medidas de isolamento”, afirma Claudio Maierovitch, médico sanitarista da Fiocruz Brasília que já presidiu a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária entre 2003 e 2005.

Para os autores do estudo, mensagens públicas poderosas e estratégias de implementação da vacina em nível local também são necessárias para ajudar a superar o ceticismo sobre as vacinas, especialmente em populações carentes.

Bolsonaro tem levantado dúvidas sobre a eficácia e eventuais consequências causadas por vacinas contra a Covid-19. No entanto, estudos clínicos até o momento não identificaram efeitos colaterais graves.

O estudo da Health Affairs mostrou que mesmo uma vacina altamente eficaz terá dificuldades para controlar o Covid-19 se as taxas de infecção continuarem aumentando.

No Brasil, a taxa de contágio (RT) estava em 1,13, segundo monitoramento do projeto Info Tracker (Unesp e USP) divulgado no dia 20. Isso significa que cada grupo de 100 pessoas infectadas no país contamina outras 113. Segundo projeção do grupo, na primeira semana de janeiro (entre os dias 4 e 10), o Brasil atingirá 8 milhões de casos confirmados e a marca de 200 mil óbitos.

“Se eu tiver um copo d’água, posso apagar o fogo do fogão. Mas não posso apagar um incêndio florestal, mesmo que a água seja 100% potente”, compara Walensky, enfatizando o papel do público em manter a taxa de infecção baixa usando máscaras e praticando o distanciamento social.

“Sairemos disso mais rápido se você der menos trabalho para a vacina”, disse.

*Jornalista e escritora. Matéria na Folha de São Paulo, Caderno Ciência, de 02/01/2021.
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