*Marcos Lisboa

Nada como um burocrata para nos lembrar de que o papel da arte não é tocar fanfarras para o capitão da guarda.

A arte mente e pode ser sórdida. Nada como um burocrata para nos lembrar de que o papel da arte não é tocar fanfarras para o capitão da guarda.

Provoca risos e espanto a foto de Fernanda Montenegro amarrada como as bruxas de Salem, rodeada por livros no chão que lembram gravetos preparados para um incêndio.

Os risos são de fácil entendimento. A foto acompanha o último exemplar da Quatro Cinco Um, revista dedicada aos livros.

São muitas as ironias, afinal o título faz referência ao romance de Ray Bradbury sobre um futuro em que os livros são incendiados, “Fahrenheit 451”, a temperatura da queima do papel.

A revista celebra os 90 anos de Fernanda com duas resenhas sobre seu livro de memórias, e a dama do teatro pode ser compreensivelmente tachada de bruxa tendo em vista seu inexplicável talento para inventar personagens.

Fora do palco, sua mágica é capaz de calar uma multidão com sua voz sábia e sensata, enquanto atormenta burocratas com a sua imagem.

O espanto com a foto decorre da admiração que provoca. Ignorando a liturgia dos aplausos merecidos a uma velha senhora, Fernanda optou por mais uma atuação, desta vez sem o movimento e as palavras que lhe permitem a dramaturgia.

A atriz precisou apenas da cena e do seu corpo para contar histórias, como a da revista, que resenha seu livro, a do país, atordoado pela violência e pelo preconceito, e a do teatro, refúgio de mulheres condenadas à perdição.

A arte, porém, mente. Os conflitos entre seres imaginários, quando sublimes, sugerem personagens do nosso entorno com quem criamos afeto e compartilhamos a dor. O teatro inventa vidas e seus dramas que carregamos depois do espetáculo.

Em “As Ruínas Circulares”, Jorge Luis Borges propõe uma metáfora sobre a criação na arte. Um homem se dedica a sonhar outro homem. Fracassa, retoma e por fim consegue. Seu filho, sonhado, possui todos os detalhes da verossimilhança.

Existe apenas um senão. Caso tente morrer queimada, a criatura passará incólume pelas chamas. Enterramos os autores, mas não as suas personagens.

O conto termina com o criador, cansado e satisfeito com sua obra, entrando em um incêndio para deixar a vida. Para seu desespero, as chamas não o tocam. Ele também era invenção de outro homem.

A arte é sórdida. Encanta-nos com fantasias para que, ao fim, reconheçamos a nossa própria vileza, como a do burocrata convertido, cuja glória recente foi cometer uma grosseria.

A foto que assustou marmanjos era uma homenagem à literatura infanto-juvenil, com suas bruxas e fantasias, tema do encarte da Quatro Cinco Um.

Fernanda, senhora de muitas criaturas perturbadoras, é abençoada pelas chamas.

*Doutor em Economia e Presidente do Insper, Matéria na Folha de São Paulo. Caderno Opinião, de 29/09/2019.
Compartilhar
Autor Externo
As publicações são fontes externas de outros veículos de comunicação.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário
Por favor informe seu nome aqui