fernanda torres
*Fernanda Torres

Apesar de Freud e Beauvoir, agimos como súditos da monogâmica rainha Vitória.

A origem de vira-lata corso, as batalhas fulminantes, a tresloucada campanha do Egito, as grandes conquistas, a coroa enfiada na própria cabeça, os quilômetros percorridos a cavalo, a hemorroida incurável, a derrota na Rússia, a fuga de Elba, a retomada de Paris e o exílio.

Mas existe um pormenor, que nada tem a ver com o talento do gênio para a política e a guerra, que muito me intrigou em sua biografia: a enorme liberdade sexual do imperador e de seus contemporâneos.

Depois de desembarcar no Egito com 25 mil soldados, de enfrentar os mamelucos e marchar pela areia fofa sob o sol do deserto, Bonaparte recebe a notícia de que sua mulher, Joséphine, desfila em Paris com o tenente Hippolyte Charles a tiracolo.

Para aplacar a dor de corno, o cônjuge traído investe em Pauline Bellisle, mulher de um oficial subalterno.
A lua de mel de Pauline e Jean-Noël Fourès fora interrompida pelo recrutamento do marido para a campanha do Egito. Intrépida, ela se disfarça de soldado da cavalaria e embarca com o noivo para Alexandria.

Pauline sobrevive à batalha do Nilo e chama a atenção de Napoleão no Cairo, onde volta a se vestir de mulher. Seduzido, o general despacha o marido da moça para casa e conquista a Cleópatra.

Mas a infidelidade mútua não levaria o casal Bonaparte à separação, que só aconteceria anos depois, devido à esterilidade de Joséphine, que a impedia de conceber um herdeiro.

Napoleão teria um filho de sangue azul com a segunda mulher, Maria Luísa da Áustria, sem jamais abrir mão de um número incontável de amantes.

A libertinagem amorosa da época independia de gênero e se fez presente até na erma Santa Helena, onde Albine de Montholon – casada com o marechal Charles-Tristan, que acompanhou o imperador no exílio – divide os lençóis não só com o marido, como com Bonaparte, o almirante inglês Cockburn e o tenente Basil Jackson.

Haja libido.

A batalha de Waterloo marca o fim da era napoleônica e a ascensão do puritanismo inglês. Adeus troca-troca.

Apesar de Freud, de Beauvoir e Freeman, ainda agimos como súditos distantes da monogâmica rainha Vitória. Somos mais caretas do que os franceses dos séculos 16, 17 e 18. O Rei Sol, Sade e Napoleão estão aí para provar.

Agora, sob a égide da nova onda conservadora evangélica, a situação tende a piorar.

O escárnio às pautas progressistas é fato consumado. A causa indígena, a identitária, o direito das minorias, a ecologia, a igualdade entre gêneros e o racismo viraram sinônimos de mimimi ideológico pelos leões do Coliseu anticomunista.

Note, Jair delegou ao Congresso e ao Posto Ipiranga a sua política econômica. E uma vez encaminhada a reforma da Previdência, o presidente se viu livre para mirar os canhões na direção da ciência, da educação, da imprensa e das artes.

Morte ao Inpe, ao Ibama, à Ancine e às federais. O que interessa é a propaganda e o controle moral e cívico do país.

Se você acredita que a lógica brutal do soberano é loucura, aconselho a leitura de “Submissão” (R$ 44,90, 256 págs., Cia. das Letras) do francês Michel Houellebecq, sobre a possível eleição de um líder muçulmano na França. 

No futuro hipotético de 2022, a alternância de poder entre os partidos de centro-direita e centro-esquerda colapsa, levando a ultradireita de Le Pen e a Fraternidade Muçulmana de Mohammed Ben Abbes às urnas.

Sem alternativa, a esquerda fecha com a Fraternidade e a França troca de credo.

Para formar uma geração de fiéis, o refinado Ben Abbes, assim como o bronco Jair, é liberal na economia e cirúrgico na educação e nos costumes.

A poligamia é liberada aos homens, as mulheres são afastadas das cátedras e a conversão dos professores do ensino público ao islã se torna obrigatória.

Sultões do petróleo injetam fortunas na velha Sorbonne, os salários são triplicados e a Academia começa a achar vantajoso o novo eixo de poder que une a Europa ao Oriente Médio.

Com ironia ímpar, Houellebecq disseca a arte de minar resistências e fazer de um Estado laico uma teocracia próspera.

Vale notar que antes de se tornar devoto dos Estados Unidos, o guru da família Bolsonaro, Olavo de Carvalho, foi admirador do islã. O Deus acima de todos de Jair tem parentesco com o Alá do profeta. Em quatro anos, estaremos todos convertidos.

Sei que não estarei viva na próxima guinada libertária. Resignada, sonho em ser Joséphine e Justine, enquanto mando coser uma cruz na minha burca.

*Atriz. Escritora. Colunista da Folha de São Paulo. Artigo no Caderno Ilustrada, de 28/07/2019.
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